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O Amor em tempos de escola

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O RISCO DE “CRIANÇEAR”: PARA AMAR O TEMPO DA ESCOLA

 

     Este é um livro para quem se interessa pelo risco. Toda escrita começa com um risco; nem sempre um risco num papel – muito embora fazê-lo seja sempre arriscado – mas sempre com um risco ético e estético. Riscar o papel com palavras é começar um movimento de pensar sobre nosso próprio pensamento, experimentá-lo em outra temporalidade, não mais cronológica, mas outra. É construir um novo campo, um novo front, abrir uma nova janela de compreensão da realidade (pois é através da linguagem que a experimentamos). E para isso é preciso coragem, porque a única maneira de realmente fazê-lo é com verdade. Não a verdade dos enunciados válidos, lógica, abstrata, mas uma outra, que tem a ver com um modo de estar no mundo, uma verdade da responsabilidade, um agir verdadeiro. Esta verdade demanda coragem pois tem como complemento sempre a dúvida. Está sempre inevitavelmente ligada a seu contexto, cuja compreensão total escapa a quem só vê de um ponto de vista. Escrever é descobrir. É como perceber-se cego ou cega e tatear, esticar as mãos à frente e com elas riscar o ar.

     Arriscar. "Eu gosto da filosofia porque é como se a gente fosse um detetive" – Ana, com seus 11 anos, compreende melhor que a maioria dos teóricos que o pensamento é uma atividade de exploração, de descoberta. Ela ainda se interessa por desvendar enigmas, e por isso pode se relacionar de maneira potente e dialógica com o mundo – já que a realidade é enigmática, obscura. E em se falando de obscuridade, convém lembrar de um dos grandes enigmas da história do pensamento: Heráclito. Não temos acesso à sua obra, a não ser por citações nos textos de outros pensadores e historiadores. Assim, o contexto de cada fragmento de Heráclito é inexato, e por isso podemos apenas deduzir seus significados. Ler Heráclito não é diferente, portanto, de conversar com qualquer pessoa no mundo e especialmente não é diferente de dialogar com uma criança. Um de seus fragmentos, por exemplo, nos permite analisar a relação de Ana com o mundo: o fragmento 123 diz: “φύσις [...] κρύπτεσθαιφιλεῖ”. Em uma tradução livre própria, "A natureza deseja intimamente ocultar-se". Ana parece ter percebido o mesmo que Heráclito, ao compreender que a realidade deve ser descoberta. Se esconde porque deseja, intimamente, ser revelada. Não como uma suma verdade a ser alcançada, mas como uma coleção de mundos possíveis na relação entre texto e contexto, ou sujeito discursivo e sujeito humano. Entre o mundo (real) e o mundo (descoberto por Ana). Ana cria o mundo em que vive e parece perceber isso. Em outro momento, diz: "[...] e ai se eu não falar o que está na minha cabeça ninguém vai ter como falar isso"; e depois: "porque ninguém mais é eu, só eu". Ela parece compreender a responsabilidade que tem de viver de maneira verdadeira, ousar, de se comprometer, de assinar responsavelmente seus atos. Ana percebe que tem a obrigação de pensar e dizer, pois ninguém mais verá o mundo como ela vê. Este mundo oculta-se nela, e ela é, portanto, responsável por revelá-lo, por descobri-lo. Como uma detetive, como uma exploradora. Ana pode perceber isto de maneira tão clara porque habita uma temporalidade diferente da dos adultos.

     O fragmento 52 de Heráclito pode nos ajudar (por atrapalhar) a pensar essa relação. O texto original é “αἰὼν παῖςἐστι παίζων”, que normalmente se traduz por "O tempo é uma criança brincando". Mas uma tradução mais atenta e menos exata chamaria atenção para essas duas palavras: αἰὼν e παίζων. A primeira, aión, remete a uma ideia de tempo grega diferente da mais tradicional, χρόνος, chrónos, que diz respeito a um tempo cronológico, medido, pequeno. Aión, muitas vezes traduzido também por eternidade, tem a ver com uma outra noção de tempo, não redutível a unidades de medida, mas amplo, intensivo, um grande tempo onde as linhas que separam passado, presente e futuro não são tão bem definidas e Ana pode fazer retornar palavras de um filósofo grego em seu dizer, em sua tradução do mundo. A segunda palavra digna de atenção é παίζων, paídzon, que podemos traduzir por brincar, mas é uma derivação de παῖς, pais, criança. Paídzon significa, numa tradução ao pé da letra, "criançear", ou seja, fazer aquilo que é próprio de uma criança. O fragmento de Heráclito, portanto, parece dizer que o tempo se dilata, é experimentado de uma outra maneira, quando uma criança age como uma criança. E, por coincidência ou não, carregamos conosco (pois nos constituímos na nossa relação com o outro e com a linguagem) uma outra palavra bastante bonita, também de origem grega: σχολή, skholé, escola. Skholé, em grego, tem o significado de "tempo livre".

     O que nos leva a investigar, como Ana, o que a escola tem a ver com o ato de "criançear". Não é a escola, supostamente, um tempo livre do trabalho, das perspectivas da família, dos pressupostos sociais, livre de quaisquer álibis? Não poderíamos chamar de escolar este espaço-tempo – ou tempo-espaço – em que é possível à criança ser criança, "criançear"? Se admitirmos estas conclusões um tanto quanto apressadas, não faz sentido pensar então que é na escola que o tempo pode se alargar, se ampliar, vetorizar? Passar a dizer respeito menos a indivíduos específicos e a subjetividades estanques e mais a forças que atravessam os sujeitos e permitem que estes deixem de ser o que vieram sendo? Não é ai que Ana pode tocar Heráclito? A tarefa do educador talvez seja encontrar estes espaços-tempos ou tempos-espaços, em que é permitido "criançear". Estes tempos aión nem sempre estão na sala de aula (muitas vezes nem podem ser percebidos nas escolas – apesar de estarem lá, ocultos), mas em outros momentos e lugares.

       O texto que vem a seguir e que o leitor ou a leitora tem agora nas mãos é um caminho em busca desses momentos-lugares. E é sobre essa tarefa que Marisol parece se debruçar em seu texto. Produz, ao falar de arte, filosofia, linguagem, pedagogia e sobre outros afetos, movimento. Pensa muitas coisas, mas o tempo todo faz como Ana, como Heráclito, como as crianças: explora, descobre. Abre tempos grandes onde estes eram pequenos. Percorre as infâncias não como um/a observador/a, mas como um/a cego ou cega. Tateia, revelando e criando assim imagens que transbordam dessas crianças e dessas infâncias, vendo nelas mais do que é possível a elas observar sobre si próprias (pois observa de outro lugar, de outro tempo, com outros valores), e permitindo em troca que elas vejam também algo que não seria possível à autora ou ao leitor ou à leitora. O livro que segue permite uma espécie de devir-criança, ou seja, que se experimente de certa forma estas infâncias, assim como Ana de 11 anos pôde experimentar em sua experiência de pensamento outra temporalidade. Este é um livro para quem ainda se interessa pelo risco.

     Um livro que risca e toca, que busca e encontra infâncias ocultas, tempos aiónicos onde os olhos que simplesmente olham não podem perceber. Um livro que explora corredores, hortas, canções de amor, filmes, círculos e rodas, cozinhas de escolas, os quartos onde dormem irmãs, jardins, fábricas, depósitos de lixo. E ali encontra Heráclitos e Anas, Daniéis e Marisóis, dançando quando deveriam marchar, cantando quando deveriam repetir, rindo quando deveriam calar. Riscando o ar quando deveriam riscar seus nomes. Este livro encontra escolas onde só deveria haver espaço. Tempos onde só deveria haver palavras. Encontra, em seus riscos, infâncias, onde só deveria haver crianças.

 

Daniel Gaivota

Informações Adicionais

Autor Marisol Barenco de Mello
Ano de Publicação 2017
Páginas 207
Tamanho 14 x 21
ISBN 978-85-7993-452-0

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