Eu quero ser o sol! crianças pequenininhas, culturas infantis, creche e intersecção PE464632

Eu quero ser o sol! crianças pequenininhas, culturas infantis, creche e intersecção

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Flavio Santiago !@
Eu quero ser o sol! crianças pequenininhas, culturas infantis, creche e intersecção. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 154p.
ISBN 978-85-7993-698-2
1. Creche. 2. Culturas infantis. 3. Crianças pequenininhas. 4. Interseccionalidade. 5. Autor. I. Título.
CDD – 370

R$ 35,00

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... a título de prefácio

 

Ana Lúcia Goulart de Faria

 

As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. Elas desejam ser olhadas de azul – Que nem uma criança que você olha de ave." (Manoel de Barros)

 

Copiando Antonio Miguel repito: a titulo de prefácio, mas nem é um titulo e nem propriamente um prefácio.

É muito difícil pra mim neste momento fazer um prefácio para o presente livro do Flavio, produto de sua tese de doutorado que eu orientei.

O Flavio me agradece por ter apostado nas maluquices que ele foi propondo e agradece a oportunidade do exercicio das relações horizontais que praticamos diuturnamente no interior do grupo de pesquisa e nas suas relações com a Universidade.

Como fazer um prefacio regado a estes elogios?

Bom, agora sou eu que agradeço não só os elogios, mas a oportunidade de ter vivido as tais maluquices e traquinagens inesgotáveis sempre de ponta cabeça que nos trouxeram até aqui numa amizade profunda com varios projetos também de novos livros e novos cursos alem das muitas publicações e organização de varios eventos realizados até aqui (afinal, o Flavio é hiperativo, plugado em 320 volts!). Como ja disse Manoel de Barros:

 

“você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”

 

Este livro vai encantar todos/as os/as leitores/as.

O Flavio fez uma linda etnografia, conheceu várias formas de resistência, rebeldia e transgressão das crianças pequenininhas negras e não negras de uma creche pública municipal do interior paulista. Lá foi visto por elas como uma criança gordinha e mais alta do que elas (às vezes vista como um adulto atípico como acontece com o Corsaro).

O/a leitor/a vai se deliciar com o convívio horizontal entre o Flavio pesquisador e a criançada! Dentre elas cito duas:

 

Foi tua mãe que comprou esta camiseta rosa para você né?

“-Estamos brincando de mandar.

-Posso brincar também? Como brinca?

-Senta aí e presta atenção, respondeu a criança

 

A generosidade e ternura que o Flavio vive com amigos/as, colegas, comigo, etc, ele também pratica como pesquisador com sua “orelha verde” igual a do Rodari e “olhando de azul” as crianças, igual ao Manoel de Barros. Sua tese de doutorado foi dedicada a Marcus Vinícius, aquele menino assassinado no Rio de Janeiro e antes de morrer disse que estava com sede e perguntou: mãe, eles não viram que eu estava de uniforme?

Flavio é branco, mas de alma negra e vivenciou relações bem próximas das crianças negras. Me chamou muito a atençaõ este episódio analisado na tese:

 

Observando uma criança negra que embalava para dormir uma boneca branca, ela pede para ele segurar uma outra boneca.

Ele pergunta: é para embalar essa também? 

E a criança responde: NÃO ESSA É PRETA, SE VIRA SOZINHA!

 

Já quando entrou no mestrado lendo meu doutorado sobre os parques infantis paulistanos, Mario de Andrade e a pedagogia macunaímica e o Manifesto Antropofágico como a primeira aproximação no Brasil do pensamento pós-colonial, o Flavio e o Alex propuseram o “I Congresso internacional Infância e pós colonialismo: pesquisas em busca de pedagogias descolonizadoras”.  E assim criamos a  linha Culturas infantis do Gepedisc e passamos a estudar o pensamento pós colonial e decolonial, e hoje no seu doutorado avançou nos estudos do feminismo negro e a intersecção entre raça, classe, gênero e idade.

Este livro traz uma pioneira e profícua discussão sobre a interseccionalidade também em relação à idade. Também trazendo a pequena infância.

Sem tentar convencer ninguem, ja que convencer é uma forma de colonizar (Saramago) Flavio escreve sua tese, este seu livro, descolonizando seu pensamento, combatendo o adultocentrismo, o elitismo, o machismo e o racismo. Assim, faz ciência sem pretender que seja mais uma forma de controle das crianças.

Hoje vivendo este momento tenebroso no Brasil, nossa forma de guerrilha e resistência na Universidade é pesquisar, estudar e escrever e assim praticar mais um ensaio de humanidade, como denominaria Milton Santos.

Deixo aqui o “Poema Visual 1971/82” do catalão saudoso Joan Brossa no seu estupendo livro Poesia Vista (p. 31, SP: Amauta Editorial e Cotia: Ateliê Editorial, 2005) [a chave na foto anexa].