Saberes transgredientes PE100

Saberes transgredientes

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Liana Arrais Serodio e Nathan Bastos de Souza (Orgs.) !@
Saberes transgredientes. S√£o Carlos: Pedro & Jo√£o Editores, 2018. 249p.
ISBN 978-85-7993-586-2
1. Estudos Bakhtinianos. 2. √Čtica. 3. Est√©tica. 4. Autores. I. T√≠-tulo.
CDD ‚Äď 370

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Uma introdução aos saberes transgredientes

 

Liana Arrais Serodio

Nathan Bastos de Souza

                                                                         

[...] “Já não estou só quando tento contemplar

o todo da minha vida no espelho da hist√≥ria‚ÄĚ.

M. BAKHTIN

 

O t√≠tulo para as propostas que enviamos aos autores/pesquisadores como explicita√ß√£o do tema do texto para compor este volume, ‚ÄúSaberes transgredientes‚ÄĚ, tinha um subt√≠tulo: ‚ÄúMetodologias narrativas de pesquisa e escritas de si em perspectiva‚ÄĚ. Est√°vamos pondo em pr√°tica nosso desejo de trazer Bakhtin para os estudos e as pesquisas vinculadas √†s narrativas auto-bio-gr√°ficas e t√≠nhamos uma carta variada de op√ß√Ķes.

Em 2018 se realizou o oitavo Congresso Internacional de Pesquisa (auto)biogr√°fica[1] com variadas tend√™ncias te√≥ricas, objetivos e compreens√Ķes,  metodologias e/ou m√©todos de pesquisa de si. Este congresso reuniu investigadores/as de diferentes temas, que t√™m no sujeito humano sua maior fonte de refer√™ncia. Ent√£o, logo que foi apresentada a programa√ß√£o deste ano nos intrigamos com a escassa presen√ßa de Mikhail Bakhtin nas palestras com convidados ou nos simp√≥sios tem√°ticos.

No primeiro volume dos seis (um para cada eixo tem√°tico) da Cole√ß√£o produzida pelo CIPA de 2018, contendo textos dos pr√≥prios autores coordenadores do eixo ‚ÄúDi√°logos epist√™mico-metodol√≥gicos‚ÄĚ e seus palestrantes convidados, al√©m dos submetidos ao comit√™ cient√≠fico para a realiza√ß√£o de simp√≥sios tem√°ticos[2], h√° uma subdivis√£o em tr√™s enfoques dial√≥gicos no aspecto epistemol√≥gico da pesquisa (auto)biogr√°fica: epistemol√≥gicas; te√≥rico-metodol√≥gicas; referenciais e pr√°ticas. Dentre esses trabalhos, apenas dois textos abordavam a reflex√£o bakhtiniana para pensar no assunto do evento. 

Mas continuamos acreditando que se h√° algu√©m que pode contribuir para confiarmos no que sentimos concretamente em nossa rela√ß√£o com os outros, esse sujeito √© Mikhail Bakhtin, como se pode ver nas produ√ß√Ķes de seus pr√≥prios colaboradores, dos quais destacamos P√°vel Medvi√©dev e Valentin Vol√≥chinov.

Nossa intriga nos motivou a produzir um simp√≥sio de vozes, por assim dizer, que se daria no formato deste livro que o leitor tem em m√£os. Um livro que nos ajude a compreender ‚Äď no sentido bakhtiniano de responder √†s perguntas por n√≥s feitas ‚Äď como um narrador se coloca diante de suas personagens em sua escritura e como um investigador e/ou um educador se coloca entre outros, na vida; ou seja, como produzir e ler narrativas que consideram o eu (identidade) com os outros eus (alteridades) na vida e se colocam esteticamente na produ√ß√£o dessas narrativas. Esse √© o projeto de livro que aqui introduzimos: um emaranhado de vozes de autores brasileiros e estrangeiros que encontra na no√ß√£o de transgredi√™ncia tal como pensada por M. Bakhtin em seus textos de juventude ‚Äď sobretudo em seu projeto de filosofia moral, dividido nas publica√ß√Ķes p√≥stumas em Para uma filosofia do ato respons√°vel (1919) e Autor e her√≥i na atividade est√©tica (1920-1924) ‚Äď e tamb√©m em outros textos do autor russo ou do c√≠rculo, em di√°logo, em alguns dos cap√≠tulos, com outros autores de outros campos.

E com esse objetivo buscamos outros, que t√™m Bakhtin em sua biblioteca e em sua alma, e escolhemos nossos convidados e convidadas para reunir nesse espa√ßo gr√°fico pesquisadores que nos ajudassem a pensar essa quest√£o dos ‚Äúsaberes transgredientes‚ÄĚ consolidados na amarra entre o √©tico e o est√©tico. Assim, se queremos compreender o sujeito, nada melhor que termos os sujeitos dizendo como pensam a respeito das escritas de si e das pesquisas narrativas! Ou melhor: se queremos compreender o sujeito, nada melhor que termos o sujeito dizendo de si com os outros! Nesse sentido o texto de Tatiana Bubnova, neste volume, proporciona uma valiosa reflex√£o.

As perspectivas narrativas de pesquisa e das escritas de si t√™m sido foco recente de interesse acad√™mico e t√™m tamb√©m adentrado, pelo campo da forma√ß√£o docente, nas escolas. Essa emerg√™ncia encontrou ancoragem na reflex√£o do fil√≥sofo M. Bakhtin e de seu c√≠rculo de estudos, que t√™m contribu√≠do para compreender melhor o deslocamento produzido entre os pontos axiol√≥gicos do ‚Äúeu-para-mim‚ÄĚ ao ponto ‚Äúoutro-para-mim‚ÄĚ nas formas transgredientes de objetiva√ß√£o art√≠stica da pr√≥pria vida que s√£o a biografia e a autobiografia. Prov√©m da rela√ß√£o entre esses pontos um ‚Äúvalor biogr√°fico‚ÄĚ que organiza al√©m da narra√ß√£o da vida de outro, o vivenciamento da pr√≥pria vida e sua narra√ß√£o, pois ‚Äúpode ser forma de conscientiza√ß√£o, vis√£o e enuncia√ß√£o da minha pr√≥pria vida‚ÄĚ (BAKHTIN, 2011, p. 139)[3].

Nesse sentido, o estranhamento que provoca a produ√ß√£o do relato sobre a pr√≥pria vida √© fundante da transgredi√™ncia est√©tica que desloca axiologicamente o ponto de vista de ‚Äúeu-para-mim‚ÄĚ para ‚Äúoutro-para-mim‚ÄĚ, o que provoca a dialogiza√ß√£o em uma perspectiva que vai da √©tica para a est√©tica. Afora esse campo estritamente art√≠stico, mas igualmente est√©tico, contribui tamb√©m para as formas transgredientes de saberes que a escrita narrativa proporciona ao professor-pesquisador-narrador, e que d√° destaque ao outro p√© da tripla base bakhtiniana, o ‚Äúeu-para-o-outro‚ÄĚ, al√©m de inserir o aspecto √©tico na escrita. De acordo com Souza e Miotello, neste volume, ‚Äúo centro n√£o √© o eu, mas a rela√ß√£o com o outro‚ÄĚ e, ainda seguindo-os, ao matizar a constitutividade da rela√ß√£o dial√≥gica, o ‚Äúeu-para-outro‚ÄĚ, a escrita se inscreve nesse conjunto ininterrupto de atos biograf√°veis.

O ponto central da proposta √© que os valores assumidos pelo her√≥i desses g√™neros do eu s√£o transgredientes em rela√ß√£o ao autor pessoa, j√° que n√£o existe coincid√™ncia entre experi√™ncia vivida e totalidade art√≠stica/est√©tica. Esse postulado se sustenta em duas balizas: ‚Äúo estranhamento do enunciador a respeito de sua ‚Äúpr√≥pria‚ÄĚ hist√≥ria; [e] em segundo lugar, [...] o problema da temporalidade como um desacordo entre enuncia√ß√£o e hist√≥ria, que trabalha inclusive nos procedimentos de autorrepresenta√ß√£o‚ÄĚ (ARFUCH, 2010, p. 55)[4].

Tendo claro que nas narrativas docentes com vi√©s bakhtiniano o estranhamento da pr√≥pria hist√≥ria emerge das rela√ß√Ķes de si com os outros, com o foco nas rela√ß√Ķes n√£o indiferentes com os outros reais, singulares, concretos. O estranhamento surge j√° na experi√™ncia do/no ato √©tico pronunciado/realizado que levanta nele quest√Ķes do tipo ‚Äúquem sou para o outro?‚ÄĚ, ‚Äúesse que suscita essas respostas sou eu?‚ÄĚ.

No dizer de Ponzio (2010), a transgredi√™ncia deve ser pensada no seguinte sentido: ‚ÄúTransgrediente‚ÄĚ, de fato, significa tamb√©m dar um passo, um passo fora de qualquer alinhamento, combina√ß√£o, sincronia, semelhan√ßa, identifica√ß√£o. Este termo vem do latim transgredo; e em ingl√™s equivale a step across, step over, ‚Äúpassar atrav√©s de‚ÄĚ, ‚Äúpassar al√©m de‚ÄĚ (PONZIO, 2010, p. 10)[5].

Assim, nosso objetivo na organiza√ß√£o deste volume foi reunir textos de autores que encontraram na transgredi√™ncia uma no√ß√£o relevante para desenvolver suas discuss√Ķes, alguns mais ligados √† est√©tica liter√°ria, outros relacionados √†s narrativas docentes ou, ainda, √†s quest√Ķes epistemol√≥gicas suscitadas pela n√£o-coincid√™ncia entre autor, her√≥i e narrador nas inst√Ęncias narrativas. Os desenvolvimentos tem√°ticos contidos neste volume refletem o esfor√ßo conjunto em discutir a no√ß√£o de transgredi√™ncia desde pontos de vista diversos, dos mais te√≥ricos aos mais anal√≠ticos. Nesse √≠nterim, passamos a destacar alguns pontos centrais dos textos do volume que introduzimos. Naturalmente nossas palavras aqui n√£o fazem justi√ßa ao todo dos textos a que referem, portanto, que sirvam apenas para instigar a curiosidade de nossos leitores, como provoca√ß√£o e convite √† leitura.

O cap√≠tulo assinado pelo pesquisador costarriquenho Francisco Rodr√≠guez Cascante √© dedicado ao desenvolvimento de um objetivo, qual seja, o de analisar diacronicamente o g√™nero autobiogr√°fico e a constru√ß√£o levada a cabo nele de um sujeito autorreferencial. Para tanto, o autor lan√ßa m√£o da ancoragem em diferentes autores que se dedicaram ao estudo do g√™nero, dentre os quais, Wilhelm Dilthey, Georges Gusdorf, Philipe Lejeune, Paul De Man e tamb√©m Mikhail Bakhtin, a quem √© dedicado interesse particular nas √ļltimas se√ß√Ķes. Destacamos a import√Ęncia do trabalho do autor no entendimento diacr√īnico das contribui√ß√Ķes dos diferentes autores movimentados para a compreens√£o da autobiografia como g√™nero, n√£o fosse suficiente para a leitura essa retomada hist√≥rica, a tese defendida pelo autor √© bastante produtiva: a autobiografia √© espa√ßo dial√≥gico porque o sujeito que diz de si mesmo assume valores transgredientes em rela√ß√£o a si, trabalhando, portanto, com valores que v√£o do campo √©tico para o est√©tico.

Nathan Bastos de Souza e Valdemir Miotello desenvolvem uma discuss√£o inicial sobre a epistemologia dos g√™neros da esfera do eu; na segunda se√ß√£o tratam das contribui√ß√Ķes bakhtinianas e seus desdobramentos contempor√Ęneos para o estudo da biografia e da autobiografia; na terceira se√ß√£o aproximam a discuss√£o sobre a transgredi√™ncia das contribui√ß√Ķes de autores de outros campos te√≥ricos e concluem com apontamentos que ficam em aberto, dado o andamento da pesquisa ora apresentada.

No cap√≠tulo do fil√≥sofo da linguagem italiano Augusto Ponzio, Da identidade √† alteridade na viagem da escrita liter√°ria com Bakhtin, Blanchot, Levinas, s√£o discutidas quest√Ķes relacionadas √† escrita liter√°ria em seu movimento desde a ‚Äúvida ordin√°ria‚ÄĚ, tomando como ponto de vista as rela√ß√Ķes entre identidade e alteridade especificamente na obra de Mikhail Bakhtin, de Maurice Blanchot e de Emmanuel Levinas. O texto est√° organizado em seis partes, das quais destacamos a segunda, em que o autor discute a quest√£o da exotopia liter√°ria e defende que h√° uma diferen√ßa entre biografismo ou autobiografismo (ambas as formas centralizadas em categorias de identidade) e escrita liter√°ria (aquela em que h√° a presen√ßa inalien√°vel do outro, caracterizado pelo envolvimento dial√≥gico); na terceira se√ß√£o, o autor desenvolve os conceitos de representa√ß√£o (‚Äúrappresentazione‚ÄĚ) do mundo e afigura√ß√£o (‚Äúraffigurazione‚ÄĚ), pedras angulares de sua reflex√£o.  O autor explicita que na afigura√ß√£o h√° um fen√īmeno paradoxal: a extralocaliza√ß√£o e a participa√ß√£o n√£o indiferente da parte de quem fala, observa, conta sobre quem/o que fala, observa, conta. S√≥ dessa posi√ß√£o ambivalente se torna poss√≠vel aos autores auto-bio-gr√°ficos transgredirem a improdutividade est√©tica do eu e adquirirem a qualidade art√≠stica que n√£o pode existir nos g√™neros representativos - representa√ß√£o - da vida ordin√°ria e at√© certo ponto da ci√™ncia, dada sua fun√ß√£o pr√°tica, utilit√°ria, monol√≥gica.

Em Escrituras de si: √© poss√≠vel o enfoque autobiogr√°fico em pesquisa? Maria Let√≠cia Miranda e Marisol Barenco de Mello discutem a partir de uma gravura de Ren√© Magritte, A Clarivid√™ncia, a quest√£o da transgredi√™ncia como um trabalho de dizer de si mesmo com valores est√©ticos. O ponto de miragem que as autoras escolhem √© o ponto de vista cient√≠fico e, para tanto, movimentam para sua reflex√£o de base dial√≥gica outros autores, como Roland Barthes e Augusto Ponzio. O cap√≠tulo desemboca em uma forte tese, de que os textos precisam apresentar um grau de alteridade, que sustenta seu acabamento, o que redunda em uma n√£o coincid√™ncia entre fato narrado e fato vivido.  As autoras defendem que o papel da alteridade, nesse √≠nterim, √© constitutivo e decisivo para a n√£o estabiliza√ß√£o dos sentidos que a ordem discursiva sempre amea√ßa.

Fabiana Giovani trabalha com a perspectiva epistemol√≥gica desenvolvida pelo historiador italiano Carlo Ginzburg em di√°logo com as quest√Ķes advindas da filosofia da ci√™ncia de Edgar Morin e da filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin e de seus leitores, sobretudo Tatiana Bubnova. Na primeira se√ß√£o a autora ancora a concep√ß√£o de ci√™ncia da linguagem e de ci√™ncia que pratica. A se√ß√£o seguinte √© dedicada inteiramente √† revis√£o do trabalho de Ginzburg sobre o paradigma indici√°rio, cora√ß√£o do cap√≠tulo. Na √ļltima se√ß√£o do cap√≠tulo a autora discute as contribui√ß√Ķes poss√≠veis que a metodologia micro-hist√≥rica apresenta para a pesquisa em ci√™ncias humanas, com √™nfase no campo da linguagem.

Em di√°logo bakhtiniano constante, Narrativas de Professores e Profissionais da Educa√ß√£o ‚Äď uma posi√ß√£o axiol√≥gica outra na produ√ß√£o de saberes transgredientes em educa√ß√£o, Liana Arrais Serodio e Guilherme do Val Toledo Prado trazem a emerg√™ncia de um g√™nero escrito, derivado do g√™nero oral, aut√≥ctone ao cotidiano escolar. Vinculam sua ontologia √† posi√ß√£o axiol√≥gica do narrador em seu contexto social. Partem da experi√™ncia (Larrosa; Dewey) de narrador (Benjamin), incluem a de forma√ß√£o docente, tratando-a como conceito (conhecimento) e como fen√īmeno na singularidade concreta do acontecer. Localizam a emerg√™ncia narrativa na viv√™ncia, ou seja, no ato respons√°vel/responsivo, participante e n√£o indiferente dos subentendidos ideol√≥gicos do autor/leitor e do narrador/ouvinte. Trazem reflex√Ķes acerca das cr√īnicas do cotidiano escolar, denominadas ‚Äúpipocas pedag√≥gicas‚ÄĚ e do discurso art√≠stico, da sensibilidade concreta nas rela√ß√Ķes humanas escolares. Quando se produzem narrativas orais ou escritas, a experi√™ncia vivida volta para o mundo da vida, para a corrente verbal como algo significante no mundo da cultura: uma aposta com risco calculado, em nome das rela√ß√Ķes entre consci√™ncias singulares e suas express√Ķes geradoras de saberes e conhecimentos transgredientes √† sua posi√ß√£o axiol√≥gica.

O texto de Tatiane Fadel e Jo√£o Wanderley Geraldi circunscreve as narrativas ao campo do ‚Äúcontar‚ÄĚ, com os diversos sentidos atravessando campos disciplinares, tempos e espa√ßos culturais t√£o particulares como as rela√ß√Ķes professor(a)-aluno(a) no cotidiano escolar (e n√£o rotina) e a literatura cort√™s nos estudos de um historiador (Pastoureau). Os autores tratam da variedade que h√° na classifica√ß√£o de um objeto cultural seja como ‚Äúarte‚ÄĚ ou como ‚Äúverdade‚ÄĚ, seja no ‚Äúmundo das constru√ß√Ķes do imagin√°rio‚ÄĚ ou no ‚Äúmundo das refer√™ncias objetivas‚ÄĚ. O texto adentra tamb√©m diversas posi√ß√Ķes do escritor numa obra de imagina√ß√£o, po√©tica ou cient√≠fica devido √† sua referencialidade, a partir da reflex√£o sobre os g√™neros dos discursos no bojo das atividades humanas (seguindo, para isso, Bakhtin). Nesse ir e vir entre os trabalhos com a linguagem, iniciam com Benjamin o ‚Äúestatuto hist√≥rico‚ÄĚ da narrativa (‚Äúa moral da hist√≥ria‚ÄĚ), passando pelo historiador, o jornalista, o cr√≠tico, o cientista; e entram no romance (‚Äúo sentido da vida‚ÄĚ), incluindo ‚Äúo cronista‚ÄĚ, o ‚Äúpoeta‚ÄĚ; apresentam os diferentes audit√≥rios de um e de outro g√™nero de atividade discursiva com Vol√≥chinov; o cap√≠tulo se centra longamente em duas grandes se√ß√Ķes, quais sejam, Biografia no romance, romance na biografia, para costur√°-las os autores trazem trechos liter√°rios e interpretam-nos. De quebra, apresentam um esquema instigante em que o texto se situa: no ‚ÄúMundo da cultura ‚Äď o trabalho com a linguagem‚ÄĚ e no ‚ÄúMundo da vida ‚Äď responsabilidade, efetividade e concretude da vida‚ÄĚ.

O cap√≠tulo assinado por Tatiana Bubnova, pesquisadora russa radicada no M√©xico e tradutora de boa parte dos textos do C√≠rculo de Bakhtin para o espanhol, trabalha com o conceito de etnofic√ß√£o, da teoria liter√°ria, analisando a obra do escritor guatemalteco Lu√≠s de Li√≥n El tiempo principia en Xibalb√°. Esse romance trata de forma pontual de rela√ß√Ķes de alteridade travadas no contexto da Guatemala em se tratando de uma contenda de ordem racial: de um lado os brancos (europeus) e de outro os ladinos (filhos de europeus e ind√≠genas). Lu√≠s de Li√≥n, como representante ind√≠gena, apresenta em seu romance as quest√Ķes dessa rela√ß√£o desde um ponto de vista interno. A quest√£o do indigenismo em literatura √© tratada por Bubnova desde um ponto de vista dos valores axiol√≥gicos assumidos pelos autores no processo de escritura. Para a autora, ao escrever a literatura indigenista - ignorando a tese de Mari√°tegui sobre a indignidade de falar pelos outros, isto √©, que os √≠ndios deveriam falar por si mesmos - o ‚Äúeu-para-mim‚ÄĚ que diz o texto liter√°rio se pauta muito mais na contraparte ‚Äúoutro-que-n√£o-sou‚ÄĚ (formulada pela autora) que na contraparte que deveria ocupar a posi√ß√£o desse outro poss√≠vel, que √© ‚Äúoutro-para-mim‚ÄĚ. Em outras palavras, resumindo esse argumento da autora, quando se usa a categoria de ‚Äúoutro-que-n√£o-sou‚ÄĚ o √≠ndio √© concebido como objeto de representa√ß√£o; quando se concebe o outro como ‚Äúoutro-para-mim‚ÄĚ, esse outro √© condi√ß√£o de possibilidade do eu.

O cap√≠tulo assinado por Ester Osorio aproxima as biografias de duas importantes poetisas do s√©culo XX, ambas chilenas, Gabriela Mistral (1889-1957) e Violeta Parra (1917-1967). √Č interessante a reflex√£o que Os√≥rio realiza ao aproximar dados biogr√°ficos e das obras dessas duas poetisas para notarmos o quanto vida e arte dialogam no bojo da produ√ß√£o de si que o artista faz. Em outras palavras, o √©tico e o est√©tico se entrecruzam na produ√ß√£o da autoria de si que o artista assume, engajando-se na resposta respons√°vel que produz ao mundo como artista.

Por fim, em nossas diferentes áreas de formação e investigação - Linguística e Educação - fazemos parte da grande área das Ciências Humanas e sabermo-nos improdutivos esteticamente, sem o outro, nos une em nosso propósito.

 



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