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Palavras na ponta-da-língua: uma abordagem neurolinguística

Palavras na ponta-da-língua: uma abordagem neurolinguística

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APRESENTAÇÃO

                                                                                                                                         

É com imensa alegria e orgulho que apresento aos leitores da Série “Na banca”, da Editora Pedro & João, o trabalho do Marcus Vinicius Borges Oliveira, carinhosamente tratado por Marquito pelos integrantes do nosso grupo de pesquisa, o GELEP (Grupo de Estudos da Linguagem no Envelhecimento e nas Patologias). O texto deriva de sua tese de doutorado, “Palavras na ponta-da-língua: uma abordagem neurolinguística”, fenômeno designado na literatura da área como TOT (Tip of the tongue), que permitiu ao autor não apenas discutir a intrínseca relação entre linguagem e memória, mas também questões relativas ao funcionamento dinâmico e integrado destas com as demais funções superiores: atenção, percepção e ainda, com o respaldo de Voloshinov e Freud, com a consciência.

A pesquisa traz preciosas contribuições teóricometodológicas para os campos da Linguística, Neurolinguística, Neuropsicologia e Fonoaudiologia, bem como para as reflexões ético-filosóficas articuladas na perspectiva sócio-histórico-cultural – destacando autores como Vygotsky, Luria, Jakobson, dentre outros. Essas reflexões são relacionadas de modo autoral e responsável, pelo autor, às ideias do Círculo de Bakhtin, aos trabalhos de Ponzio e de Petrilli, dentre muitos outros.

Desenvolvida com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a tese foi defendida em Abril de 2015, no programa de Doutorado em Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). A qualidade do trabalho foi reconhecida por todos os membros de sua banca de defesa (Lourenço Chacon, Susan Petrilli, Ester Scarpa e Guilherme Prado), que destacaram seu percurso metodológico inovador, de cunho qualitativo, revelado no desenvolvimento do Blog “Palavras na ponta da língua”, nas interações com os sujeitos afásicos do Centro de Convivência de Afásicos” e nas análises minuciosas dos dados. Foram também enfatizadas pela banca as contribuições do trabalho para uma clínica fonoaudiológica competente, amorosa e responsável; que dedique tempo ao outro; tempo para a escuta.

A esse respeito, Marcus se inspira nas palavras de Ponzio – autor que caracteriza a revolução bakhtiniana como o processo de centralização do outro: Segundo Ponzio (2010), um tempo que não pode ser objetivado, que não é aquele tempo disponibilizado, comercializável, medido. O tempo do outro é um tempo infuncional, um tempo per niente (Ponzio, 2008, 2010). Isso não significa que não devemos ter objetivos ao desenvolver a terapia com sujeitos afásicos. Pelo contrário, significa considerar que os objetivos são primeiramente do outro, que existem somente em função dele, e que temos que responder de forma ética e responsável a esses objetivos. Visando alicerçar sua prática terapêutica, pautada no respeito com os sujeitos com afasia (ou com qualquer outra patologia que impacte o funcionamento linguísticodiscursivo), Oliveira dialoga com os conceitos bakhtinianos, como vemos na seguinte passagem de seu texto: O outro é, de acordo com Bakhtin, aquele que pode, com o seu excedente de visão, conferir acabamento e posicionar-se axiologicamente na enunciação. Lembremos que, para o autor, esse movimento exotópico se dá em dois momentos. Primeiro, nós vamos até o outro, mas depois temos que voltar ao nosso lugar. Não podemos jamais coincidir com ele, pois somente do posicionamento único e singular podemos agir com relação ao outro (Oliveira, 2015: 141).

Petrilli, no texto já referido na epígrafe dessa apresentação, reflete sobre a necessidade de se remeter, em um trabalho sobre linguagem, à sua dimensão ética e nos brinda com a seguinte passagem, tomando como partida a tese do Marcus: Perché la dimensione etica? [...]. Il parlante, e non solo il parlante, ma anche colui che pensa, ragiona, organizza mentalmente il discorso, cerca una soluzione, si pone una questione, ha sempre a che fare con valori, con scelte, con prese di posizione, con responsabilità. Para Oliveira, os TOTs, sobretudo nos casos de afasia, “levam a pensar sobre a importância vital da palavra”, uma vez que “vivemos em uma sociedade logocêntrica, em que a perda da palavra traz impacto muito relevante na vida”. O autor destaca o postulado de Bakhtin segundo o qual não devemos esquecer a relação entre a palavra e a vida. Ao explicar a experiência dos TOTs, a ausência das palavras que “dançam como fantasmas”, dando ao falante a sensação da palavra naponta-da-língua (retomando aqui uma metáfora de W. James, em 1890), Oliveira novamente recorre à ideia de Bakhtin de que “a palavra não esquece seu próprio caminho na língua e não pode se libertar dos contextos concretos pelos quais passou”.

Para compreender os TOTs, as palavras que bloqueiam o seu caminho até a produção do enunciado e ainda aquelas que insistem em ser produzidas sem o consentimento do falante, Oliveira articula os estudos dos principais pesquisadores do fenômeno nos diversos campos que integram as neurociências: William James, Brown & McNeil, Woodworth, bem como os trabalhos desenvolvidos na área de Neurolinguística do IEL com destaque para o de Coudry, em 1986, O Diário de Narciso: afasia e discurso. Este texto fundador da área, segundo Oliveira, “foi absolutamente revolucionário”, ainda quando estava na graduação em Fonoaudiologia, influenciando a sua forma de estudar a afasia, se “afastando criticamente das teorias mais tradicionais sobre o tema”. O autor ainda, ao longo de sua obra, as leituras que fez dos trabalhos de Novaes-Pinto, SouzaCruz, Mazuchelli, Cazarotti, dentre outros, para discutir questões relativas às teorias linguística e neurolinguística e sobre a metodologia que guia os trabalhos do GELEP nas pesquisas e o trabalho desenvolvido no Centro de Convivência de Afásicos (CCA), lócus privilegiado de seu trabalho sobre os TOTs.

Petrilli (em sua arguição na banca de defesa), destacou a consonância entre os princípios da Neurolinguística enunciativo-discursiva como “uma linguística da enunciação”, da palavra viva que se apresenta prontamente, tarda a ser produzida ou que permanece “na ponta-da-língua”: […] Ci troviamo molto d’accordo con questa impostazione in cui la neurolinguistica si stacca da quella che potremmo chiamare la linguistica tradizionale, che va da Ferdinand Saussure fino a Noam Chomsky, in cui è la frase la protagonista da analizzare, considerandola, anzi sorvegliandola e anche riconducendola, [...] Nel caso del lavoro di questa tesi, invece, si tratta di una linguistica dell’enunciazione [...]. E’ nell’enunciazione che la parola vive, trova la sua pertinenza, si presenta prontamente, o ritarda, o resta lì sulla punta della lingua. Concluindo este texto, gostaria de chamar a atenção do leitor para o início de cada capítulo, onde o Marcus nos presenteia com excertos de canções (populares ou consagradas) – um verdadeiro garimpo de versos que realizou sob a influência das “migalhas” reunidas por outro amigo em comum, Lourenço Chacon.

O Marcus também é músico e poeta, o que talvez nos ajude a compreender de onde vem a sensibilidade para escrutinar os fenômenos da linguagem, da memória, da percepção e, não raramente, para nos emocionar. Também destaco o uso, em alguns títulos de seus capítulos, de metáforas sugeridas por seus amigos ao longo das conversas, na tentatiza de sintetizar um fenômeno tão complexo como o TOT. De Ponzio, retoma a palavra na ponta-da-palavra, para se referir à complexa rede semiótica e às relações nem sempre explicáveis para os enlaces entre os signos buscados e aqueles que surgem. De suas reflexões comigo, também enfatiza a natureza misteriosa da ocorrência da palavra na ponta-dalíngua como a parte visível de um iceberg, a ponta apenas. Nem por isso ele dedicou-se apenas a olhar o que é perceptível ou que esteja na superfície. Sem medo de “mergulhar nas profundezas”, ao mesmo tempo que procurou desvendar seus mistérios, se deixou maravilhar por eles. Buscou escutar o quase inaudível e ver o quase invisível.

Vale mencionar que todas essas qualidades que sublinhei nesta apresentação foram também reconhecidas no âmbito do Departamento de Linguística do IEL, que selecionou a tese do Marcus para representar o nosso programa no Prêmio Capes-Teses de 2016. A meu ver, a escolha pode ser interpretada como um indício de que a Linguística que desenvolvemos também se interessa pelas abordagens que põem em realce o sujeito e o funcionamento linguístico-cognitivo não idealizados; uma Linguística que ultrapassa a formulação de modelos. Que acredita que a análise do enunciado singular, único e irrepetível pode iluminar a compreensão da linguagem e contribuir para o desenvolvimento de trabalhos que retornem à sociedade – seja no ensino, na pesquisa, em projetos de extensão como o CCA ou na clínica fonoaudiológica. Com certeza o leitor vai reconhecer, ao longo do trabalho, o prazer que o Marcus deixa transparecer ao discutir suas questões; ao fazer ciência no sentido bakhtiniano do termo, com profundo interesse pelos sujeitos e por suas estórias. Uma ciência que se constrói na dialogia, no enunciado como unidade real da comunicação, nos acabamentos dados às palavras muitas vezes enigmáticas e aos enunciados sempre inacabados dos sujeitos afásicos e também dos não-afásicos.

Para além de todos os méritos de sua pesquisa, por fim, gostaria de ressaltar o prazer de conviver com o Marquito ao longo desses anos, nas aulas do IEL, nos eventos científicos no Brasil e pelo mundo, nas (já) muitas parcerias em publicações e, também, nas conversas animadas e infuncionais em torno da vida. Muitas e produtivas convivências que nos tornaram grandes amigos.

Com todo o carinho da amiga e orientadora (pois dizem que para “orientadora” nunca se usa “ex“)

Rosana Novaes

IEL/UNICAMP 08 de Novembro de 2017

Informações Adicionais

Autor Marcus Vinicius Borges Oliveira
Ano de Publicação 2017
Páginas 239
Tamanho 14 x 21
ISBN 978-85-7993-447-4

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