A musicalidade dos bebês: educação e desenvolvimento PE516058

A musicalidade dos bebês: educação e desenvolvimento

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Andréia Pereira de Araújo Martinez; Patrícia Lima Martins Pederiva !@
A musicalidade dos bebês: educação e desenvolvimento. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. 275p.
ISBN 978-85-7993-852-8
1. Bebês. 2. Desenvolvimento da musicalidade. 3. Teoria Histórico-Cultural.
I. Autores. II. Título.
CDD – 370

R$ 45,00

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PREFÁCIO

 

O livro A musicalidade dos bebês: educação e desenvolvimento, muito além de tratar da questão empírica e científica da musicalidade dos bebês, tema por si mesmo instigante e singular, proporciona uma verdadeira experiência estética ao leitor. Quando me reporto à estética remonto ao sentido grego a ela atribuído, palavra grega aisthesis, que significa "apreensão pelos sentidos", "percepção", na qual o ser humano, respeitado em sua inteireza “corpo e mente”, faz uso de suas potências bio-psíquico-culturais para fruir os sentidos sensoriais, a intelecção e a emoção na promoção do Belo.

É uma verdadeira obra de arte que dialoga com a base aristotélica da práxis (ação), da poiesis (criação) e da techné (regras e procedimentos de produção), sem o eivo da hierarquização, em seu arcabouço teórico e metodológico. E dialoga com a dimensão política, social e ética da infância e sua musicalidade, por meio da Teoria Histórico-Cultural.

O livro traz as marcas dos Encontros da autora, em seu processo de fazer pesquisa  e fazer-se nela, com Pederiva (orientadora e artista da ciência da educação); com Vigotski (a seiva que alimentou o constructo teórico criança-musicalidade-experiência social); com outros Intelectuais não menos importante, a exemplo de Marx, Leontiev e Luria; com os bebês e suas  musicalidades, assim como com a musicalidade de sua própria criança interior. 

Encontros que geraram esse livro potente, que traz em si constantes sínteses elaboradas pelo crivo do pensamento dialético que insiste em estar presente o tempo todo na obra, coisa de pessoa que vive o exercício de ser e fazer a dialética de maneira coerente, onde teoria e prática se encontram de maneira indivisível. O espírito da obra é a experiência de viver e de fazer ciência da educação dialeticamente. Defende-se a tese de que “o comportamento musical tem início na filogênese, mas é sob a ação da cultura que ocorre o desenvolvimento da musicalidade humana, ainda quando se é bebê”, reitera autora.

E, nesse processo, a criança interior da autora nos guia, nos ensina a observar a complexidade temática. Ela conduz o leitor na trajetória narrativa. E, de fato, essa experiência estética me remete ao sentido pedagógico do poema de Fernando Pessoa ao deixar-se conduzir por um menino:

 

“A mim, ele me ensinou tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as belezas que há nas flores.

E mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem nas mãos e olha devagar para elas.”

(Poema do Menino Jesus)

 

É com esse olhar curioso, esse jeito explorador de ver as minudências que a autora apresenta o universo histórico-cultural da musicalidade dos bebês com alegria e consistência teórica. Essa menina Andréia, astuta e peralta, brinca com a gente e nos conduz com a sua forma peculiar e própria de ser. A menina se manifesta na escolha delicada e leve dos títulos dos capítulos e brinca com as palavras como fazem os bons poetas, que emergem da música de Emicida, “Aos olhos de uma criança”.

“É coração, é causa, é danação, é sonho”, para tratar da “condição de ser criança”, argumentando que os bebês são seres que se constituem na cultura, ajudando a gente a ver além da condição biológica, e também, mostrando as singularidade e particularidade em meio a totalidade de cada criança (Capítulo 1).

É o caminho, é nóis, é eu sozinho”, para tratar da densidade do tema cultura e a constituição humana, e defender a proposição teórica de que o desenvolvimento do ser humano se dá na cultura (Capítulo 2).

Mão na contra mão”, para anunciar o desenvolvimento musical na Teoria Histórico-Cultural, e então, demonstra que são as relações sociais, em meio às experiências e atividades culturais, que irão criar as condições para o desenvolvimento da musicalidade dos bebês (Capítulo 3).

Atento, alma”, aí se fez a metodologia, com a complexa Análise Genética, para compreender o desenvolvimento da musicalidade dos bebês sob três bases: a origem, a função e a estrutura, e com o uso do Método Instrumental para dá conta de tão intricada e complexa realidade dos sujeitos de pesquisa, os bebês e seus comportamentos musicais (origem, função e estrutura). Tudo isso, para compreender as relações existentes da realidade do objeto investigado e as transformações sofridas em sua trajetória. De fato, essa é uma genuína vivência de pesquisa dialética, que capta o sentido e o movimento da vida (Capítulo 4).

A voz ecoa”, ouve-se os ecos das vozes dos bebês em suas múltiplas linguagens: o choro, o balbucio, o olhar, o sorriso, o toque, o movimento, as ações e as reações infantis, todo corpo como expressão de uma orquestra magistral (Capítulo 5).

Realmente, a autora brinca com nossos sentidos, nos enreda em suas narrativas e nos leva, com sua maneira suave e simples de olhar as coisas sérias, à imersão na complexa teoria de Vigotski. É muito amor à ciência, presente na forma competente de fazer e comunicar à sociedade os resultados de uma pesquisa doutoral feita em uma universidade brasileira, pública, laica e gratuita; adjetivos tão caros na conjuntura conservadora e opressora da política educacional de nosso país.

Diante de tanta grandeza, fique feliz menina Andréia, pois por meio de sua escrita em A musicalidade dos bebês: educação e desenvolvimento, você trouxe, pelos desígnios da experiência estética, mais beleza e esperança para esse mundo. Nessa obra, sua voz é um canto que traz à lume a ideia primordial de que a criança é um ser musical e, assim sendo, evoca-se o direito inalienável de viver a musicalidade própria da sua condição humana e cultural para que ela se faça plena e inteira.

Gratidão por essa experiência.

 

Aracaju SE, verão de 2020

Joelma Carvalho Vilar

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