O discurso antiafricano na Bahia no século XIX PE100

O discurso antiafricano na Bahia no século XIX

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F√°bio Ramos Barbosa Filho !@
O discurso antiafricano na Bahia no século XIX. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 270p.
ISBN 978-85-7993-542-8
1. Discurso antiafricano. 2. Estudos de Discurso. 3. Acontecimento. 4. Arquivo. 5. Autor. I. Título.
CDD ‚Äď 410

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Corpos perigosos, perigosa teoria

 

 

O livro que tenho a honra de apresentar aqui é a versão modificada da Tese de Doutorado defendida pelo autor em agosto de 2016, no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Trata-se de um trabalho que pode ser chamado, sem qualquer impropriedade, de radical.

Radical em sua inser√ß√£o singular no campo te√≥rico da An√°lise de Discurso, retomando aquilo que para alguns pode soar anacr√īnico, isto √©, a rela√ß√£o entre teoriza√ß√£o e tomada de posi√ß√£o pol√≠tica, que aqui n√£o se deixa representar por um acr√©scimo a posteriori, mas sim por uma determina√ß√£o de olhar e do arranjo conceitual que √© expl√≠cita e marca todo o desenvolvimento do trabalho.

Radical em sua perspectiva anal√≠tica, recusando tanto as respostas totalizantes que se esquecem do imbricamento entre real da l√≠ngua e real da hist√≥ria quanto uma gramaticaliza√ß√£o excessiva do corpus (que torna o momento da interpreta√ß√£o uma esp√©cie de coloca√ß√£o ‚Äúem contexto‚ÄĚ do material lingu√≠stico).

Radical em sua escolha de objeto e em seu manejo, mostrando que, longe de ser um corpo passivo que se deixa marcar a ferro e fogo pelo poder, o corpo negro recusa sua redução à ferramenta de trabalho, a servo sexual e a vida puramente biológica para, em seus gestos de insubmissão, atingir a figura plena de sujeito.

Radical em sua aventura formativa: o texto baila entre autores contempor√Ęneos e outros mais vinculados ao in√≠cio da An√°lise de Discurso, entre os trabalhos desenvolvidos no Brasil (notadamente os de Eni Orlandi e os de uma gera√ß√£o formada por esta pesquisadora) e aqueles franc√≥fonos, entre autores facilmente reconhec√≠veis no interior do campo da An√°lise de Discurso e outros de √°reas afins, tecendo a√≠ uma escrita particular, rigorosa em sua formula√ß√£o, severa em seus desdobramentos anal√≠ticos, alegremente triste em suas conclus√Ķes ‚Äď que extrapolam o objeto pr√≥prio de an√°lise do texto e atingem essa fratura que chamamos Brasil.

Gostaria agora de explorar, de forma mais espec√≠fica, alguns pontos altos do trabalho que certamente produzir√£o seus efeitos na filia√ß√£o te√≥rica e anal√≠tica na qual o autor se insere. √Č uma quest√£o de tempo.

E pelo tempo come√ßo, pois o modo como o autor coloca essa quest√£o central para operar em seu trabalho √© extremamente refinada: nem passado long√≠nquo, aquilo que queda para sempre no murm√ļrio surdo, nem identidade com o presente, como se ao tempo fosse recusada a dimens√£o do passar, a temporalidade neste livro √© pensada como a articula√ß√£o sempre contingente entre temporalidades distintas (e aqui se nota a filia√ß√£o althusseriana do autor) que se chocam produzindo efeitos espec√≠ficos nas discursividades. Um efeito amplamente explorado no trabalho √© justamente aquele em que discursividades distintas, com temporalidades distintas, aparecem saturadas na horizontalidade do enunciado.

Outra quest√£o central √© a retomada do conceito de arquivo no desenvolvimento do texto. Aqui, o trabalho alcan√ßa uma densidade n√£o apenas te√≥rica, mas profundamente anal√≠tica, pois o autor n√£o se exime de pensar, do ponto de vista mais te√≥rico, as consequ√™ncias de um pensamento materialista sobre a quest√£o do arquivo, e, do ponto de vista anal√≠tico, o fato essencial de que um arquivo coloca em rela√ß√£o discursividades que, por um efeito de arquivo, produzem a evid√™ncia do ‚Äúdocumento‚ÄĚ e do ‚Äúfato hist√≥rico‚ÄĚ que na an√°lise s√£o remetidas ao jogo entre a mem√≥ria e o poss√≠vel, entre a determina√ß√£o e a conting√™ncia.

Do ponto de vista enunciativo, um dos desafios da an√°lise que se desdobra neste livro, e que est√° articulada √† dimens√£o do arquivo, √© o de como fazer figurar a voz negra diante da monumentalidade de um arquivo institucional, policial, jur√≠dico, jornal√≠stico, em que os corpos negros s√£o ‚Äúfalados‚ÄĚ pelos aparelhos repressivos e de Estado.

No entanto, e principalmente atrav√©s de uma cuidadosa reflex√£o sobre o rumor enquanto objeto discursivo (que certamente merece aten√ß√£o pelos estudiosos do discurso), o autor nos mostra como a figura do negro enquanto potencialmente insurgente √© textualizada e d√° corpo ao ‚Äúmedo branco‚ÄĚ. Ao mesmo tempo, e entredentes, algo de uma discursividade para al√©m do que aquilo que o Estado deixa escapar, deixa-se escutar por um murm√ļrio que invade sutilmente a sintaxe dos enunciados.

Quanto à questão da história, que atravessa tudo o que disse mais acima, vale ainda ressaltar que a questão da gênese e da origem é deslocada em favor de uma concepção mais discursiva: não se trata exatamente de saber determinar os fatos que dariam origem a certos eventos, mas de observar os discursos-fundadores como lugares de estabilização e ancoragem de certos modos de produção de significação.

H√° ainda um ponto a ser demarcado, e que j√° faz parte da trajet√≥ria de pesquisa do autor, que √© o pensamento sobre as rela√ß√Ķes entre o social e o pol√≠tico e entre o jur√≠dico e o cotidiano. Nessa dire√ß√£o, a an√°lise aqui desenredada torna um pouco mais vis√≠veis os processos que tentam conter, pelo jur√≠dico, a dimens√£o verdadeiramente pol√≠tica. A pr√≥pria placa, que deveria ser usada pelos ‚Äúpretos ganhadores‚ÄĚ, √© ao mesmo tempo um peda√ßo de metal, um peda√ßo de hist√≥ria e uma tentativa de administrar juridicamente aquilo que prov√©m do campo da pol√≠tica. Nesse sentido, nada pode ser mais material que essa infame placa, nos sentidos que ela produz e nos sentidos que s√£o recusados pelos pretos ao deit√°-la fora. Nem cidad√£os, nem estrangeiros, os pretos s√£o um inc√īmodo para a cidade planejada (por decreto) de Salvador, no seu encontro com a cidade existente, com suas rela√ß√Ķes comerciais, pol√≠ticas e cotidianas j√° inscritas numa certa mem√≥ria. √Č no corpo negro que se marcar√° essa contradi√ß√£o da forma-cidade, que delimita o espa√ßo interno e o outro hostil (que, nesse caso, √© interno ao espa√ßo da cidade, diferentemente do √≠ndio).

Considero que este livro √© uma amostra perfeita daquilo que cabe a um analista de discurso, ou seja, fazer-se de imbecil diante das evid√™ncias que se acumulam e nos soterram. Retomando um prov√©rbio chin√™s, Michel P√™cheux diz que ‚Äúquando lhe mostramos a lua, o imbecil olha o dedo‚ÄĚ. Olhar o dedo √© justamente penetrar surdamente no reino das palavras, sem chave, mas com algum m√©todo. F√°bio Ramos Barbosa Filho perscruta cuidadosamente os dedos que se lhe apresentam, disseca-lhes as ranhuras, confere-lhes as unhas, torna vis√≠veis marcas que est√£o na sintaxe dos enunciados, no jogo entre enunciado e enuncia√ß√£o, no choque conflituoso de mem√≥rias, nos sil√™ncios e apagamentos de sentidos. E v√™ tamb√©m o dedo que aponta e acusa que o Brasil simplesmente ainda n√£o existe. Mas, parece dizer este livro, talvez existam os brasileiros.

Termino com as palavras do autor: ‚Äúque se torture, mate e expulse, que se inscreva nos documentos um espa√ßo de repeti√ß√£o que permita que ainda hoje, s√©culos depois, o corpo negro seja o espa√ßo do arbitr√°rio, do ind√≠cio, da suspeita, das balas perdidas e dos casos isolados, um suspiro de alteridade insubmissa, debochada e impertinente sempre encontrar√° o lugar do sentido como forma de resistir‚ÄĚ.

Que este trabalho impertinente encontre a leitura insubmissa e debochada que merece.

 

Lauro Baldini

Departamento de Linguística

Instituto de Estudos da Linguagem

Universidade Estadual de Campinas

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