Os diálogos do cotidiano nas redes sociais: A liquidez discursiva nos memes PE750502

Os diálogos do cotidiano nas redes sociais: A liquidez discursiva nos memes

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Rossana Furtado !@
Diálogos do cotidiano nas redes sociais: a liquidez discursiva nos memes. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 299p.
ISBN 978-85-7993-773-6
1. Estudos da linguagem. 2. Linguagem nas redes sociais. 3. O discurso nos memes. 4. A liquidez discursiva. 5. Rossana Furtado. I. Título.
CDD – 410

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PREFÁCIO

 

 

Em tempos de golpes, retrocessos, fascismos e fascistas, desgoverno, tentativas de destruição das universidades públicas, enquanto lugares de ciência, consciência, pluralidades, os memes constituem fortes contrapalavras às palavras de ordem, de autoritarismo, de oficialismo, de normatividade hétero, religiosa, social, contrapalavras às palavras de supostas superioridades racial, de gênero, de etnia, de classe.

Os memes são contradiscursos, são discursos que nadam contra as correntes que querem nos afogar, nos aprisionar em padrões pré-estabelecidos, sabe-se lá por quem. Como diriam Bakhtin e Volóchinov, em Marxismo e filosofia da linguagem, são discursos sobre discursos, enunciações sobre enunciações, reportando acontecimentos do presente, mas com os olhos voltados tanto para o passado – num eterno retorno de significações - quanto para o futuro –, num eterno por vir de ressignificações. Como um Jano Bifronte, ligado no pequeno tempo mas linkado no grande tempo – historicidade.

Também como um Jano Bifronte, os memes são ambíguos, contraditórios, paradoxais, bivalentes. E são bivalentes num sentido muito particular. Provocam o riso, mas provocam e invocam, também, uma reflexão. Como Rossana Furtado mostra neste livro, que tem como base a sua Tese de Doutorado homônima, defendida este ano no Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGEL), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tendo como banca examinadora as presenças marcantes da(o)s Profa(o)s. Dra(o)s. Simone de Jesus Padilha (UFMT), Michele Freire Schiffler (UFES), Daniel de Mello Ferraz (UFES/USP), Luís Fernando Bulhões Figueira (UFES) e Vanildo Stieg (IFES/ISEAT/UFES), sob minha presidência, memes como os do “garoto do mimimi”, do “laranjo”, do “Willy Wonka”, entre inúmeros outros, nos fazem rir, claro, mas os efeitos de sentido vão muito além do riso (ainda que o riso seja uma chave para se compreender ativa e responsivamente os memes, né, Vanildo?!?), fazendo emergir questões como as relações (dialógicas) entre infraestrutura e superestrutura, ideologia oficial, ideologia dominante e ideologia do cotidiano, carnavalização, gêneros discursivos, entre outras.

Uma das grandes teses de Rossana Furtado diz respeito à sua visão da contemporaneidade, na esteira de Zigymun Baumann. A pesquisadora considera que a liquidez que o autor enxerga na sociedade atual se mostra refletida e refratada nos memes, enquanto gêneros do discurso híbridos, voláteis, quase impossíveis de serem enquadrados em alguma configuração mais “sólida”, se isso é possível, como uma HQ, uma charge, uma piada, oral ou escrita, um sketch de humor.

Do ponto de vista de uma historicidade genérico-discursiva, os memes têm laços com vários ou todos (d)esses gêneros. Mas não se enquadram, exatamente, em nenhum deles.

No próprio desenvolvimento histórico desse gênero discursivo, os memes, inicialmente uma imagem e um texto curto, hoje se materializam discursivamente em vídeos, posts, em réplicas dialogais em plataformas como o Whatsapp, Facebook, e, também, como analisa Rossana Furtado, nas práticas orais. Conforme Rossana, que é, também, professora da educação básica e do ensino superior, muitos jovens se valem de memes em suas conversas, às vezes incompreensíveis por nós adultos (dinossáuricos… kkkkkk). Como exemplo, ela conta uma história de sala de aula:

 

Estava na sala de aula de um 8º ano de uma escola particular e, como professora substituta de outra que havia entrado de licença, estava sofrendo uma certa rejeição dos alunos dessa turma em específico. Num certo momento da aula, em que eu estava tentando explicar a matéria e a sala não se aquietava, alguns alunos inclusive me enfrentando na tentativa de tomar as rédeas da aula, um deles disse a mim: “grita”. Eu respondi prontamente que não achava necessário gritar, pois isso não era do meu feitio. Esses alunos, então, começaram a rir e percebi que havia ali um deboche. Fiquei uns segundos sem entender até que um outro aluno, complacente comigo, me disse que isto era um meme. (p. 130)

 

Os memes são fluidos, são líquidos. E são líquidos, segundo Furtado, porque a sociedade está líquida e grande parte de seus discursos também estão, daí um contexto dialógico de fake news, de pós-verdades, de tentativas de se reescrever a história.

Essa liquidez discursiva, termo cunhado pela autora, se encontra materializada discursivamente na questão da autoria. A replicação memética dilui a identificação do autor, como se fosse uma outra forma de “morte do autor” (Barthes). A autoria líquida faz com que nos apropriemos de um enunciado, produzido por um sujeito a quem não conseguimos atribuir um nome, e o passemos adiante, como se fôssemos nós os autores desse enunciado. No entanto, todos que recebem esse enunciado sabem que não somos os autores. Mas será que não somos mesmo? Os memes parecem nos colocar num lugar de protagonistas do discurso, tanto no campo da produção, quanto no campo da recepção. Viralizamos memes – e, talvez, só sejam memes porque os viralizamos – e, assim, agimos ativamente em sua (re)produção. Rimos dos memes, e, assim, os compreendemos ativa e responsivamente. Nesta perspectiva, não se trata de “morte do autor”, mas de (re)nascimento de autores, num coletivo que se contrapõe à ideologia individualista neoliberal dominante no mundo capitalista em que vivemos.

 

 

Luciano Novaes Vidon

 

Vitória, 9 de outubro de 2019.

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