Rede Eletrônica: Sentidos e(m) movimentos
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MO(VI)MENTO DE APRESENTAÇÃO
A metáfora da navegação tem sido mobilizada com insistência em relação à Internet: navegar no ciberespaço materializa modos de o sujeito constituir deslocamentos no entremeio de arquivos dispostos no ciberespaço. Tema atual e instigante, coloca em movimento efeitos de transbordamento do sujeito já que aparentemente é possível tudo poder-dizer no espaço ciber, tudo-ser e tudo-fazer nas malhas do digital. Soma-se a isso o imaginário de um lugar discursivo sem fronteira nem tempo rígidos, o que inscreve sócio-historicamente a ilusão da suposta completude e potência das tecnologias digitais. Fica naturalizado o sentido de que, em se teclando, tudo dá e todas as rotas estão disponíveis sem fim e sem parada.
Nesse contexto, o sujeito move suas rocas de dizer a partir da sua submersão na topologia associativa do hipertexto, o que implica considerar outro modo de organizar o(s) seu(s) arquivo(s), de inscrever seus dizeres e de expor-se à heterogeneidade. No ciber, a navegação encerra uma maneira de estar permanentemente em suspenso na errância e na vagação de um espaço, que rompe a fisicalidade e propõe, em lugar dela, a virtualidade, isto é, o que pode vir-a-ser, aquilo que está prestes a tornar-se, a página do arquivo a ser baixado no próximo momento ou no clique seguinte.
Considerando tudo isso, os textos desse livro buscam refletir, na perspectiva teórica da Análise do Discurso francesa de Michel Pêcheux em interface com autores das Ciências da Informação, sobre como aqueles que teorizam como a internet pode ser lida e pensada, como o hipertexto propicia a emergência de outros modos de inscrição de arquivos e(m) discurso, e como os sujeitos em/na rede deixam suas pegadas de dizer na contemporaneidade. Pensar e problematizar essas questões são os objetivos dos capítulos que compõem a presente obra, dividida em três partes. Nesse mo(vi)mento de apresentação, descrevemos brevemente as reflexões propostas em cada trabalho.
A primeira parte, intitulada CORPO, AUTORIA E DISCURSO NA REDE ELETRÔNICA, é composta de quatro textos que abordam a inscrição do sujeito na rede e marcam a singularidade dos discursos no mo(vi)mento outro do espaço discursivo digital. Inaugurando essa parte, o texto Corpo e(m) discurso na rede, de Gallo e Romão, tem “como horizonte discutir a relação corpo, língua e rede eletrônica, tateando tanto quanto possível os efeitos de excesso e ausência” na/da língua inscrita no (corpo do) discurso. Em seguida, Dias, no texto Corpo-sujeito-máquina-escritura, discute o processo de desimbolização nas sociedades contemporâneas para pensar o corpo “numa outra lógica, a da circulação, da virtualidade, do simulacro e da simulação” como “um caminho promissor para compreender os sentidos que vem sendo produzidos para o corpo a partir do desenvolvimento das novas tecnologias.”. Na sequência, o texto de Galli, A escrita (em cena) no espaço digital da internet, aborda a re-produção e a circulação de materialidades discursivas no/do blog ‘Outros Cadernos de Saramago com o intuito de “problematizar a autoria dos dizeres colocados na rede” e de pensar “o blog como um lugar de atravessamento de vozes”. Fechando essa primeira parte, o texto Sujeitos, entre travas e deslizes, de Couto Abreu, traz a temática das políticas de autoria no Brasil, com foco nos direitos digitais. Segundo a autora, do “modelo centrado na relação editor e autor, temos agora maneiras de produzir e fazer circular uma obra que implicam diferentes relações de mediação. Esse novo modelo traz embates de toda ordem, em uma busca por hegemonia discursiva.”.
A segunda parte, intitulada FUNCIONAMENTO DE DIZERES NO ESPAÇO DIGITAL, é constituída por quatro textos que tratam do mo(vi)mento dos discursos em diversas materialidades disponíveis no ciberespaço. Na abertura dessa parte, o texto Blogs e museus eletrônicos: um estudo discursivo – de Ferrarezi, Bastos e Santos, traz uma reflexão sobre as discursividades de blogs e museus eletrônicos, sinalizando que esses “espaços discursivos [são] marcados pela heterogeneidade, incompletude e polissemia”.
A seguir, Patti e Giorgenon, no texto O sujeito e suas redes de dizer no on line, apresentam uma articulação dos “sentidos sobre rede discursiva e rede eletrônica permeando os movimentos do sujeito no on e no off, no dentro e no fora, no plugado e no desplugado, nos bordejamentos na/da rede em seu percurso pelos atos de linguagem”. Na interface entre Análise do Discurso e a Psicanálise, as autoras se debruçam especialmente no conceito de sujeito. Faria e Harumi, no texto O político discursivizado em sites de busca e blogs, fazem uma reflexão sobre “a rede (de sentidos) eletrônica como um espaço outro de poder (des)dizer, inscrever sujeitos calcados no político e atualizar regiões de sentidos acerca do político segunda tramas sociais e ideológicas.”. O corpus utilizado pelas autoras é composto por recortes que discursivizam “Marina Silva e Chico Mendes, enquanto sujeitos a(d)o discurso”. Finalizando essa segunda parte, o texto Materialidade discursiva verbal e não-verbal no YouTube: processos de significação em rede – de Lampoglia, Moreira, e Silva, discute “a forma como o sujeito inicia o processo de significação dos vídeos, a partir das entradas discursivas, do título, das tags e de sua classificação diante das categorias dadas a priori pelo sistema.” O corpus da pesquisa é formado de recortes imagéticos e textuais, inscritos no YouTube, sobre a ditadura militar no Brasil.
A terceira e última parte, intitulada INFORMAÇÃO E DISCURSO EM NOVAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO, é formada por três textos que buscam refletir sobre a in-formação e o mo(vi)mento da(na) contemporaneidade. Abrindo essa parte, Cunha, em Os desafios das tecnologias para os profissionais da informação, apresenta uma reflexão acerca da atual realidade que “pode ser compreendida através de suas múltiplas dimensões políticas, econômicas e sociais que modificam o conhecimento e o fazer humanos. Essa realidade é, ao mesmo tempo, fascinante e difícil. Fascinante pelas possibilidades da sociedade do conhecimento onde a virtualidade e a instantaneidade são fatos concretos.”. No texto Blogues sobre biblioteca escolar, Marcondes traz uma abordagem sobre mudanças tecnológicas e o surgimento do blogue como uma ferramenta que tem proporcionado “um novo modelo de comunicação”, em que “a interlocução entre o sujeito e a informação postada passa existir como uma relação, na maioria das vezes, com o objeto de estudo, ou seja, opiniões de sujeitos que de alguma forma conhecem o tema postado e que passam a dialogar para a construção de novos conhecimentos e ou informações.”. Mostafa fecha essa parte e também a obra, com o texto Michel Pêcheux e Gilles Deleuze: o discurso e a filosofia, no qual propõe um debate a partir da intercessão “entre a Filosofia, o Discurso e a Ciência da Informação” para problematizar a discursividade política em sites de busca e em blogs.
De nosso ponto de vista, essa síntese da obra demonstra o modo como temos buscado compreender os discursos e os sujeitos no mo(vi)mento da rede eletrônica, tal como o quadro de Kandinski nos inspira na capa, como feixe heterogêneo de formas, curvas em rotas de colisão com pontos, espaços vazados pelos furos e preenchimentos sempre transitórios no enquanto da navegação.
As organizadoras.
Informações Adicionais
| Autor | Lucília Maria Sousa Romão e Fernanda Correa Silveira Galli (Orgs.) |
| Ano de Publicação | 2011 |
| Páginas | 164 |
| Tamanho | 16 x 23 |
| ISBN | 978-85-7993-074-4 |
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