O discurso do conflito materializado no MST: a ferida aberta na nação PE232

O discurso do conflito materializado no MST: a ferida aberta na nação

Ref.: PE232 Compra Segura

Lucília Maria Abrahão e Sousa !@
ISBN. 978-85-7993-471-1
229 páginas
1. Estudos do discurso. 2. Análise do Discurso francesa. 3. Discurso da luta pela terra. 4. O discurso do MST

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UMA ANÁLISE DE SÉCULOS

 

“Não era o fazendeiro quem pagava ao trabalhador pela formação do cafezal. Era o trabalhador quem pagava com cafezal ao fazendeiro o direito de usar as mesmas terras na produção de alimentos durante a fase de formação”. Martins (1986, p.74)

 

Podemos conhecer a questão agrária de diferentes modos, desde as diversas áreas do conhecimento e desde distintos métodos de análise. Neste livro, pela leitura das formações discursivas e ideológicas conhecemos as análises dos discursos sobre a questão agrária brasileira. O método de Lucília Maria Abrahão e Sousa abre as porteiras do conhecimento e do desconhecimento por meio do confronto discursivo. Os discursos são territórios imateriais ilimitados e delimitados pelo poder do uso das palavras e da construção de seus significados definidos pela intencionalidade dos sujeitos. Na análise de Lucília, observamos a disputa pelos territórios imateriais na explicação dos fatos. A autora faz este trabalho com o requinte que os temas merecem. Sua dedicação impressiona as leitoras e os leitores por tratar-se de interpretações baseadas em fatos e documentos que não nos deixam dúvidas sobre seus significados.

A epigrafe deste prefácio, uma citação do clássico Cativeiro da Terra, de José de Souza Martins, que Lucília utiliza em sua obra, é uma mostra das leituras sobre a questão agrária. Nas relações analisadas por Martins, o fazendeiro acreditava fielmente que pagava ao trabalhador para formar o cafezal. Os capitalistas acreditam que pagam um salário justo aos trabalhadores que exploram, inclusive esta é uma palavra que capitalistas não usam: exploração. E não usam porque ela abre o território do desconhecido que eles – fielmente – não querem conhecer. E não querem porque não aceitam o confronto discursivo. Para os exploradores só há uma possibilidade: a formação discursiva dominante. Qualquer outra formação discursiva é uma afronta à ordem estabelecida pelo capital. A formação discursiva produz ações, relações, transforma a realidade e, portanto, os espaços e os territórios, controla a terra e o trabalho, determina a vida das pessoas.

Compreender a questão agrária pelo discurso é uma viagem fascinante tanto na ida como na volta, porque você vê os dois lados o tempo todo. E mais, você terá que tomar um lado na interpretação das histórias analisadas. Podemos compreender os dois lados, mas não podemos estar nos dois lados. Lendo este livro, você certamente tomará uma posição no debate paradigmático. Esta publicação vem em boa hora, em um momento que Brasil é devastado pelas políticas neoliberais, pelas posturas fascistas de organizações de extrema direita que promovem a intolerância contra os sem-terra, os povos indígenas, os quilombolas e outros povos tradicionais. Estas posturas são identificadas nos vários capítulos desta obra, pois parte de sua análise é sobre o governo Fernando Henrique Cardoso, na primeira fase neoliberal. Pode-se, inclusive, observar a postura de Michel Temer sobre a questão agrária, na época, então presidente da Câmara. Nesta viagem, a autora seleciona entre os principais fatos, aqueles que ela considerou importantes para uma leitura da questão agrária brasileira pelas formações discursivas.

Após a introdução sobre seu referencial teórico, ela inicia sua análise pela brecha camponesa que nasceu na luta contra a escravidão. Lucília delimita o início da questão agrária nas terras que foram tornadas Brasil: “Os índios foram, portanto, os primeiros sem-território a abrir a ferida na nação”. A desterritorialização indígena é parte das formações discursivas que atravessam o tempo até o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. Indígenas, escravos, imigrantes, camponeses, um por um tornado sem-terra na marcha da luta pela terra e pelo território, continuam caminhando no tempo, construindo discursos de resistência e de re-existência, como afirma Lucília. Este texto intenso de fatos e realidades já é referência para as análises dos futuros discursos a serem fabricados pela máquina da formação discursiva dominante. Desde o presente podemos ver os discursos do passado e prever os do futuro.

Indignação diante do latifúndio é uma das expressões da formação discursiva de resistência. O agronegócio se apropria do latifúndio, mantendo-o como produção e produto da desigualdade. Exemplos desse processo são as análises das guerras de Canudos e Contestado e sobre o trabalho dos imigrantes em Ibicaba, em que a autora utiliza as formações discursivas dominante e de resistência, revelando as formações ideológicas e seus territórios imateriais como ferramentas para o debate paradigmático, interpretando os discursos dos paradigmas do capitalismo agrário e da questão agrária. Este litigio discursivo entre os paradigmas produz interpretações em disputas permanentes com sentidos determinados pelas relações de poder. O agronegócio apropriou-se da estrutura latifundiária para manter os privilégios produzidos pelas desigualdades geradoras da concentração fundiária. A formação discursiva, que mantém este modelo de desenvolvimento decadente, interpreta a luta pela terra como uma invasão que atinge a propriedade privada e desestrutura o modelo, impactando negativamente o sistema capitalista.

Ocupação - invasão é uma das excelentes análises que faz Lucília. Entre o progresso e o crime, a expropriação do caboclo, do camponês é progresso e a ocupação ou expropriação do latifúndio é crime. As formações discursivas revelam as conflitualidades carregadas de tempos e espaços. Na leitura sobre o MST, a autora remete ao tempo dos discursos e demonstra que alguns periódicos como O Estado de S. Paulo mantêm sua formação discursiva deste a guerra de Canudos até o MST. O Massacre de Eldorado dos Carajás, as lutas contra as terras griladas do Pontal do Paranapanema, os ataques aos membros do MST são partes das formações discursivas do paradigma do capitalismo agrário. A luta pela terra é parte da história do nosso País e seguirá sendo, por mais que o discurso dominante tente negar. Esta é uma das teses deste livro. A formação ideológica dominante tem que construir todos os dias o discurso para sustentar sua manutenção no poder. Todos os dias eles negam as lutas populares que lutam pela vida.

            Tive o prazer de participar da banca de defesa de doutorado de Lucília, em 2002, cuja tese gerou este livro. São, portanto, quinze anos que se passaram, a questão agrária possui nova conjuntura mas mantém a mesma estrutura. A intensa participação do capital financeiro na produção de commodities agrícolas e minerais ampliaram os conflitos. A hegemonia neoliberal fortaleceu a formação discursiva do latifúndio e do agronegócio reprimindo as resistências e aumentando as violências contra os povos que lutam pela terra. O capitalismo agrário condena a terra e as pessoas a um modelo decadente, poluidor, desigual e paradoxal. Em todo mundo, movimentos camponeses e indígenas lutam bravamente contra este modelo. Lucília nos oferece uma análise de séculos que nos ajuda a compreender o século XXI, em que a questão agrária não se limita ao campo, mas encontra-se em todos os lugares.

Depois de ler este livro, você jamais vai conseguir pensar a questão agrária sem considerar as formações discursivas e, portanto, o debate paradigmático.

 

Boa leitura.

 Bernardo Mançano Fernandes,

geógrafo e professor da UNESP

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