Olhar forasteiro PE137774

Olhar forasteiro

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Frederico Gomes !@
Olhar forasteiro (precedido de Moinhos de [in]vento). São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 106p.
ISBN: 978-85-7993-748-4
1. Poemas. 2. Olhares forasteiros para a vida. 3. Relação estética x ética. 4. Autor. I. Título.
CDD – B-869

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PREFÁCIO

                                                Alexei Bueno

 

 

Após a publicação de dois livros, Poemas ordinários, em 1995, e Outono & inferno, de 2002, Frederico Gomes traz neste Olhar forasteiro (precedido de Moinhos de [in]vento) uma importante série de novos poemas, que, de acordo com a “Breve nota” redigida pelo próprio autor, fazem parte dum imaginado Poemas reunidos, em cuja possibilidade de edição o próprio poeta descrê. Tal aviso é altamente sintomático de uma sua essencial desconfiança em relação às certezas do real, indissociável, aliás, dum sentimento primordial do inseguro e do efêmero de todas as coisas, um sentimento que facilmente diríamos budista, e que não poderá deixar de espalhar suas marcas, é evidente, nos poemas que aqui se reúnem.

Já no admirável poema que abre a primeira parte da obra, e lhe inspira o nome, “Moinhos de vento”, poema escrito num hospital, tudo isso fica claro. É impossível para nós, ocidentais, e talvez não somente nós, pensar em moinhos de vento sem recordar o Cavaleiro da Triste Figura e a sua luta vã contra os mesmos, luta por não serem eles o que ele julgava que fossem, e vã igualmente pela óbvia desproporção de forças. Quando o poeta afirma:

 

Tudo que é imóvel se move

porque não há coisa mais imóvel que a morte.

 

ele constata a ubiquidade da morte, ao mesmo tempo que a sua unicidade com tudo quanto é vivo, constatação desenvolvida no poema seguinte, o doloroso e cruel “Nonsense”, visão do absurdo primordial sobre o qual se assenta, sem qualquer firmeza, a condição humana, tudo agravado por uma outra constatação, desta vez histórico-sociológica, com a qual concordamos desde o mais íntimo das nossas fibras:

 

esta época tão, mas tão insossa,

que nem pensas que vives.

 

No poema “Endecha” a morte — tema dos temas — retorna. Não há, ao lermos a seguinte quadra:

 

Em tua paradigmática

contabilidade ou

infame matemática

os números são homens.

 

como não nos recordarmos de certas partes do soneto “Versos a um coveiro”, de Augusto dos Anjos:

 

Numerar sepulturas e carneiros,

Reduzir carnes podres a algarismos,

 A aritmética hedionda dos coveiros!

 Porque, infinita como os próprios números,

A tua conta não acaba mais!

 

com a curiosidade de sabermos que o fluminense Frederico Gomes, por esses caminhos incompreensíveis do destino, acabou por residir em Leopoldina, último abrigo mineiro do genial paraibano, e, mais curioso ainda, para um poeta nada alheio às referência à Grécia, num seu distrito chamado Tebas.

 Em “Duas baudelairianas”, logo a seguir, o autor concretiza o que o título promete, em dois sonetos à la manière de. Frederico Gomes, aliás, como muitos poetas de sua geração e das gerações posteriores, utiliza as formas fixas com certas liberdades métricas e rímicas, no seu caso levadas a bom termo pelo ouvido poético do autor, esta qualidade sine qua non para quem quiser exercer o ingrato ofício do verso, por livres a brancos que eles sejam, e talvez até ainda mais em tal caso, realidade que tantos não percebem.

 Em versos brancos e livres, aliás, é a excelente “Rapsódia de Barra do Piraí”, tão carregada da passagem do tempo, quadro algo proustiano, mas no sentido menos aristocrático possível, da província natal do poeta. A mesma ambiência provinciana se encontra no poema em prosa “As palmeiras”, poema em prosa com certas rimas internas, prática pouco comum no gênero.

 Em “Diário de bordo”, muito precisa homenagem a Borges, e “Never more”, dedicada a seu pai, a morte mais uma vez toma a frente do palco. Há, além das homenagens estéticas e familiares, muitas referências aos amigos neste livro de Frederico Gomes, o que é o caso de “O dizer”, poema longamente sustentado em duas únicas rimas. Composto ainda sob a égide de um grande nome da literatura universal é um dos maiores e mais importantes poemas do livro, “No Carnaval com Walt Whitman”, enquanto “Antiodisseia”, poema crudelíssimo, espelha o possível reverso das glórias literárias. Passando da poesia ocidental para a oriental, os seis haicais de “Em silêncio com Bashô” confirmam o prestígio da admirável forma japonesa, a qual poucos poetas ficaram indiferentes, de Manuel Bandeira a Rafael Alberti, do recém-lembrado Jorge Luis Borges a Odysseus Elytis.

 Um registro sarcástico e mordaz envolve o leitor de “Novas Helenas” ou do “Quarteto camerístico-irônico para voz e ruídos”, assim como de muitos outros poemas. O nosso grotesco cotidiano é sempre muito bem percebido por Frederico Gomes, que às vezes não se furta em buscá-lo, impiedosamente, em si próprio, como no poema “Amor”.

 Na seção seguinte, “Intermezzo: Cantos tebanos”, em referência ao supramencionado distrito de Leopoldina onde vive o poeta, encontramos poesia de circunstância no melhor sentido do gênero, sempre lembrando que Goethe já afirmara que toda a poesia é de circunstância. Inicia-se a partir daí a segunda parte, “Moinhos de [in]vento”, ótimo e espirituoso trocadilho, esta coisa perigosa. Bastante centrada nas formas fixas, o desalento inafastável da nossa condição absurda reaparece, de maneira muito sintética, num poema como “Cantiga à moda antiga”. Pouco depois surge a grande, longa e comovida elegia “Ao amigo poeta in memoriam”, sem qualquer dúvida uma das obras-primas do autor. O “amigo poeta” em questão é Ivan Junqueira, de fato grande amigo de Frederico Gomes — Fred para os íntimos — assim como do autor destas linhas. Mas a elegia transcende a saudade e a homenagem, é uma diatribe violenta contra uma sociedade doente, com muito de confessional, confirmando, aliás, algo que já afirmáramos sobre a utilização do irônico e do sarcástico no poeta:

 

Porém, irreverência e ironia

têm sido máscaras que me salvam

das adversidades e dessa

gente tola de vãs verdades –

 

Após mais uma homenagem a Borges, depois de outras a Drummond e a Anna Akhmátova, a dura visão, o amargo balanço da própria vida reaparece em “Esboço biográfico”, no caso em duas versões, a primeira à la Álvaro de Campos, a segunda à la Fernando Pessoa ele mesmo.

 Chegamos então, finalmente, à terceira e última parte, “Olhar forasteiro”, que se inaugura com mais uma visão fortemente amarga do mundo moderno, em “Devaneios e pesadelos de uns poucos”. Tal sentimento se sustenta através de poemas diversos, criando no autor uma espécie de sonho de evasão, de fuga radical desta realidade pútrida:

 

Mas eu gostaria mesmo é que me achasse

numa ilha distante sem sequer Crusoé

(que no caso seria meu Sexta-Feira).

 

A repulsa pode, no entanto, manifestar-se com humor, como no excelente “Tempo disponível do hedonista (Relendo Anacreonte e Kháyyám)”, retrato da ridícula obsessão por saúde e longevidade que empolgou a nossa condenada espécie. A união de crítica, indagação filosófica e humor é que dá origem, por exemplo, ao longo poema “A Neanderthal’s memory”. Logo em seguida, as homenagens prosseguem, a Clarice Lispector, a Malevitch — um pintor dessa vez — e a quatro escritoras inglesas, Virginia Woolf, Jane Austen e as Irmãs Brontë, às quais se sucedem outras, a Auden e a Cecília Meireles. Podemos dizer que o desgosto com a realidade é superado pelo poeta — medularmente um homem de cultura — graças à fruição estética, experiência de tantos entre nós. Dois importantes poemas, finalmente, encerram o livro, o pessimista “Tirésias” — mais uma vez a onipresença grega — e “A Paineira (Alegoria para uma menininha teimosa)”.

Acreditamos que o livro que o leitor tem em mãos é o mais importante da obra de Frederico Gomes, e a prova disso é que, neste prefácio, ainda que tenhamos citado muitos poemas, nossa vontade era comentá-los um a um, o que seria obviamente inexequível. Quem conhece o autor sabe do seu profundo desprezo por essa coisa chamada “vida literária”, expressão que nos lembra o divertido título do livro publicado por Fernand Divoire em 1912, Introduction à l’étude de la stratégie littéraire. A Frederico Gomes — Fred para os íntimos — julgamos que nem a estratégia vital interessa, quanto mais a literária, o que só comprova ser ele, além de artista, um sábio.

 

                                         21-8-2019

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