Fundamentos filosóficos da semântica argumentativa: um legado de Platão à linguística PE100
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Fundamentos filosóficos da semântica argumentativa: um legado de Platão à linguística

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Thomas Rocha !@
Fundamentos filosóficos da semântica argumentativa: um legado de Platão à linguística. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 153p.
ISBN 978-85-7993-523-7
1. Semântica argumentativa. 2. Legado de Platão. 3. Alteridade e diferença. 4. Autor. I. Título.
CDD – 410

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INTRODUÇÃO

 

 

No tortuoso caminho em busca das relações entre linguagem e inconsciente e, por conseguinte, entre linguística e psicanálise, Arrivé (1999) reconhece que sonhou em reconstituir a leitura que Lacan teria feito do Curso de linguística geral (doravante CLG) quando, no início dos anos 50, ele inicia a “tardia” junção entre alguns dos conceitos fundamentais do aparato teórico de dois gênios contemporâneos, estranhamente desconhecidos um do outro: Saussure e Freud.

Contudo, Arrivé logo se deu conta da impossibilidade de tal reconstituição, renunciando à sua execução e propondo, “mais modestamente”, uma releitura de Saussure que, talvez, esclarecesse “certos aspectos da leitura que dele faz Lacan” (1999, p. 33). De nossa parte, reconhecemos que seria extremamente gratificante e proveitoso reconstituir a leitura que Oswald Ducrot fez do CLG, nos anos 60, quando, diante da necessidade de ministrar aulas sobre “O Estruturalismo”, ele encontrou algo que o lançaria na pesquisa linguística e nortearia todo o seu trabalho em semântica: a noção de valor linguístico[1].

No “Prefácio” ao livro de Carlos Vogt, intitulado O intervalo semântico (2009), Ducrot afirma que, no capítulo sobre o valor, Saussure aplica às palavras da língua o que Platão disse sobre as Ideias. Profundo conhecedor da filosofia clássica[2], Ducrot reconhece que a teoria saussuriana do valor está fundamentada filosoficamente na teoria da alteridade[3] concebida por Platão e apresentada no diálogo Sofista. “A oposição, para Saussure, é constitutiva do signo da mesma forma que a alteridade é, para Platão, constitutiva das ideias” (DUCROT, 2009a, p. 10-11).

Em vista disso, nos perguntamos: será possível identificar em Saussure elementos que remetam à teoria da alteridade de Platão? Qual o papel da noção de valor linguístico, fundamentada na alteridade, para o desenvolvimento da Semântica Argumentativa? Assim, está posto nosso desafio. Não temos a pretensão de pôr à prova a hipótese de Ducrot, pelo contrário, tentaremos apenas explicitá-la. Neste livro, nos propomos a fazer um estudo que coloque em relação a teoria da alteridade, elaborada por Platão no Sofista, e a teoria do valor apresentada no CLG de Ferdinand de Saussure. Objetivamos aprofundar o estudo sobre a noção saussuriana de valor linguístico, demonstrando em que medida ela foi constituída a partir do princípio consagrado na referida obra de Platão, e como essa confluência teórica levou Ducrot a desenvolver uma semântica linguística.

Fundamental para a descrição e explicação do sentido na linguagem, a noção de valor ressalta a natureza opositiva do signo. Ao falar em valor linguístico, Saussure destaca o fato de que a relação significante/significado deve ser sempre considerada à luz do sistema linguístico em que o signo se insere. Dessa forma, a noção de valor permite que se analise a língua a partir das suas relações, descobrindo em si o fundamento da sua significação, sem recorrer a elementos de ordem extralinguística. O sentido dos termos da língua se fundamenta nas suas relações. Essa ideia está intimamente ligada a outras noções essenciais, como as de arbitrariedade do signo, as distinções língua/fala, forma/substância, a ideia implícita de imanência[4], etc. Além disso, a noção de valor vem sendo tema de uma série de debates nos últimos anos[5] e é apontada por muitos linguistas como central para a compreensão do fenômeno linguístico[6]. 

Para atingir nosso objetivo, focaremos o trabalho na análise e comparação do diálogo Sofista, de Platão e da segunda parte, dedicada à Linguística sincrônica, do Curso de linguística Geral (CLG) de Saussure. Foram justamente esses textos que possibilitaram a Ducrot relacionar a alteridade com a noção de valor, ao encontrar, em ambos, a ideia de “oposição” como constitutiva das entidades a serem analisadas. Também investigaremos alguns conceitos presentes nos textos agrupados sob o título “Sobre a essência dupla da linguagem”, que compõem a primeira parte dos Escritos de linguística geral (ELG), pois acreditamos que os manuscritos de Saussure apresentam reflexões que remetem diretamente à noção de alteridade. São, portanto, os materiais que trazem de modo mais explícito o pensamento dos autores a respeito das noções que pretendemos estudar.

Por tratar-se de um estudo comparativo ou contrastivo, é preciso delimitar os termos a partir dos quais tal procedimento pode se dar. A ideia de simplesmente comparar conceitos, por exemplo, nos parece pouco produtiva. Não devemos esquecer que estamos relacionando a produção de autores separados por mais de vinte séculos de história. Separados pelo tempo e por línguas muito distintas, não podemos falar de termos ou definições comuns a ambos. Contudo, podemos falar de princípios ou ideias que permeiam a construção teórica desses autores e que nos permitem elucidar aspectos comuns, relativos às condições de emergência de cada uma das noções.

Dessa forma, é de uma perspectiva epistemológica que nos colocamos. Buscamos precisar em que aspectos a teoria da alteridade se faz presente na teoria saussuriana do valor. Nossa intenção é, partindo de um estudo minucioso dos textos anteriormente mencionados, circunscrever a concepção de diferentes conceitos que, por sua vez, pertencem a diferentes campos do conhecimento: a filosofia e a linguística. Tanto Platão quanto Saussure são fundadores de discursos que ecoam na posteridade. São textos que dialogam com as teorias que ajudam a constituir, de modo que tentaremos colocar em contraponto essa convergência discursiva.

Inicialmente, no capítulo 1, dedicamos algumas palavras ao contexto no qual o diálogo Sofista foi escrito, compreendendo seu lugar na obra platônica e, ao mesmo tempo, dando um destaque especial à construção do que hoje chamamos de teoria da alteridade. Em seguida, no capítulo 2, adentramos na obra do linguista genebrino, focalizando nossa atenção na teoria do valor linguístico, na tentativa de encontrar elementos que remetam à influência do pensamento de Platão na linguística saussuriana. Por fim, no capítulo 3, apresentamos alguns conceitos fundamentais da teoria semântica que há mais de trinta anos vem sendo desenvolvida por Ducrot e colaboradores. A Semântica Argumentativa, tal como a compreendemos, é descrita como uma síntese desse processo dialógico, na medida em que assume como sua fundamentação filosófica a noção de alteridade concebida por Platão e trazida para o estudo da linguagem por Saussure.



[1] Ver DUCROT, Oswald. La Sémantique Argumentative peut-elle se réclamer de Saussure? In: SAUSSURE, Louis de (org.). Nouveaux regards sur Saussure. Genebra: Librairie Droz S. A., 2006.

[2] Lembramos que Ducrot é filosofo de formação, tendo realizado seus estudos na École Normale Supérieure de 1949 a 1954.

[3] O termo alteridade é concebido sob várias perspectivas e vem sendo amplamente empregado em diversas áreas do conhecimento: antropologia, psicologia, pedagogia, filosofia. Aqui o termo alteridade é empregado numa perspectiva semântico-linguística e está relacionado às formulações desenvolvidas por Oswald Ducrot no âmbito da Teoria da Argumentação na Língua.

[4] Para uma análise atual sobre a questão da imanência em Saussure, ver ARRIVÉ, Michel. Qual o papel da imanência na reflexão linguística e semiológica de Saussure? Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 49, n. 3, p. 366-373, jul.-set. 2014.

[5] Ver, por exemplo, uma série de artigos publicados em 2009, no volume 25, N. 1, da Revista Letras e Letras da Universidade Federal de Uberlândia, cf. http://www.seer.ufu.br/index.php/ letraseletras/issue/view/1089.

[6] A Semântica Argumentativa ou Teoria da Argumentação na Língua (ADL), por exemplo, desenvolve a noção de valor argumentativo, levando a noção de valor linguístico para o uso efetivo da língua. O valor argumentativo se vincula a outros conceitos-chave da teoria, como os de orientação argumentativa, encadeamento argumentativo, interdependência semântica, argumentação interna e argumentação externa, aspectos, entre outros. Cf. DUCROT, O. Polifonía y argumentación. Cali: Universidad del Valle, 1990 e CAREL, Marion; DUCROT, Oswald. La semántica argumentativa: una introducción a la teoría de los bloques semánticos. Buenos Aires: Colihue, 2005.

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