Dialogando sobre o dialogo na perspectiva bakhtiniana PE25

Dialogando sobre o dialogo na perspectiva bakhtiniana

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Autor Augusto Ponzio !@
Ano de Publicação 2016
P√°ginas 204
Tamanho 16 x 23 cm
ISBN 978-85-7993-335-6

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Di√°logos Ponzianos...

Encontros com palavras outras Uma obra explode as fronteiras de seu tempo, ela vive através dos séculos, dito de outra forma, na grande temporalidade, e, fazendo isso não é raro que essa vida (e é sempre verdadeira para uma grande obra) resulte mais intensa e mais plena que no tempo de sua contemporaneidade [Mikhail Bakhtin]. Esta epígrafe retrata bem a amplitude das ideias e da obra de Bakhtin e desvela, ainda, a concretude com que Ponzio vive e vivifica o pensamento bakhtiniano. Isto pode ser visto e sentido em várias de suas obras e, bastante intensamente nesta, quando ele busca pensar e compreender o diálogo em matizes diversos. Tons que foram se multiplicando e formaram muitas outras aquarelas de pensamentos, a partir de cada um que compartilhou este projeto de escrita sobre o diálogo de/com Ponzio.
Longe de uma abordagem exeg√©tica, Ponzio compartilha conosco, leitores/interlocutores, reflex√Ķes imanentes de conceitos-chave do pensamento bakhtiniano, conceitos vivificados nos diferentes di√°logos sobre di√°logos, postos como quest√Ķes/elementos a serem (re)pensados, (re)elaborados, ampliados mediante a escuta responsiva, a n√£o indiferen√ßa, a responsabilidade de cada um de n√≥s leitores/ interlocutores. N√£o se trata, obviamente, de uma recusa √† teoria, mas da recusa de reduzir o ato singular √†s simplifica√ß√Ķes de um modelo te√≥rico, fechado em si mesmo. No fechamento do c√≠rculo te√≥rico, n√£o invadido pelo mundo concreto da vida, a redu√ß√£o dos aspectos de fatualidade e eventicidade de cada ato para reencontrar o modelo abstrato faz de cada unicidade uma repeti√ß√£o do predeterminado, um exemplar descarnado e exangue. Desbastado, o ato √©tico, est√©tico, cognitivo, perde sua concretude e sua historicidade (GERALDI, 2004, p. 84).
Trabalhamos, na disciplina de mestrado ‚ÄúT√≥picos de linguagem: o di√°logo como pr√°tica da escuta‚ÄĚ, no Programa de P√≥s-gradua√ß√£o em Lingu√≠stica, da UFSCar, esses textos de Augusto Ponzio. E nosso desafio nesta fala √© dar visibilidade ao vivido, aos jogos e rela√ß√Ķes que estiveram em voga no grupo e nas leituras; e, principalmente, as novas nuan√ßas - nascentes de ideias ‚Äď que, geradoras de grande inquietude, nos salvam da certeza e da busca de uma verdade √ļnica e maneira repetente de ver e sentir a vida. Caminhos percorridos at√© o encontro com a palavra outra de Bakhtin, Ponzio, L√©vinas, S√≥crates, Plat√£o, Mary Sellani, Massimo Bonfantini, Susan Petrilli, Wladimir Krysinski e do pr√≥prio grupo.
A palavra outra foi constituindo cada um de n√≥s, modificando o nosso olhar sobre o outro e sobre n√≥s mesmos, nos levando a relacionar Bakhtin e o pensamento de Ponzio com nossas pesquisas, o que nos apontou um caminho did√°tico e metodol√≥gico constitu√≠do pelo exerc√≠cio da escuta. Escuta marcada pela alteridade, na qual a linguagem √© mediadora e constituidora das concep√ß√Ķes de mundo, da exist√™ncia do sujeito (de n√≥s) no mundo, marcada pelo dialogismo, pela polifonia e pela polissemia, onde cada um se constitui de v√°rias vozes, e todo discurso √© um discurso citado. Para Bakhtin (1988, p. 147) o discurso, a enuncia√ß√£o, o texto se destina a um Outro que a apreende que, no entanto, ‚Äú... n√£o √© um ser mudo, privado de palavra, mas ao contr√°rio, um ser cheio de palavras interiores‚ÄĚ; o que nos indica que a enuncia√ß√£o √© sempre mediatizada por um discurso interior posto em rela√ß√£o com um discurso exterior, num processo de compreens√£o da palavra-alheia at√© que se transforme em palavra-pr√≥pria; o que s√≥ √© poss√≠vel dentro de uma rela√ß√£o de escuta, num sil√™ncio respondente ao Outro, quando o sujeito experimenta a enuncia√ß√£o do Outro em sua consci√™ncia e responde, ‚Äúainda que seja como uma compreens√£o responsiva ativa muda ou como ato-resposta baseado em determinada compreens√£o‚ÄĚ (1992, p.294).
Em seus modos de funcionamento discursivo, a linguagem oferece, desde sempre, um exemplo inigual√°vel de articula√ß√£o entre o dado e o a ser determinado no evento particular. O enunciado abstra√≠do de sua enuncia√ß√£o perde os la√ßos que o ligam √† vida: palavra morta que somente recebe novo sopro vivificador quando reintroduzida em novo processo de enuncia√ß√£o. Os sulcos abertos no ar pela palavra enunciada n√£o levam aos ouvidos sentidos prontos e acabados: levam impulsos √† compreens√£o participativa que engloba mais do que a mera remessa a objetos e a fatos. H√° vida na voz que fala; h√° vida no ouvido que escuta. Nos sulcos lineares tra√ßados pelas letras das palavras escritas, produtos de enuncia√ß√Ķes, os olhos do leitor n√£o enxergam letras alinhadas, objetos referidos, hist√≥rias contadas, mas julgamentos de valor, inusitadas met√°foras que escondem ou desvestem cren√ßas consolidadas, um porvir a ser realizado (GERALDI, 2004, p. 84).
Colocar-se em posi√ß√£o de escuta para Ponzio √© compreender o sentido do enunciado √ļnico, irrepet√≠vel, da enuncia√ß√£o n√£o reiter√°vel, e √© o que ele pr√≥prio faz em rela√ß√£o √†s obras de Bakhtin; ao inv√©s do dom√≠nio e da submiss√£o aos seus conceitos, estabelece uma rela√ß√£o de escuta com as palavras deste autor, e o traz para a discuss√£o em v√°rios contextos de estudo, n√£o o dissociando da vida, algo requerido e refor√ßado por Bakhtin que insistia em apontar como [...] infundadas e essencialmente sem esperan√ßa todas as tentativas de orientar uma filosofia primeira (a filosofia do Ser-evento unit√°rio e √ļnico) em rela√ß√£o ao aspecto do conte√ļdo-sentido, ou do produto objetivado, fazendo-se abstra√ß√£o do ato-a√ß√£o real, √ļnico, e de seu autor - aquele que est√° pensando teoricamente, contemplando esteticamente e agindo eticamente. √Č apenas de dentro do ato realmente executado, que √© √ļnico, integral e unit√°rio em sua responsabilidade, que n√≥s podemos encontrar uma abordagem ao Ser √ļnico e unit√°rio em sua realidade concreta (BAKHTIN, 1993:45).
Neste sentido, e de maneira complementar a Bakhtin, destacamos Ponzio (2010, p. 36), quando diz que O ‚Äún√£o-√°libi no existir‚ÄĚ coloca o eu em rela√ß√£o ao outro, n√£o segundo uma rela√ß√£o indiferente com o outro gen√©rico e enquanto ambos exemplares do homem em geral. Trata-se, ao inv√©s, de um envolvimento concreto, de uma rela√ß√£o de n√£o indiferen√ßa, com a vida do outro, com o pr√≥prio pr√≥ximo (tal proximidade n√£o tem nada a ver com a dist√Ęncia espacial), com o pr√≥prio contempor√Ęneo (em que a contemporaneidade n√£o tem nada a ver com a atualidade), com o passado e o futuro de pessoas reais.
Bakhtin ganha nos textos ponzianos a liberdade da palavra, seus textos s√£o dial√≥gicos, alguns deles apresentam di√°logos com a presen√ßa dos interlocutores, os quais s√£o convidados a discutir, concordar, discordar, refutar ou aceitar, compreender e responder revelando cada palavra ‚Äúcomo uma arena em miniatura‚ÄĚ. Ao acompanhar seus di√°logos o pr√≥prio leitor torna-se participante ativo destes, toma posi√ß√Ķes, e isso, nos diria Bakhtin, decorre da natureza da palavra, que sempre quer ser ouvida, busca sempre a liberdade, e sempre procura uma compreens√£o responsiva. Os textos que comp√Ķem este livro revelam a grandeza e a profundidade das reflex√Ķes de Augusto, a diversidade de suas leituras, sua abrangente forma√ß√£o intelectual e cultural. Em ‚ÄúProcurando uma palavra outra‚ÄĚ, Ponzio cita, n√£o por acaso, a poesia ‚ÄúUn lector‚ÄĚ de Jorge Luis Borges: Que otros se jacen de las p√°ginas que han escreto; a m√≠ me enorgullecen las que he le√≠do.
Perpassam pelos textos quest√Ķes caras e imprescind√≠veis, tanto para Ponzio quanto para Bakhtin, como a alteridade, o dialogismo e a escuta da palavra, o que requer mudan√ßa, o deslocamento de uma l√≥gica ‚Äúeuc√™ntrica‚ÄĚ para um lugar de reconhecimento de que √© o outro quem est√° no centro, ele √© quem define, d√° a concess√£o e organiza quem somos; mas deslocar o centro organizador das enuncia√ß√Ķes/a√ß√Ķes individuais do horizonte do Eu para o horizonte do Outro desestabiliza a vis√£o de mundo dominante em nossa cultura, a nossa vis√£o de mundo. Bakhtin nos diz que a palavra do Outro √© uma condi√ß√£o de toda a√ß√£o do Eu, e Ponzio enriquece este pensamento instituindo o di√°logo como a condi√ß√£o da exist√™ncia do eu - o sujeito. O Eu existe somente na rela√ß√£o com o Outro e o di√°logo n√£o √© uma iniciativa ou concess√£o do Eu. O di√°logo faz parte da constitui√ß√£o do Eu, √© a condi√ß√£o sem a qual este n√£o pode subsistir; o di√°logo n√£o √© um presente do eu, pelo contr√°rio, o eu individual de cada um √© um presente do di√°logo, um presente e uma concess√£o do Outro.
Dentro de uma arquitet√īnica fundada em temas como ‚Äėdi√°logo e dialogia‚Äô, v√™-se um am√°lgama, onde as no√ß√Ķes e conceitos de/sobre o di√°logo, a alteridade, a vida, o corpo, a filosofia, e as rela√ß√Ķes eu/outro se misturam, interpelam, interpenetram e entretecem nossa compreens√£o de di√°logo, dialogia, alteridade, responsividade e corporeidade. Percebemos in√ļmeras significa√ß√Ķes poss√≠veis e presentes na diversidade de cada (con)texto, o que nos permite, a cada um de maneira √ļnica, um movimento que se revela, tamb√©m, transcendente e transgrediente ‚Äď movimentos/pensamentos para al√©m, para uma ‚Äėn√£o cristaliza√ß√£o‚Äô, afora do que ‚Äėfoi e est√° sendo‚Äô pensado. As leituras e o estudo dos textos nos trouxeram inquieta√ß√Ķes e nos removeram de nossa centralidade e identidade, uma vez que as rela√ß√Ķes alterit√°rias que nos constituem s√£o diversas, e diversos s√£o os contextos em que se estabelecem; os encontros com outros impedem a institui√ß√£o de uma identidade conclu√≠da e est√°vel do Eu, que n√£o pode deixar de ser tamb√©m diversa e m√ļltipla.
A identidade √© armadilha, diz Ponzio constantemente. Escapamos dessa armadilha pela alteridade. Pensar ‚Äėdi√°logo e dialogia‚Äô a partir do ato singular, do pensamento bakhtiniano sobre a linguagem, dentro de um processo responsivo que permeia, tamb√©m, o pensamento sobre a est√©tica e a √©tica em Bakhtin, com a ousadia e atualiza√ß√£o ponziana. O eu como singularidade incompar√°vel, insubstitu√≠vel, como ser no mundo sem √°libis, como responsabilidade sem escapat√≥rias, √© assim diante do outro. A arquitet√īnica da responsabilidade n√£o pode ser compreendida sen√£o como arquitet√īnica da alteridade. Tanto porque s√≥ assim o eu se revela na sua unicidade, na sua singularidade, ou seja, na sua alteridade como outro, tanto porque esta sua alteridade objetivamente se realiza na rela√ß√£o com o outro (PONZIO, 2010, p. 79).
Augusto Ponzio nos deu o presente de traduzir e organizar os textos que resultaram neste livro; antes mesmo de tomar forma, nutriu muitas discuss√Ķes; e a partir desta publica√ß√£o vamos desfrutar da inevit√°vel participa√ß√£o em outros di√°logos, pois ‚Äúo di√°logo √© estritamente ligado ao inevit√°vel envolvimento com o outro, e responder√° ao outro sem limite de tempo ou espa√ßo‚ÄĚ.
Por fim, para encarar a tarefa do acabamento provis√≥rio deste di√°logo com Ponzio e tantos Outros, um pouco de brisa po√©tica, que refresca, que revitaliza, que movimenta palavras outras de Italo Calvino, a quem Ponzio, em muitos momentos, se refere e referencia, para que sejamos levados a outros, a novos lugares de pensamento, e sem esquecer-nos da grande revolu√ß√£o bakhtiniana, ‚Äėbandeira‚Äô de Ponzio, da alteridade que nos p√Ķe diante da inescap√°vel busca/encontro com o Outro, desde o ‚Äėoutro-de-mim‚Äô at√© o Outro que ‚Äėn√£o sou eu‚Äô. Algu√©m poderia objetar que quanto mais a obra tende para a multiplicidade dos poss√≠veis mais se distancia daquele unicum que √© o self de quem escreve, a sinceridade interior, a descoberta de sua pr√≥pria verdade. Ao contr√°rio, respondo, quem somos n√≥s, quem √© cada um de n√≥s sen√£o uma combinat√≥ria de experi√™ncias, de informa√ß√Ķes, de leituras, de imagina√ß√Ķes? Cada vida √© uma enciclop√©dia, uma biblioteca, um invent√°rio de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras poss√≠veis [CALVINO].


Valdemir Miotello Adriane de Castro Menezes Sales Andr√™i Krasnoschecoff Fabr√≠cio C√©sar de Oliveira H√©lio M√°rcio Paje√ļ Kelly Cristina Bognar Sacoman Pedro Guilherme Orzari Bombonato Renata Pucci Robson Bussad Caldo Samuel Ponsoni Sidney de Paulo

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