POR QUE A CRECHE √Č UMA LUTA DAS MULHERES? PE239

POR QUE A CRECHE √Č UMA LUTA DAS MULHERES?

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Maria Am√©lia de Almeida Teles; Fl√°vio Santiago; Ana L√ļcia Goulart de Faria (Orgs.) !@
Porque a creche √© uma luta das mulheres? Inquieta√ß√Ķes femininas j√° demonstram que as crian√ßas pequenas s√£o de responsabilidade de toda a sociedade. S√£o Carlos: Pedro & Jo√£o Editores, 2018. 292p.
ISBN 978-85-7993-512-1
1. Creche. 2. Luta das mulheres. 3. Feminismo. 4. Educação antirracista. 5. Educação infantil. I. Autoras/autor. II. Título.
CDD ‚Äď 370

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Apresentação

 Maria Am√©lia de Almeida Teles

 

A constru√ß√£o deste livro √© resultado das discuss√Ķes e debates promovidos ao longo da disciplina optativa Direito √† Inf√Ęncia e √† Educa√ß√£o: Educa√ß√£o Infantil em creches, uma hist√≥ria das mulheres, do curso de licenciatura em Pedagogia, a qual s√≥ foi poss√≠vel ser realizada por meio do edital da Pr√≥-reitoria de Gradua√ß√£o da Unicamp[1]. Num primeiro momento, voltei no tempo, ao lidar, em sala de aula, com a minha pr√≥pria condi√ß√£o de ativista feminista de d√©cadas de atua√ß√£o e, principalmente, como antiga trabalhadora de uma creche da periferia de S√£o Paulo, Creche Municipal do Parque Figueira Grande (regi√£o de Campo Limpo, zona sul), implementada em 1980, uma das primeiras creches constru√≠das, como equipamento de car√°ter  p√ļblico e gratuito, integrada √† primeira rede municipal de creches do pa√≠s para crian√ßas de 0 a 6 anos de idade, em per√≠odo integral. Esta rede municipal passou a ser constru√≠da a partir das reivindica√ß√Ķes apresentadas junto ao p√ļblico e √† prefeitura de S√£o Paulo, pelo Movimento de Luta por Creche (1979 ‚Äď 1984), que se desenvolvia num processo de muita mobiliza√ß√£o e de entusiasmo, reunindo mulheres da periferia, sindicalistas, intelectuais e feministas.

Eu sou militante pol√≠tica desde os anos de 1960, fui do Partido Comunista, meu pai era sindicalista e portu√°rio do Sindicato de Santos (SP), onde recebi muita influ√™ncia pol√≠tica de grupos vinculados √†s lutas oper√°rias. Mas sou mineira de nascimento e de cora√ß√£o, apesar de ter vivido pouco em Minas. Atuei por muitos anos vinculada √† imprensa clandestina: fiz parte da equipe respons√°vel pela edi√ß√£o do Jornal A Classe Oper√°ria; da imprensa democr√°tica e alternativa, no Jornal Movimento, e da imprensa feminista, no Brasil Mulher. Fiz parte de diversos movimentos populares, mas atuei intensamente no Movimento de Luta por Creche e fui uma das eleitas pela comunidade para trabalhar na primeira creche p√ļblica e direta, constru√≠da na √°rea do Campo Limpo. Conheci Ana L√ļcia quando trabalhava no Jornal Movimento (1976 -1980), e ela fazia o mestrado na Universidade Federal de S√£o Carlos e editava a Revista Plural, com um grupo de mestrandas e professores. Nossos encontros sempre foram muito proveitosos; discut√≠amos o feminismo, as dificuldades da esquerda em aceitar as lutas libert√°rias das mulheres e, principalmente, a luta por creches. Penso que a creche e o feminismo motivavam nossas conversas pelos cantos da sede do Jornal. Mais tarde, talvez em meados dos anos de 1980, fui conhecer a sua atua√ß√£o na estrutura√ß√£o da rede municipal de creches na cidade de Piracicaba (SP), a primeira rede vinculada √† Secretaria de Educa√ß√£o e n√£o √† da Assist√™ncia, o que era o padr√£o. Na √©poca, Ana L√ļcia integrava uma equipe pedag√≥gica, respons√°vel pela cria√ß√£o do CEPEC (Centro Polivalente de Educa√ß√£o e Cultura), com creche, pr√©-escola e educa√ß√£o complementar para as crian√ßas dos anos iniciais do fundamental. Enfim, eu e a Ana L√ļcia nos unimos pelo feminismo e pela creche e, mesmo distantes, f√≠sica e profissionalmente, mantivemo-nos unidas no prop√≥sito de n√£o perder de vista o processo de conquista e de inven√ß√£o da creche com que sonhamos. Algumas de suas orientandas, como Andressa Galdino da Luz, me procuraram para entrevista em seus trabalhos acad√™micos. Participei da defesa da Disserta√ß√£o de Mestrado da Reny Scifioni Schifino, em 2012 e, no ‚ÄúFazendo G√™nero‚ÄĚ em 2013, onde houve um Semin√°rio sobre Feminismo e Creche, coordenado por Ana L√ļcia e Daniela Finco. Este semin√°rio tem√°tico foi transformado em livro e eu fiz um cap√≠tulo intitulado A participa√ß√£o feminista na luta por creche!, da publica√ß√£o com o mesmo nome[2]. Militantes feministas que tanto contribu√≠ram na mobiliza√ß√£o e constru√ß√£o do conceito de creche e na formula√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas se afastaram ou foram ocupar outros espa√ßos. Mas eu e a Ana L√ļcia ficamos nesta luta. Ela, na vida acad√™mica, e eu, na milit√Ęncia de rua e de movimentos.  E eu e ela sabemos como faz falta aquele movimento dos anos de 1980, porque tinha muita energia e era pioneiro. N√≥s n√£o desistimos e continuamos a reinventar a vida.

Eis que, em outubro de 2016, Ana L√ļcia me mandou uma mensagem eletr√īnica, perguntando se eu n√£o topava participar de um edital da FE/Unicamp para ser professora visitante por 5 meses. Disse que n√£o, pois n√£o sou acad√™mica e, por isso, n√£o teria nenhuma chance e n√£o tinha cabimento a sua proposta.  Aqui est√° a primeira mensagem de Ana L√ļcia:

 

Querida Amelinha
Topa dar uma disciplina na graduação do curso de pedagogia da UNICAMP?
Abriu um edital. √Č por 5 meses, no primeiro semestre do ano que vem com bolsa de mar√ßo a julho.
Pensamos na seguinte disciplina 'Direito a Inf√Ęncia e educa√ß√£o em creche: uma hist√≥ria das mulheres'
Estamos em cima da hora .
Precisa enviar o projeto até 11 /11
Te mando atachado o edital.
Aguardo resposta espero que positiva  
Bj√£o int√© Ana L√ļcia

 

Neguei, mas depois vieram outros e a√≠ ela me apresentou, virtualmente, ao Fl√°vio[3], o que me fez aceitar e encaminhar uma proposta conforme o edital. Fazer ementa, planejamento e cronograma de aulas, separar textos de leitura obrigat√≥ria, preparar uma bibliografia s√≥ de mulheres autoras. Tudo encaminhado, tivemos que aguardar a resposta.  Mas de fato eu n√£o esperava ser aprovada. E n√£o acreditei quando o Fl√°vio me mandou mensagem dizendo que era exatamente isso que aconteceu: eu tinha sido aprovada. Ele enviou ent√£o a decis√£o pela aprova√ß√£o tomada pela Congrega√ß√£o da FE/Unicamp. Bom, da√≠ em diante, tive que encarar. Quando iniciaram as aulas, passei a me hospedar em Campinas, pois as aulas terminavam muito tarde para eu voltar a S√£o Paulo. E posso dizer que valeu a insist√™ncia da Ana L√ļcia e do Fl√°vio. Ambos me acolheram de forma t√£o carinhosa e construtiva, e seria um erro n√£o abra√ßar a proposta, o que fiz de forma muito prazerosa e militante. Pensando bem, os feminismos precisam revisitar a luta pelas creches e, mais do que isso, colocar em suas agendas n√£o s√≥ a quest√£o da demanda crescente e reprimida, mas, em particular, a qualidade dos servi√ßos oferecidos, educa√ß√£o, cuidados e assist√™ncia √†s crian√ßas pequenas. 

Durante o curso, pude colocar em pauta atualidades dos feminismos contempor√Ęneos, em particular das quest√Ķes mais candentes que surgem hoje, com muito vigor e intensidade, entrela√ßadas com a perspectiva de classe, √©tnico-racial e sexualidades /g√™nero, com destaque aos rec√©m-criados coletivos feministas nas periferias e nos meios escolares. Levantamos algumas das vertentes feministas, em particular as mais ligadas aos movimentos populares de mulheres. Assim, busquei levar para a Universidade as principais necessidades e reivindica√ß√Ķes dos movimentos feministas e de mulheres. Levei textos, bibliografia e filmes produzidos por mulheres. Procurei levar tamb√©m para dentro do espa√ßo de sala de aula as ativistas que est√£o em plena atua√ß√£o, mobilizam e organizam, no cotidiano, a luta feminista e, assim, constroem diariamente a hist√≥ria das mulheres.

As atividades foram realizadas √†s segundas-feiras, das 19h √†s 23h, numa estrutura de encontro que come√ßava com a apresenta√ß√£o do resumo da atividade da semana anterior, em seguida, eram feitos coment√°rios e pequenos debates referentes ao notici√°rio da m√≠dia e das redes sociais, com not√≠cias interessantes e boas ou tamb√©m com aquelas absurdas e ruins. Dessa forma, podia-se avaliar semanalmente o envolvimento da turma em rela√ß√£o √† disciplina. Al√©m disso, buscou-se, de imediato, problematizar a aplica√ß√£o pr√°tica dos conhecimentos ali apresentados e debatidos acerca da realidade na qual estavam atuando estudantes, profissionais e professoras/es. Ou pelo menos que tais conhecimentos constru√≠dos em sala de aula pudessem ser instrumentos para uma reflex√£o da realidade em que estamos atuando e que nos cerca diariamente, na qual precisamos construir interven√ß√Ķes pedag√≥gicas em defesa da democracia e da justi√ßa. A turma gostou desse roteiro. Uma das estudantes escreveu no seu texto de avalia√ß√£o:

 

Os resumos das aulas anteriores ajudavam muito, pois √†s vezes, a pessoa tinha outra vis√£o do que foi dito na aula anterior e eu agregava ao texto que havia escrito no meu caderno. Gostava muito da apresenta√ß√£o das not√≠cias apesar de ultimamente n√£o serem nada animadoras, mas eu ia saber das informa√ß√Ķes ali na sala de aula porque n√£o tinha tempo de me informar durante o dia[4].

 

As ferramentas empregadas nas apresenta√ß√Ķes dos temas planejados foram de diversas formas, ora com o emprego de power point, ora com leituras de textos em grupo, ora com depoimentos de pessoas previamente convidadas, acompanhados de debates. Houve tamb√©m iniciativas criadas por alunas/os. Trouxeram depoimentos de militantes feministas pelo Whatsapp. Mas tamb√©m contribu√≠ram com trabalho de pesquisa que fizeram junto √†s promotoras legais populares[5], quando foram a uma regi√£o perif√©rica ver como se aplicam, na pr√°tica, os feminismos das interseccionalidades, junto √†s mulheres populares.  Essas estudantes foram at√© o N√ļcleo de Promotoras Legais Populares (PLPs), localizado no DIC-1 (periferia da cidade de Campinas), para observar e conversar com elas a respeito das intersec√ß√Ķes no feminismo[6].

Como professora visitante da Faculdade de Educa√ß√£o/Unicamp, quero aqui ressaltar alguns pontos dessa experi√™ncia e as impress√Ķes extra√≠das tanto da minha parte como da turma.

Tive minhas alegrias, surpresas constantes e meus estranhamentos. Estranhei a falta de comunica√ß√£o entre as diversas √°reas de estudos da Universidade. Achei que suas Faculdades s√£o muito isoladas umas das outras, o que me deixou intrigada. Principalmente aquelas cujos conte√ļdos t√™m mais afinidades. Talvez as atividades acad√™micas tomam muito tempo de toda gente envolvida, o que sufoca e n√£o promove di√°logos de suas pr√°ticas e saberes. Para mim, foi uma triste surpresa saber que a Unicamp ainda n√£o tinha pol√≠ticas de cotas na gradua√ß√£o, o que, s√≥ agora, ser√° resolvido, pois, finalmente, as cotas foram aprovadas. Pensei que os assuntos aqui de fora, com a baita crise pol√≠tica que est√° ocorrendo no pa√≠s, tomariam mais tempo nas conversas formais e informais. Enfim, vivi nestes cinco meses num espa√ßo distante da minha realidade, o que me deixou, de in√≠cio, bastante t√≠mida. N√≥s, militantes de movimentos sociais, temos a pr√°tica de fazer tudo coletiva e horizontalmente e no meio acad√™mico, n√£o.  Muitas vezes poderia ter ido mais longe nos conte√ļdos, nas atividades, porque a turma iria suportar e iria crescer mais.  Por isso, quando chegou o final, me deu vontade de come√ßar de novo, mas a partir da experi√™ncia adquirida e do imenso aprendizado que tive nestes cinco meses. Se fosse poss√≠vel, queria fazer de novo o que fiz para desenvolver com mais profundidade e apontar maiores desafios. Assim como aproveitar melhor o tempo.

As avalia√ß√Ķes escritas pelos/as estudantes me fizeram enxergar melhor a import√Ęncia do trabalho feito, mas tamb√©m me mostraram certas debilidades.

 

[...] eu já tinha vivenciado uma bibliografia composta apenas por homens, mas de mulheres falando sobre mulheres não é bom apenas pela reivindicação do nosso lugar de fala (...) como aprendi com esta disciplina, conheci escritoras, pesquisadoras, militantes, negras, lésbicas, brancas, heterossexuais, mães e as que optaram por não terem filhos, integrantes de partidos políticos... [...]

 

[...] Como professora em formação, mudou completamente minha forma de olhar para as crianças na creche, olhar pra as crianças como cidadãs de direitos, estes conquistados com muita luta e reivindicação, é totalmente diferente do que compreendê-las como que está naquele espaço enquanto suas mães trabalham... [...][7]

                                     

[...] A bibliografia sugerida foi, sem d√ļvida, um convite a pensar a complexidade das lutas pela garantia e reconhecimento dos direitos humanos das mulheres no mundo e, em particular das mulheres brasileiras, sobretudo no que se refere √† divis√£o sexual do trabalho e √† maternidade como fun√ß√£o social[8]. [...]

 

Ao reler agora essas avalia√ß√Ķes, pensei se n√£o teria sido importante ter uma aula ou algumas oficinas  acerca da bibliografia, seus significados e os porqu√™s de suas escolhas. Poderia ter tido o emprego de din√Ęmicas que dessem suporte, est√≠mulo ou criassem oportunidades de leitura.

Houve uma dificuldade na leitura dos textos, como já comentei anteriormente. Uma das participantes observou “a grande carga de leitura proposta, principalmente para um curso noturno, com alunas/os que trabalham durante o dia e com pouco tempo para ler qualquer coisa.[9]

A minha pequena experi√™ncia de professora visitante me mostrou que √© poss√≠vel fazer muito em sala de aula, e para isso temos que garantir que haja possibilidades de se lidar com ferramentas que nos ajudem a analisar a realidade de maneira cr√≠tica e propositiva.  Nos cursos de Pedagogia, deveria ter uma disciplina que abordasse ‚ÄúDireito √† Inf√Ęncia e √† Educa√ß√£o Infantil em Creche, uma Hist√≥ria das Mulheres‚ÄĚ. Deveria ser inserida na grade curricular de forma permanente e obrigat√≥ria. Como falar de Educa√ß√£o Infantil em creches sem falar das mulheres, sejam as m√£es das crian√ßas pequenas, sejam as profissionais, m√£es ou n√£o m√£es, que na sua grande maioria s√£o mulheres, sem levantar a hist√≥ria das mulheres e o porqu√™ de elas ocuparem esse lugar, mostrar que em momentos emblem√°ticos da Hist√≥ria foram elas as protagonistas, colocando-se √† frente, sem se deixar abater pelas amea√ßas e pelos perigos, frequentes nos embates. Como criar creches e n√£o discutir a maternidade compuls√≥ria e seus efeitos antidemocr√°ticos para uma educa√ß√£o igualit√°ria e n√£o sexista. As crian√ßas pequenas s√£o sujeitos de direitos e est√£o devidamente reconhecidas na Constitui√ß√£o Federal. No entanto, assim como as pessoas adultas, elas precisam de cuidados, assist√™ncia e educa√ß√£o. A maternidade deve ser entendida como fun√ß√£o social, firma-se a responsabilidade social em rela√ß√£o √†s crian√ßas pequenas.  As crian√ßas precisam e gostam da conviv√™ncia social com outras pessoas adultas e outras crian√ßas. A creche √© uma proposta avan√ßada, at√© revolucion√°ria, que enfrenta a divis√£o sexual do trabalho, e √© assim que ela deve ser tratada nos cursos de forma√ß√£o de educadores e educadoras.

Buscar condi√ß√Ķes para garantir a instala√ß√£o e o funcionamento de creches com qualidade pedag√≥gica espec√≠fica para essa faixa et√°ria, em espa√ßos seguros e com profissionais docentes preparados /as para propiciaras produ√ß√Ķes das culturas infantis. Torna-se necess√°rio construir possibilidades de brincar e interagir com as crian√ßas pequenas, desde beb√™s, numa perspectiva de g√™nero. Ao conversar, ao falar, ao tocar uma crian√ßa, carregamos preconceitos e discrimina√ß√Ķes, ainda que inconscientes, e os beb√™s n√£o falam, mas sentem e se comunicam. Temos que estar atentas/os para n√£o educar para a submiss√£o. Aqui trago a fala de uma das alunas:

 

[...] Minha experiência como estudante negra, agora professora, despertou em mim a vontade de contribuir, na minha prática pedagógica, com a transformação da trajetória escolar das meninas negras, buscando romper com o processo de exclusão escolar, tão naturalizado ainda hoje. [...]

[...]Frequentemente (nas escolas) presenciamos situa√ß√Ķes discriminat√≥rias expl√≠citas, o que normatiza a ‚Äúinferioriza√ß√£o‚ÄĚ da menina negra, percebido nos discursos dos docentes na estrutura da escola, no trato com as crian√ßas ou ainda transmitem um ‚Äúsentimento de d√≥‚ÄĚ, o que fere ainda mais a dignidade.

Cabe ainda um destaque muito grande √† sexualiza√ß√£o dessas meninas, que na sua mais tenra inf√Ęncia j√° t√™m seus corpos objetificados.[10]

 

As atividades desenvolvidas na disciplina que tiveram contato e debates diretos com integrantes dos movimentos sociais foram as mais impactantes junto √† turma. Isto traz uma sugest√£o para que as atividades acad√™micas sejam mais abertas aos di√°logos com os diversos movimentos sociais que experimentam a√ß√Ķes de transforma√ß√£o social. S√£o as/os alunas/os que trouxeram, em sua avalia√ß√£o, impress√Ķes como esta:

 

[...] a participa√ß√£o de diversos grupos de mulheres, para mim foi um momento √ļnico, em que me emocionei e pude ver a rela√ß√£o entre todos os conceitos e conte√ļdos sendo postos em pr√°tica na luta por uma sociedade mais justa, por uma educa√ß√£o descolonizadora, ao espa√ßo da creche como um direito da crian√ßa, e diversas outras quest√Ķes. Gratid√£o![11]

 

[...] ... acredito que ver os movimentos, o que fazem, como fazem, onde encontrá-los e se sentir ainda mais representada é muito bom. Saí dessas aulas bastante animada ...[...][12]

 

Desse profundo debate e viv√™ncias estabelecidas com as/os estudantes, tivemos a ideia de construir este livro, organizado por mim, Ana L√ļcia Goulart de Faria e Fl√°vio Santiago, trazendo para o centro da discuss√£o os temas debatidos durante a disciplina que ministrei no curso de licenciatura em Pedagogia. Ao longo de toda a obra, a creche √© colocada em foco como um espa√ßo para as crian√ßas viverem experi√™ncias coletivas pautadas em rela√ß√Ķes horizontais, que visem √† promo√ß√£o da equidade, ao mesmo tempo em que √© real√ßada a luta do movimento feminista pela sua constru√ß√£o, colocando em xeque a divis√£o sexual do trabalho e a maternidade compuls√≥ria, bem como destacamos a import√Ęncia de se analisar as rela√ß√Ķes sociais a partir da intersec√ß√£o entre ra√ßa, classe, g√™nero e idade. Elementos estes que prescrevem a necessidade de se pensar a creche n√£o como um dado, mas como um espa√ßo de direito, e que deve ser constru√≠do coletivamente.

No cap√≠tulo Feminismos e estudos sobre mulheres e g√™nero no Brasil: um olhar a partir das articula√ß√Ķes presentes na luta por creches, Regina Facchini recupera alguns pontos na trajet√≥ria da rela√ß√£o entre estudos feministas, g√™nero e movimento feminista no Brasil p√≥s-anos 1970. Parte de uma perspectiva que considera as articula√ß√Ķes entre g√™nero e outras diferen√ßas, como ra√ßa e classe, presentes na luta por creches. Para tanto, recupera alguns pontos no debate te√≥rico referente ao conceito de g√™nero que permitem pens√°-lo de modo articulado a outras diferen√ßas sociais.

Djamila Ribeiro, no cap√≠tulo Feminismo negro como perspectiva emancipat√≥ria, destaca que falar da luta por creches √© essencialmente falar de mulheres que mais sofrem com a omiss√£o do Estado e se veem desamparadas em v√°rios sentidos e com menos possibilidades de transcend√™ncia.   Como destaca a autora, essas mulheres s√£o em sua maioria, negras e pobres, e sofrem com a falta de vagas nas creches, precisando lutar para ter onde deixar seus filhos. Ao longo do seu cap√≠tulo, aponta que pensar numa luta feminista sem prensar nessas mulheres √© ineficiente.

No cap√≠tulo Por uma educa√ß√£o antirracista desde a creche!, M√°rcia L√ļcia Anacleto de Souza, em meio √† defesa da supera√ß√£o das desigualdades raciais na educa√ß√£o, aborda o significado e os desafios para a Educa√ß√£o Infantil e, especialmente, para a creche, no que tange √† educa√ß√£o das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais. Apontando aspectos para a reflex√£o a respeito da rela√ß√£o entre a import√Ęncia de abordar a tem√°tica no cotidiano desta etapa da educa√ß√£o brasileira, considerando fundamental uma pol√≠tica de forma√ß√£o articulada √† defesa da creche p√ļblica e de qualidade.

No cap√≠tulo O feminismo marxista e a demanda pela socializa√ß√£o do cuidado para com as crian√ßas, Joana El-Jaick Andrade t√™m por escopo analisar as discuss√Ķes levantadas pelos defensores dos direitos das mulheres nas fileiras marxistas que lograram desnaturalizar o papel ocupado pelas mulheres na divis√£o social de trabalho, questionando sua exclus√£o da esfera p√ļblica e seu confinamento no lar. Deste modo, atrelaram a possibilidade de emancipa√ß√£o feminina √† socializa√ß√£o do trabalho dom√©stico e do cuidado para com as crian√ßas, no √Ęmbito de uma sociedade sem classes.

Adriana A. Silva e Elina Elias de Macedo, no cap√≠tulo Creche: uma bandeira da despatriarcaliza√ß√£o, prop√Ķem a defesa da creche como um dos elementos- chave de despatriarcaliza√ß√£o do estado, favorecendo a participa√ß√£o social e pol√≠tica das mulheres como trabalhadoras, tanto m√£es, como as professoras e educadoras de beb√™s. Bandeira de muitos dos movimentos feministas, a luta por creches comp√īs a pauta de luta do passado e est√° presente ainda hoje como reivindica√ß√£o fundamental das m√£es trabalhadoras e dos movimentos que atuam em defesa dos direitos das crian√ßas.

No cap√≠tulo A Creche em tempos de perdas de direitos!,de minha autoria, s√£o destacadas algumas inquieta√ß√Ķes no processo p√≥s-constitucional, que possibilitaram ampliar e consolidar a creche que ganhou status de pol√≠tica p√ļblica e se tornou pauta da agenda voltada principalmente para a educa√ß√£o. As pol√≠ticas p√≥s-constitui√ß√£o de implementa√ß√£o das creches, no entanto, levaram √† redu√ß√£o dos direitos constitucionais das crian√ßas pequenas, ao dividi-las em dois grupos: um de 0 a 3 anos (creche) e o segundo de 4 a 5 anos (pr√©-escola).  Hoje a creche √© uma realidade ineg√°vel, mas ainda est√° longe de alcan√ßar as perspectivas de um espa√ßo em defesa da equidade e de a√ß√Ķes despatriarcalizadoras, antirracistas e sexistas.

J√° o cap√≠tulo Por que um cap√≠tulo para apresentar uma pesquisa sobre creches no local de trabalho, realizada em 1983? traz os resultados da pesquisa in√©dita, at√© ent√£o, realizada pela Comiss√£o de Creche do Conselho Estadual da Condi√ß√£o Feminina de S√£o Paulo (CECF), no ano de 1983, publicado pela primeira vez com t√≠tulo Creches e Ber√ß√°rios nas Empresas Paulistas, no Cadernos de Pesquisa da Funda√ß√£o Carlos Chagas. Naquele tempo, no estado de S√£o Paulo, havia por volta de 60 mil empresas e apenas 38 tinham creches ou ber√ß√°rios. Os dados apresentados na ocasi√£o tiveram o efeito de uma den√ļncia pol√≠tica do n√£o cumprimento da legisla√ß√£o trabalhista. Hoje, 30 ap√≥s a Constitui√ß√£o Federal de 1988, a creche no local de trabalho sobrevive em n√ļmero irris√≥rio. Menos de 5% das empresas t√™m creches e o vale-creche tem valores aqu√©m do pre√ßo do mercado.   

Cl√©lia Virginia Rosa, no cap√≠tulo Creche, ra√ßa e classe: rela√ß√Ķes complexas numa creche de empresa privada, aborda a creche de empresa privada como um cen√°rio de rela√ß√Ķes complexas, protagonizadas por mulheres, com diferentes posi√ß√Ķes socioecon√īmicas e diferentes pertencimentos racial. O texto tamb√©m aponta como a imprensa, por interm√©dio de jornais de grande circula√ß√£o, foi abordando a tem√°tica das creches nos locais de trabalho; num primeiro momento, trazendo o protagonismo das mulheres na luta pela creche como direito trabalhista e, d√©cadas mais tarde, o protagonismo sendo direcionado √† empresa, por inserir a creche como item de seu pacote de benef√≠cios.

Fl√°vio Santiago e Ana L√ļcia Goulart de Faria, no √ļltimo cap√≠tulo, intitulado Da descoloniza√ß√£o do pensamento adultoc√™ntrico √† educa√ß√£o n√£o sexista desde a creche: por uma Pedagogia da n√£o viol√™ncia, partem da inspira√ß√£o de uma iniciativa constru√≠da por docentes italianas em uma creche da cidade de Bologna ‚Äď It√°lia, no dia da Jornada Internacional para a Elimina√ß√£o da Viol√™ncia Contra a Mulher, buscando estabelecer conex√Ķes transnacionais na luta contra as opress√Ķes hetero-patriarcais, bem como destacam a necessidade de garantia ao direito √† fala e representatividade, de modo a romper com as estruturas coloniais ‚Äúque nos ensinaram a catequizar‚ÄĚ didaticamente formas de vida, tanto quanto acreditar na exist√™ncia de uma √ļnica verdade que prescreve um modo de ser e estar no mundo.

Devo fazer agradecimentos a todas as pessoas com as quais convivi durante este semestre na FE/Unicamp: √†s alunas e aos alunos que frequentaram o curso e que, juntos, compartilhamos as viv√™ncias relativas aos temas abordados; com paci√™ncia, cansa√ßo, ansiedade,  afetividade e aten√ß√£o sempre, √† Professora Ana L√ļcia Goulart de Faria, que supervisionou todo o curso, desde seus primeiros passos at√© a finaliza√ß√£o dos trabalhos, esteve firme no Skype, sempre com um sorriso enorme na tela; ao Fl√°vio Santiago, doutorando da FE/Unicamp, que me deu toda a assist√™ncia necess√°ria com compet√™ncia e dedica√ß√£o e acompanhou todo o curso da disciplina; √†s Diretoras Dirce Zan e D√©bora Mazza, ambas me acolheram com muito entusiasmo  e carinho; √†s demais professoras, que me acolheram; ao Professor Heloani, sempre aguerrido na luta;  √† Coordena√ß√£o Pedag√≥gica e Administrativa, que deu todo suporte de que precisei; √† Luciana Grandin, sempre disposta em retirar nossas d√ļvidas e contribuir para um bom andamento do semestre;  √† Pr√≥-Reitoria de gradua√ß√£o - UNICAMP e ao Cl√≥vis e Andrea, que proporcionaram a filmagens das aulas; √† Thais Rodrigues Marin, da Secretaria de Pesquisa da Faculdade de Educa√ß√£o - UNICAMP, que me acolheu no primeiro dia que cheguei e j√° foi logo pedindo uma entrevista; ao Centro Acad√™mico de Pedagogia, que dividiu comigo e com a turma aspira√ß√Ķes por uma pol√≠tica de cotas na gradua√ß√£o da Unicamp, e que conquistou uma vit√≥ria.  Quero agradecer tamb√©m √†s professoras, pesquisadoras, em especial, Iara Beleli, Adriana Piscitelli e Regina Facchini, e demais integrantes do N√ļcleo de Estudos de G√™nero Pagu[13], que me propiciaram di√°logos enriquecedores.

 

 

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