Ícone e afiguração: Bakhtin, Malevitch, Chagall PE314035

Ícone e afiguração: Bakhtin, Malevitch, Chagall

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Luciano Ponzio !@
Ícone e afiguração: Bakhtin, Malevitch, Chagall. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 182p.
ISBN 978-85-7993-704-0
1. Ícone e afiguração. 2. Estudos bakhtinianos. 3. Malevitch. 4. Chagall. 5. Autor. I. Título.
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APRESENTAÇÃO

ou Aprender a ver

 Marisol Barenco de Mello

 

 

A primeira vez que vi um Chagall, que vi uma tela de Marc Chagall, foi no ano de 2009, eu já com 46 anos, professora na Universidade Federal Fluminense. Não se deve espantar, pois no Brasil as conhecidas exposições para as “massas”, tão duramente criticadas, deram acesso amplo a obras de artistas europeus, a partir da década de 1980. O Centro Cultural Banco do Brasil organizou uma mostra intitulada Virada Russa - a Vanguarda na Coleção do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, com 120 obras de diversos artistas, principalmente Malevitch, de quem foram expostos a trilogia Quadrado Preto, Cruz Preta e Círculo Preto[1]. Pude ver, além das pinturas, os costumes de Malevitch para a peça Vitória sobre o sol, dentre outras obras. A tela de Chagall de que me recordo mais fortemente foi The Promenade, ou O Passeio, de 1917-18, em que retrata a si e sua amada Bella em uma cena de passeio em Vitebsk. Casario verde, sinagoga cor-de-rosa, Chagall de preto e Bella de vestido e sapatos cor-de-rosa, que sem gravidade está de ponta-cabeça segura pela mão esquerda de seu amado, que na direita segura um pássaro.

Aquilo sobre o que tinha lido estava diante de mim. Uma tela de Chagall. Pensei, me demorando em frente a ela: eu gosto! Mas, pensei: são lindas as cores e é bela a leveza da mulher amada. Expressões emocionais ou de gosto, interjeições de quem, não sabendo ler uma pintura, permanece aprisionada na camada sensório-emocional da reação estética. Emocionei-me, e segui a vida, com mais essa beleza no olhar. Não compreendi Chagall, e por isso a ele não pude responder de outro modo, como Stendhal, narrado por Roland Barthes, em Non si riesce mai a parlare di ciò che si ama[2], quando visitou a Itália e a amou. Em seu diário, exclamações: bella! bello! Será que não conseguimos falar daquilo que amamos? Uma tela de Chagall pode ser compreendida, sem destruirmos seu valor estético com análises objetivistas ou subjetivistas?

Li Icona e Raffigurazione. Bachtin, Malevič, Chagall, de Luciano Ponzio, assim mesmo em italiano, em uma edição de 2008, presenteada a mim em 2015, quando da realização do III Encontro de Estudos Bakhtinianos, na UFF, em Niterói. O próprio Luciano havia conhecido em São Carlos, em 2012, alguns anos depois do meu primeiro encontro com Chagall, em um evento do Grupo de Estudos de Gêneros do Discurso – GEGe (Seminário “A Obra de Bakhtin e do Círculo”, UFSCar, Universidade Federal de São Carlos, 12-15 março).

O presente livro nos traz o estudo que configurou a tese de Luciano Ponzio em Semiótica, como conclusão da Graduação em Língua e Literatura Russa, no ano 2000, na Faculdade de Línguas e Literaturas Estrangeiras da Università degli Studi di Bari. Já na minha primeira leitura percebi estar diante de um trabalho inovador e que trazia aportes inéditos aos estudos bakhtinianos e também aos estudos da Semiótica da obra de arte. Durante os anos que se seguiram a essa primeira aproximação, orientando teses que tinham como tema a relação das escrituras, das artes com a teoria do Círculo de Bakhtin, fui aproximando-me de sua escritura e buscando aprofundar os diálogos que Luciano Ponzio emaranha, em sua iniciativa de construir uma semiótica da obra de arte de orientação bakhtiniana. Difícil definir em uma frase o que o autor busca realizar, pois como as grandes obras, sua pesquisa foi revelando outras relações, e transbordou das intenções iniciais. Porque trata-se de uma pesquisa, a intencionalidade inicial naturalmente se alarga com o acontecimento do estudo, se tornando maior do que se propunha. Arrisco, em minhas aproximações, a dizer que em Ícone e Afiguração buscou-se construir um espaço-tempo teórico e experimental de compreensão de uma pesquisa artística - Chagall e sua obra - a partir da construção da arquitetônica estética de Bakhtin. É necessário dizer que nenhum dos dois momentos da pesquisa é de pequeno monte, mas tarefa de grande dimensão.

Ao terminarmos de ler, e então compreendendo de modo bastante claro que é possível, sim, verificar a estética bakhtiniana em relação à pesquisa artística de vários artistas, aqui notadamente Malevitch e Chagall, poderia nos advir o sentimento de que foi simples o realizado. De fato, aquilo que Luciano Ponzio consegue é o efeito do simples. E é Bakhtin mesmo quem nos orienta a perceber justamente a atividade artística como esse “atravessar” do complexo para se chegar ao simples. Luciano não “atravessou”, mas dialogou nada menos do que com toda a obra de Bakhtin, com a obra de alguns de seus comentadores, com a obra de Deborah J. Haynes, Bakhtin and the Visual Arts, de 1995, com toda a história da arte pictórica russa do final do século XIX e início do século XX, incluindo os estudos dos ícones russos e sua história de constituição contra os iconoclastas, com as biografias de Malevitch, Chagall e Bakhtin, além de dialogar com toda a obra pictórica dos artistas focalizados e outros. Isso posso dizer só em uma mirada rápida, pois são muitas outras as obras visitadas, estudadas e trançadas dialogicamente na composição da tese. O simples a que chega é aquela feitura/restituição (resa) de trabalho bem feito, cujas palavras têm o peso das relações dialógicas que as constituíram.

Podemos dizer que a problemática a que Luciano Ponzio se avizinha é aquela mesma que Bakhtin enfrentou: em um cenário teórico e filosófico crivado de leituras superficiais, objetivistas e subjetivas das obras de arte, o entendimento do que seja o valor artístico de uma obra é, no mais das vezes, traçado de forma equivocada, sem nem ao menos se aproximar da relação primordial entre arte e vida.

Um campo como o da Semiótica interpretativa de Peirce, não mais fortemente vinculado à Semiologia saussuriana, que tem os signos verbais como objeto, e de onde muito recentemente crescem os esforços para o alargamento de suas noções, a ponto de abarcar os diversos campos da cultura, incluindo as obras visuais, a possibilidade de tomar uma obra pictórica como texto, e, mais até, de abarcar a totalidade da vida, como insiste Bakhtin, e como já mostraram os formalistas (os círculos linguísticos de Jakobson) e os estruturalistas (Propp, Lévi-Strauss, Barthes mesmo), até a Semiótica da cultura de Lotman, e ainda a Zoosemiótica e a Biosemiótica, a Semiótica global de Sebeok, é uma tarefa de grande porte. Luciano Ponzio tem, como possibilidades teóricas, as filosofias estruturalistas de Barthes, Derrida, Deleuze dentre outros, que tomaram criticamente as obras de arte visuais como textos, mas a abordagem com a qual se possa aproximar de uma tela, de uma pintura e elaborar uma compreensão de natureza semiótica está a se fazer, avizinhando-se da filosofia do Círculo de Bakhtin. Confrontar as perspectivas clássicas de leitura e interpretação das obras de arte, notadamente as perspectivas da crítica analítica significa construir uma posição outra para olhar a questão.

Luciano Ponzio diz, no texto, que o diálogo não é uma opção a que se possa abrir mão, baseando-se nos aportes de Bakhtin. Seu diálogo com Bakhtin não foi nem fortuito nem opcional: podemos dizer que ao confrontar a tarefa de construir uma base de entendimento da pesquisa artística de Chagall, Bakhtin se impôs enquanto outro no diálogo. Mais até, creio que pela experiência de leitura e compreensão responsiva da obra de Bakhtin, Luciano pôde tomar a obra de Chagall como pesquisa. Os leitores vão encontrar, na primeira parte do texto, uma crítica às abordagens simplistas da obra de Bakhtin, e uma leitura firme e profunda de sua filosofia, a ponto de se configurar como um documento inédito que afigura a estética bakhtiniana como estética da alteridade, possível de ser compreendida a partir dos seus elementos generativos, coletados do conjunto da escritura de Bakhtin e seu Círculo. Ressalto alguns dos principais vórtices de força dessa estética, a saber a responsabilidade sem álibis, o dialogismo especial entre autor e herói, um dialogismo intercorpóreo que é o encontro de duas arquitetônicas, uma incluída na outra, a relação arte e vida encarnada na responsabilidade do autor-criador, o grotesco e o carnavalesco, alargando as categorias de responsabilidade, exotopia e inacababilidade para uma dimensão que abrange o projeto filosófico de Bakhtin como uma unidade plural e dialógica, ela mesma.

Luciano Ponzio traça as linhas de base da estética bakhtiniana e, assim fazendo, abre a obra de Bakhtin no sentido de uma visão que se afigura e que nos permite, indiretamente, ver compreensiva e responsivamente as obras de arte. O trabalho é de tradução, pois que Bakhtin referia-se a obras literárias. Mas a visão que se produz é a da estética bakhtiniana, como uma estética da alteridade, apontada por Luciano Ponzio, delimitada em um emaranhado dialógico entre todas as partes indissociáveis da pesquisa filosófica de Bakhtin.

A criatividade artística é, assim, caracterizada como a possibilidade de recuperação da responsabilidade do autor-criador como envolvimento dialógico, como intercorporeidade em diálogo em um mundo sem álibis, no tempo grande que ultrapassa as pequenas economias do eu e do contemporâneo, como visão exotópica não-indiferente, que se relaciona com a inacababilidade de sua posição humana e daquela dos outros, que se relaciona com a irredutível alteridade do mundo ambivalente. Isso aprendi lendo o texto de Luciano Ponzio. A seguir, este autor estabelece os pontos limiares da compreensão do valor artístico de uma obra. Podemos dizer que aqui a luta é contra a representação, contra a imobilização dos sentidos das ideologias dominantes, das forças mortificadoras que forçam o consumo, contra as angústias pequenas do contemporâneo, contra o corpo limitado do eu e suas formas identitárias, na cultura.

Luciano Ponzio traça, assim, com linha firme, as condições do valor artístico das obras de arte. Trança, também, afiguração e iconicidade, como valor estético da obra pictórica. Aqui caberia já anunciar sua metodologia. Criticando as perspectivas simplistas que buscam “aplicar” categorias estéticas, incluindo a estética bakhtiniana, para ler as obras pictóricas, Luciano Ponzio lança mão de uma arquitetônica de escritura complexa. Assumindo que sua intenção de pesquisa é aproximar-se do mundo realizado pela arte, no caso a pesquisa artística de Chagall, busca realizar uma ótica, um modo de ver, a partir do cruzamento de uma pluralidade de elementos. Trazendo esses elementos não como coisas inertes em uma perspectiva técnica ou formalista, mas como vozes, Luciano Ponzio as escuta, emaranhando séries de vetores de força do autor-criador Chagall. Contrariando fortemente as perspectivas que buscam no autor-homem e em sua biografia as razões de ser das obras produzidas, Luciano Ponzio insere essas como vozes dentre outras, compondo o que podemos chamar de emaranhado dialógico, no qual nós mesmos leitores podemos penetrar e construir nossas próprias compreensões respondentes.

Sua escritura divide a pesquisa artística de Chagall em três grandes momentos, marcados por viradas artísticas em sua pesquisa, viradas essas relacionadas com sua vida, e lê as obras pictóricas selecionadas no emaranhado dos elementos tornados vozes, a saber: a autobiografia de Chagall (Ma Vie), fatos históricos e biografias, bem como críticas artísticas feitas por autores à obra de Chagall; telas produzidas, seus elementos - objetos da composição, unidade temática, cores, arquétipos e imaginário, dentre outros; relações do autor-criador com os elementos populares de Vitebsk, em séries de aproximações e distâncias reais ou estéticas, incluindo aí os temas religiosos; pesquisa do artista, construída na leitura mesmo de sua iconografia, cruzando-a com as demais vozes; influências que viveu em suas relações com outros artistas - cubismo, fauvismo, dentre outras; estilo construído, da narração lírica exotópica que interconecta mundos; relações da pesquisa artística de Chagall com movimentos filosóficos e políticos. A unidade de sentido que nos permite compreender a pesquisa artística se encontra justamente no ponto de contato entre essas vozes, no eclodir do sentido que encontra outro sentido.

Mas só a tomada em consideração desses elementos, ainda que em diálogo, não nos levaria à força da compreensão e leitura das obras de Chagall. O que faz contatar os sentidos cotejados dessas diferentes e plurais vozes são as bases estéticas afirmadas pelo autor, da teoria bakhtiniana. Em uma chamada provocativa à leitura do presente texto, e sem pretender esgotá-las, trago aqui categorias que reconheço no empreendimento arquitetônico da escritura de Luciano Ponzio. Reconheço categorias como o calar; o riso; a ironia; a exotopia; a distância; a não-indiferença; a iconicidade; a ambivalência; as concepções populares; morte-vida-ressurreição; a ausência de limites externo-interno; teatralidade e carnaval; máscaras, rosto e corpo grotesco; realismo grotesco; dialogismo; inacababilidade; alteridade; retirada do cotidiano; inserção no grande tempo; tranfiguração da cor; cronotopo; bivocalidade; bicorporeidade. Ainda, em uma proposição totalmente inédita, Luciano Ponzio desenvolve as linhas mestras para a consideração do Discurso Indireto Livre em Pintura, para mim particularmente um ponto forte de seu trabalho.

Uma ótica bakhtiniana que emaranhe vozes e escute os diálogos alteritários. Como resultado, a vida afigurada. Como disse Luciano Ponzio, o original se torna ele mesmo resultado da pesquisa artística. Também aqui é a vida que se torna resultado, afetada fortemente pela alteridade que se faz visível, sem porém nela se exaurir. O sentido do artigo bakhtiniano Arte e Responsabilidade é tomado aqui como programa e transformado em teoria estética, uma ótica que nos permite compreender a obra de arte como afiguração, com seu caráter icônico, que por sua extralocalização não indiferente desloca a vida de seus sentidos mundanos e, recuperando sua alteridade sempre presente, supera as identidades e assume seu caráter transformador e sua responsabilidade sem álibis.

A segunda vez que vi um Chagall, que vi uma tela de Chagall, foi depois de ter lido o presente livro de Luciano Ponzio. Foi no Centro Georges Pompidou, em Paris, e a tela era Alla Russia, agli asini e agli altri [Para Rússia, com burros e outros], de 1911-12. A emoção das cores sobre o fundo preto, a vertigem da relação outra da mulher com a gravidade, o verde e o cor-de-rosa, a sinagoga e Vitebsk estavam todas presentes, mas eu já não era mais a mesma. Já não expressei interjeições, emoções, mas me aproximei da tela e pude ler seus elementos, sua composição, suas cores deslocadas, suas inversões, a presença do grotesco imiscuindo seres humanos e animais, cultura e natureza, a presença da tina e do popular do Shtetl, a intenção da inversão do leve-pesado, claro-escuro, revelando a ambivalência do mundo. Dentro-fora, carnavalização, intercorporeidade, a aldeia e seu imaginário como linguagem de afirmação de um mundo em irredutível inacababilidade. Trancei a obra com a totalidade da obra, e pude ler Chagall, aprendi a ver. Compreendo responsivamente a Chagall com outros textos, outras leituras, outras intervenções dialógicas na vida e na Universidade, nos textos que oriento e nos que escrevo. Compreensão respondente a uma obra que se fez texto complexo, para mim, a partir da perspectiva da Semiótica que aprendi a portar no olhar leitor-escritor. Chagall e sua arte pictórica puderam enfim ser o outro de um encontro dialógico. Necessária experiência essa que me desloca do “Diário ao Romance”, do “Álbum ao Livro” (Mallarmé), do “ídolo ao ícone”, da representação identificatória e emocional do eu à afiguração transformadora e icônica da alteridade. Do pequeno tempo da minha vida às questões do grande tempo. Uma Semiótica da obra de arte pictórica, de base estética bakhtiniana, criada neste texto por Luciano Ponzio de modo, ele mesmo, icônico e afigurativo.

Não basta dar acesso ao conjunto da arte, mas é preciso que se tome a sério a tarefa de aprender a ver, com bases firmes de uma Semiótica que nos permita viver a dimensão icônica da arte afigurada, potencializando em sua alteridade nossas próprias lutas pela transformação do mundo.

 

 

Niterói, junho de 2019


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