Em(n)torno de Bakhtin: questões e análises PE41

Em(n)torno de Bakhtin: questões e análises

Ref.: PE41 Compra Segura

Autor Raquel S. Fiad & Luciano N. Vidon [Orgs.] !@
Ano de Publicação 2013
Páginas 256
Tamanho 16 x 23
ISBN 978-85-7993-153-6

R$ 45,00 Em até 3x de R$ 15,00 sem juros

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O título desse livro – EM(N)TORNO DE BAKHTIN: Questões e Análises – apresenta, em sua primeira parte, um tom de brincadeira, em dois sentidos. Primeiro, é uma brincadeira nossa com a linguagem, com a língua, suas formas e sentidos diversos. Segundo, é uma brincadeira da própria linguagem, que não se cansa de nos pregar peças. Quem já não ficou em dúvida sobre como escrever uma determinada palavra ou expressão? Ou quem não titubeou em usar esta ou aquela expressão? Vírgula? Crase? Quem usa a linguagem constantemente, principalmente a escrita, se depara com essas situações a todo momento. Não tem como escapar da linguagem e suas armadilhas!

          A expressão “Em torno de” e a palavra “Entorno” são exemplos disso, dessas brincadeiras da linguagem, que nos permitem brincar, também, com a linguagem e, obviamente, com os sujeitos interlocutores dessa linguagem e seus objetos de interlocução. Curiosamente, a maioria dos dicionários não traz como verbete a expressão “Em torno de”, apesar de alguns vincularem outras expressões semelhantes, como “Em que pese a”, “Em riste”, “Em suma”, “Em surdina”, etc . É preciso, assim, recorrer ao verbete de “Torno” para encontrar o sentido de “volta” como uma de suas definições e associá-lo à “torno”, chegando, assim, à “Em volta de”. No mesmo verbete (BUENO, 1991, p. 1132), iremos encontrar outras definições para “torno”, como, por exemplo, “Engenho em que se faz girar uma peça de madeira, ferro etc., que se quer lavrar ou arredondar”, o que pode dar indicações históricas muito interessantes sobre a expressão “Em torno de”.

         Já o verbete de “Entorno” traz a seguinte definição: “s.m. (Mat.) [entorno] de um ponto: subconjunto de pontos de um conjunto, contendo este ponto.” (BUENO, 1991, p. 418). No Minidicionário Livre, publicado eletronicamente pelo prof. Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida, em 2011 (Editora Hedra), encontramos a seguinte definição para “Entorno”: “Região situada em volta de algo; vizinhança”. O que queremos chamar a atenção dos leitores com esse jogo, essa brincadeira entre “Em torno de” e “Entorno”, é justamente tentar trazer dois sentidos ao mesmo tempo. O de situar o conjunto dos textos aqui apresentados em uma perspectiva teórica de base bakhtiniana, norteada pelo princípio do dialogismo, pela hipótese da heteroglossia e por conceitos como exotopia, cronotopia, responsividade, ento(n)ação, tema, entre inúmeros outros que compõem a arquitetônica epistemológica do chamado Círculo de Bakhtin. Outrossim, vislumbramos, também, não olvidar o horizonte dialógico e polifônico em que se encontrava e se encontra o pensamento bakhtiniano. Qual a região em volta de Bakhtin e seu Círculo? Qual a sua vizinhança?

         Mikhail Bakhtin (1895–1975) propôs um dos principais conceitos que marcaram a passagem do século XX para o XXI, nas ciências da linguagem, em particular, e nas ciências humanas, de maneira mais geral. Trata-se do princípio do Dialogismo, que postula a não existência de uma linguagem, seja como sistema, estrutura ou forma, per si e para si. A linguagem não existe per si, porque, como propõe Voloshinov (1926) , ela não é autossuficiente. Isto significa que não há, para o Círculo bakhtiniano, um funcionamento linguístico autônomo, independente de sujeitos, falantes e ouvintes, história, cultura e ideologia. A linguagem também não existe para si mesma. Ela não é autóctone, auto evolutiva, cujos fins se esgotam nela mesma. Para Bakhtin e seu círculo, a linguagem está ligada intimamente à Enunciação, aos eventos discursivos que envolvem sujeitos, lugares, tempos e valores. Somente a partir desses elementos é possível se pensar em sentido, em significação. Aliás, o Sentido parece ser um dos grandes Heróis de Bakhtin, um de seus grandes dilemas e desafios.

         Todas essas questões estão na “ordem do dia”, na “ordem discursiva” acadêmica e pedagógica atual, nos intrigando, nos provocando, nos intimando a pensar sobre o mundo e as sociedades que nele vivem, sobrevivendo, na maioria das vezes, a pestes, guerras, catástrofes, invasões (quase sempre bárbaras...). O homem, no entanto, mais que simplesmente um ser biológico, psicofisiológico, é um ser social, político e ideológico, cultural, que não se esgota em seu ser, não acaba em si, mas, ao contrário, começa no OUTRO, que (in)completa seu EU. Eis a base do pensamento bakhtiniano: a interação social entre um eu e um outro, o diálogo, o que nos constitui em corpo social, em grupo, e nos singulariza sócio-historicamente.

         Outrossim, o pensamento bakhtiniano não está fechado em si mesmo; não construiu nenhuma redoma inviolável; ao contrário. Sua busca constante é pelo OUTRO que o singulariza, que o transcende e, por isso, o constitui. Esse OUTRO bakhtiniano, do ponto de vista teórico, não está apenas na linguística, ou na literatura, ou nas ciências humanas. Está no Homem, em todas as suas manifestações discursivas, científicas, artísticas, ou mesmo familiares. O Homem e seus atos. Isso é o que interessa a Bakhtin. E a linguagem cria um espaço de constituição dos sujeitos a partir de seus atos. “Em torno de” e “Entorno” se fundem, assim, na mesma criação estética, “Em(n)torno de”, postulando que as questões e análises propostas giram em torno de Bakhtin, mas também dialogam com um “Entorno”, nem sempre fácil de se definir.

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