Saberes e práticas docentes no enfrentamento da (in)disciplina escolar PE233

Saberes e práticas docentes no enfrentamento da (in)disciplina escolar

Ref.: PE233 Compra Segura

Antônio Igo Barreto Pereira !@
14 x 21 - 204 pág.
ISBN. 978-85-7993-445-2
1. Disciplina escolar. 2. Comportamento dos alunos. 3. Trabalho docente. 4. Autor.

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O desejo de ordem e a produção da (in)disciplina

Vera Lúcia Blum

                               

Reza a lenda, também conhecida como imaginário coletivo, que a (in)disciplina na escola é um mal a desestabilizar o mister do professor em sala de aula e que de um modo ou de outro pode e deve ser eliminada. Procuram-se os meios para combatê-la. Nesse enfrentamento, constatam os professores que o esforço empreendido para neutralizar isto que é visto como perturbação da ordem tem como efeito o desespero, a impotência e a angústia.

A ordem, efeito da distribuição das coisas e dos seres em posições pré-estabelecidas, como ela é concebida? Como uma realidade imutável existente em si e por si? Como uma convenção socialmente compartilhada que, pela linguagem, descreve e estipula a inteligibilidade das ocorrências, uma determinação consentida por coletivos humanos, que a sustentam e a reproduzem com variações de significado no tempo e no espaço? As questões, pouco práticas, assemelham-se às indagações filosóficas, não obstante uma ou outra resposta, entranhada em nosso discurso, quer dela tenhamos consciência ou não, condicione nosso fazer docente. Em sala de aula nos movimentamos na perspectiva de uma ou de outra ontologia da ordem. Se à ordem creditamos o valor de uma coisa em si, ela não pode ser interrogada. Intocável a noção de ordem, reconhecíveis e classificáveis como (in)disciplinados são os comportamentos desviantes daquilo que ela estipula como deve ser. A classificação, que divide os comportamentos em disciplinados e (in)disciplinados, só é possível segundo a descrição que fazemos da ordem.  Intocável essa descrição, com certeza sabemos o que é aceitável e o que não é em sala de aula.

É comum estar-se habituado a pensar o bom professor como aquele que mantém a ordem em sala de aula porque sabe impor sua autoridade, e, ao se impor a autoridade (o que quer que isso possa significar), presume-se que automaticamente os comportamentos (in)disciplinados serão eliminados, restando apenas os comportamentos nomeados como aceitáveis. Ora, a (in)disciplina não é produto do fracasso da ordem, que não está se fazendo valer pela autoridade do professor, seu guardião. 

A ordem, efeito da compreensão prévia do como deve ser (naturalizada ou não) estipula ao negativo a produção e a significação de determinadas manifestações da vida humana como comportamentos (in)disciplinados e desviantes. A (in)disciplina é um aspecto normal da ordem que a ela está conjugada por exclusão e da qual deriva e conserva em negativo.  Não há como eliminar as individualidades que não respondem às descrições do como deve ser, justamente porque elas são seu produto (indesejado, seguramente), efeito das operações de normatização que as produz como os fora da norma. As individualidades existem como desviantes justamente porque assim as percebemos e assim as percebemos porque temos uma concepção prévia do como deve ser, que remete inevitavelmente ao como não deve ser e assim o institui.

Posto que sem ordem não haveria um mundo humano para habitar, não é a alguma compreensão prévia que possa ser descrita como um invariante universal que leitor vai encontrar no trabalho de Antônio Igo Pereira ao tratar do tema da (in)disciplina. Descrito com leveza e força de comunicação, o percurso historiográfico realizado pelo autor põe em relevo as práticas disciplinares conjugadas aos diversos ordenamentos sociais, a dar a ver os diferentes e respectivos entendimentos da disciplina que os sustentam e visam a conservá-los. Destaca-se nesse percurso a surpreendente (ou nem tanto) constatação de que mesmo na contemporaneidade “as representações atuais da disciplina ainda trazem fortes resquícios dos saberes e práticas predominantes na Modernidade, em especial, nos séculos XVII e XVIII.”

Ex-professor da rede pública de ensino por nove anos, Antônio Igo Pereira, por experiência sabe que a questão da (in)disciplina não é assunto para ser tratado com leviandade, tendo ele mesmo experimentado o fracasso das práticas disciplinares imanentes às concepções herdadas do como deve ser. De suas tentativas de compreender o fenômeno da (in)disciplina resulta o trabalho de investigação, que não se furta à complexa tarefa de enfrentar as múltiplas faces e planos de inteligibilidade da questão da (in)disciplina. Nesse enfrentamento ele se afasta do binarismo que preconiza a irredutibilidade dos opostos, consolidada pela lógica da identidade que estabelece que “ser é o que é”, fazendo de cada polo da dualidade presença sempre idêntica a si: disciplina é disciplina; (in)disciplina é (in)disciplina. Por ter clara a produção da diferença que faz de um termo a remissão ao seu outro no interior dos discursos que a eles se referem – diferença que não separa – o autor justifica seu gesto de “grafar a palavra (in)disciplina com o prefixo in entre parênteses como forma de indicar a dupla face do termo.”

O principal mérito do trabalho de Antônio Igo Pereira é oferecer ao leitor, em especial aos professores, uma nova luz para pensar o fato da (in)disciplina. Ao deslocar o entendimento da (in)disciplina como algo a ser suprimido para o entendimento dela como uma manifestação, ainda que desajeitada e em estado bruto, do querer viver, a inevitável (in)disciplina pode deixar de ser vista como o pior pesadelo do professor em sala de aula, para ser enfrentada como condição de possibilidade de experiências que possam valer a pena serem vividas. Para discorrer sobre a (in)disciplina pelo prisma de sua positividade, de sua potência criativa – o que não significa absolutamente fazer a apologia da violência e da barbárie, longe disso – Antônio Igo Pereira organiza o pensamento na companhia de autores que, a serviço de uma possibilidade humana, demasiado humana de viver, acolhem a dimensão trágica e conflitiva do humano em sociedade, seu mal-estar.   Entre outros, são seus companheiros de jornada: Foucault, que dá visibilidade às práticas disciplinares docilizadoras dos corpos com vistas a sua (impossível) completa submissão; Makarenko, cuja experiência pedagógica de oito anos vivida como diretor de um reformatório para crianças e adolescentes infratores – a Colônia Gorki, na Ucrânia – é sem dúvida inspiradora e pujante; Freud, que assume a inevitabilidade do mal-estar gerado pelo conflito irredutível entre as exigências de renúncia do desejo para tornar a vida em comum possível e as exigências de satisfação de parcelas não domesticáveis da pulsão; e, por fim, mas sem esgotar a lista de pensadores com quem Antônio Igo Pereira mantém interlocução, Maffesoli, que desloca o foco da (in)disciplina como mal a ser combatido para lançar luz sobre as imposições arbitrárias geradoras de respostas resistenciais como fontes do querer viver.

     Não é a necessidade de ordem, mas o desejo de ordem a qualquer custo que é interpelado. Aprendemos com o autor que o desejo de ordem a qualquer custo sufoca as formas plurais e alternativas do viver humano e esse movimento produz justamente aquilo que é preciso evitar. Quanto mais se tenta eliminar a (in)disciplina, mais (in)disciplinada ela se torna. Muitos professores relatam experimentar esse efeito paradoxal e se desesperam por isso.

A fórmula parece ser simples, mas não mágica: daquilo que não podemos nos livrar, que o tratemos como fonte de transformação. O tratamento da (in)disciplina, na óptica de sua vitalidade (o querer viver), conforme sugerido pelo autor, não é automático nem espontâneo e demanda um trabalho interminável de negociação e disponibilidade para escutar genuinamente o outro-aluno real. O aluno real, justamente esse que, quantas e quantas vezes perturba a consciência que o professor tem de si e de suas certezas, o leva a um confronto direto com suas próprias dificuldades, o que, ainda que penoso, é preciso suportar. Não há alternativa, como mostra o trabalho de Antônio Igo Pereira, para tamanha nobreza do ofício docente.

Que a leitura seja proveitosa e promova experiências revigoradoras.



* Professora Associada do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e coordenadora acadêmica do Serviço de Psicologia Aplicada da mesma instituição.

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