A construção do ser professor: histórias de vida de formadores de professores da Universidade Federal do Piauí e da Universidade de Coimbra. PE100

A construção do ser professor: histórias de vida de formadores de professores da Universidade Federal do Piauí e da Universidade de Coimbra.

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Georgina Quaresma Lustosa !@
A construção do ser professor: histórias de vida de formadores de professores da Universidade Federal do Piauí e da Universidade de Coimbra. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 265p.
ISBN 978-85-7993-576-3
1. Formação de professores universitários. 2. Universidade Federal do Piauí. 3. Universidade de Coimbra. 4. Autora. I. Título.
CDD – 370

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REFLEXÕES INICIAIS

 

 

 

[...] Entre pedras

Cresceu a minha poesia

Minha vida...

Quebrando pedras

E plantando flores...

 

Cora Coralina (1976)

 

Ao iniciar a tessitura deste livro penso na força existencial de Cora Coralina, quando diz que “Entre pedras cresceu minha poesia, minha vida...”. O ato de escrever é tão difícil e pesado, quanto quebrar pedras, porque exige força física, intelectual, emocional e existencial. Imagino que escrever, tecer um texto, produzir uma obra como esta, conforme a imagem de Cora Coralina é quebrar pedras, mas é, sobretudo, plantar flores. Neste início de trabalho, gostaria além de quebrar pedras, plantar flores nos jardins da compreensão e da sensibilidade de mim mesma e pensando como Ricoeur (1991) dos “muitos outros” que existem em nós, tecendo uma teia que constituem nossas memórias, experiências e saberes.

O interesse pela temática deste estudo não surgiu por acaso, mas de minha própria vida, das circunstâncias e experiências vividas. A escolha por um tema é sempre um desafio que implica riscos. Mas, é uma escolha que parte das experiências vividas, das inquietações, das paixões e do encantamento que levam à busca de conhecimentos e de descobertas, que impõem encontros e desencontros nos espaços em que são produzidas as histórias de vida, pessoal e profissional. É considerando esse aspecto que narro meu encontro com o objeto desta investigação que defini com a seguinte indagação: Como e quando, ao longo da trajetória profissional, os formadores de professores da Universidade Federal do Piauí e da Universidade de Coimbra vão ressignificando o ser e o tornar-se professor? E, para começar revelo que não foi fácil decidir como abordaria o tema, mas preciso declarar que pesquiso uma temática que há muito me seduz, me provoca inquietações e amplia meu pensamento sobre as histórias de vida como método autobiográfico na formação de professores, e, então, carregando pedras e plantando flores, os fios se teceram em torno do problema, tendo como resultado a gestação e o nascimento deste livro.

Analisar a trajetória profissional dos formadores de professores constitui-se, um campo fértil de reflexões, objeto constante de atenção, indagação e busca de respostas. Dada minha trajetória formativa, sinto-me, inevitavelmente, envolvida com esta temática. Minha trajetória como professora formadora de professores, na Universidade Federal do Piauí, assim como minha experiência no processo de investigação sobre a temática, com professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental, tem provocado inquietação no sentido que me levou a investigar as trajetórias profissionais de outros sujeitos, no caso, os formadores de professores dos cursos de formação de professores da Universidade Federal do Piauí e Universidade de Coimbra.

Esta inquietação tem suscitado questões problematizadoras e ao rememorar o meu percurso profissional e de vida, me faz mais convicta de que o processo de aprendizagem, como bem ressalta Contreras (2002, p. 6), “é algo que mobiliza toda a pessoa, é algo que fazemos com todo o nosso ser [...]”. Desse modo, a aprendizagem conquistada como professora formadora e investigadora não exerceu influência apenas sobre alguns aspectos de minha vida profissional. Mas também, fui sujeito de um processo de formação que, para além de me preparar para a docência, me constitui como pessoa. E mobilizada com todo o meu ser atrás de respostas para o objeto de investigação, conquisto uma escrita poética, pois, me arrisco cada vez mais a cultivar a beleza nos meus textos acadêmicos. Com Maroni (2006, p. 238) vejo que “a escrita deixa de ser dura, cientifica conceitual; essa escrita cultivada no meio cientifico torna a feiura sinônimo de cientificidade”.

Realmente a ciência e a beleza se dissociaram na modernidade. Mas, continuo mobilizada pelo afeto, pelo vínculo. Vínculo, é bom lembrar, é Eros, é amor. Ao estabelecer vínculos afetivos com a própria pesquisa, com os professores, com os entrevistados, com os autores, com as leituras, só posso produzir, como diz Gauthier (2004), confetos (conceitos-com-afetos) e uma escrita poética, livre e espontânea. Porque acredito que o mundo das emoções, das pulsões, dos desejos, dos afetos é o que explica a nossa ação e os nossos pensamentos. Sabemos que o subjetivo e o objetivo estão misturados, o mundo real e a natureza são eles mesmos marcados pela subjetividade.

Faz-se necessário a partir deste momento, explicar que as histórias de vida da investigação começaram com a revisitação da minha própria história. Quero dizer, eu como investigadora pessoa e sujeito de minha pesquisa, apareço de maneira muito evidente em todo o percurso da investigação, descobrindo e valorizando minha singularidade na pluralidade dos sujeitos entrevistados; não tive como preocupação primeira a separação entre sujeito e objeto, nem o chamado rigor metodológico exigido nas pesquisas científicas. Não compreendo o mundo da neutralidade cientifica, da separação entre sujeito e objeto na investigação cientifica. Penso ser impossível manter o estado de neutralidade numa pesquisa onde o envolvimento do sujeito investigador transforma-se no prazer de escrever, no prazer da autoria, na imensa alegria de escutar os entrevistados narrarem suas vidas e na confiança dos caminhos, dos métodos que então se abrem movidos pela emoção da experiência de estar juntos.

Compreendi, então, que não fazemos senão narrar nossos afetos, nossos traumas, nossos vínculos primários. Como explica Maroni (2006, p. 232), “a objetividade possivel de ser conquistada - e ela deve ser conquistada – é aquela que reconhece a subjetividade como momento primeiro da pesquisa cientifica”. Assim, desde a forma de abordar o tema até os textos resultantes do processo, escolhidos e determinados por mim, por minha história pessoal, por uma busca que embora acadêmica, começa na minha experiência subjetiva. Deste modo, todas as possíveis respostas encontradas e não encontradas, vieram dos meus próprios sentimentos vividos, porque o sentimento permite tomar posse de si para produzir conhecimento de si mesmo dos outros e da situação vivida.

Trabalhar com trajetórias profissionais e de vida, é complexo e difícil de ser contada de forma que atenda a abrangência que a temática exige. As palavras traduzem o conhecimento construído, ao longo do percurso do viver docente, por outro lado, como ressalta Brzezinski (2006, p. 191), “história de vida é sempre relatada por meio de expressões carregadas de significados subjetivos que se circunscrevem às situações de cada instante dedicado à produção do conhecimento”. Desse modo, a dificuldade advém, pelas nuances que os significados subjetivos apresentam ao conhecimento do ser enquanto condição humana. Vou buscar também em Guimarães Rosa (1986, p. 80)[1] que afirma: “[...] contar é dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares”.

Para escrever um pouco de minha história precisei remexer muito minhas memórias, não somente “pelos anos que já se passaram [...]”. Mas pelo balancê que a vida dá e as coisas se remexem e mudam dos lugares. A história da vida das pessoas não é uma história que possa ser visualizada de forma retilínea. Não é um caminho predeterminado, seguro e traçado por vias previamente escolhidas. Os caminhos são percorridos e vividos cotidianamente. Hoje, quando sento para tentar reconstruir um pouco da minha história de vida pessoal e profissional, penso: quantos caminhos percorridos? Quantas bifurcações encontradas? Tantos desafios enfrentados? Quantas pedras no caminho? Lembro-me da canção brasileira[2],

 

 

Meu caminho é de pedra

Como posso sonhar...

 

Mas sonhei como sonhei! Continuo a sonhar. Encontrei pedras, mas encontrei flores, encontrei também sorrisos. Ah, como os encontrei! Encontrei sorriso, afeto, aperto de mãos, olhares, abraços. Por tudo isso trago uma bagagem de vida carregada de tristeza, alegria, esperança e muitos sonhos.

Nasci e vivi toda minha infância em um sítio dos meus pais no interior do Piauí. Lá fui alfabetizada e tive a primeira noção e o primeiro sentimento do prazer da leitura. Mas, queria abrir parênteses para narrar o meu primeiro sentimento de leitura antes de ser alfabetizada. Meu pai tinha como rotina juntar as pessoas, moradores e vizinhos, à noite, depois do jantar, para ouvir leituras da literatura de cordel,[3] vinha todos ouvir as estórias contadas. Quem fazia essas leituras era minha irmã mais velha, que já sabia ler (foi ela quem me alfabetizou).

E eu sentia uma tremenda inveja de minha irmã, fazendo aquelas leituras, à luz da lamparina, em tons dramáticos ou não conforme os rumos da estória, e aquelas pessoas todas envolvidas com a dramaticidade da narrativa, todas atentamente escutando e muito curiosas para saber o final do romance. Muitas vezes, não terminava a leitura na mesma noite, porque todos precisavam acordar cedo para a lida diária. Mas no dia seguinte, à mesma hora, todos estavam sentados ao redor da mesa grande para escutar atentamente a continuação da estória anterior, ou o início de outro romance. Não lembro onde meu pai conseguia aqueles cordéis, penso hoje, que eles cultivavam um sistema de trocas dos livrinhos.

É bom lembrar que nós, crianças da casa, também sentávamos para ouvir as estórias, mas, algumas eram censuradas pelo meu pai, que nos mandava dormir. Imagino que fossem algumas estórias carregadas de violência ou de muitos amores. Também, lembro pouco da presença de minha mãe sentada em volta da mesa, ouvindo as estórias, ela estava sempre envolvida com os meus irmãos (muitas crianças para cuidar). Enfim, este foi o meu primeiro sentimento de leitura, um sentimento invejoso, queria logo aprender a ler para ser importante naquela sala de leitura como minha irmã.

Aprendi a ler com muita dificuldade, naquela época não tinham métodos que facilitassem a alfabetização da criança. Mesmo lendo tudo nunca substitui minha irmã nas leituras noturna do grupo do meu pai. Isso nunca aconteceu porque minha irmã tinha toda uma metodologia de fazer as leituras, dando os tons que a dramaticidade exigia, então o seu posto já estava garantido. Comecei a ler tudo que encontrava inclusive os cordéis censurados pelo meu pai. Lia-os às escondidas.

Quando já no primeiro grau (naquela época ginásio), a leitura sem compromisso, não me foi mais incentivada como um ato livre e prazeroso. Agora, a recomendação era fazer leituras preestabelecidas e estudar muito para tirar boas notas e passar de ano.

No Ensino Médio (científico), o nível de recomendação e exigência foi maior ainda. Agora, a ordem e a recomendação dos professores era estudar muito e fazer leituras exigidas pelos exames dos vestibulares. Tinha saudade da minha infância e meninice, quando lia pelo prazer de ler, lia o que ia encontrando pela frente (o acesso era muito pouco), sem nenhuma exigência didática e metodológica.

Já na faculdade, apesar dos direcionamentos e de minha pouca maturidade intelectual, tive maiores oportunidades de desenvolver meu poder de escolha das leituras que fiz. Passei no vestibular para Serviço Social na Universidade Federal do Pará, em Belém. Vivi a primeira experiência acadêmica num período ainda muito conturbado pela ditadura militar. Já se falava no período pós-ditadura, contudo, tive durante o curso, participação e vivência intensa nos movimentos a favor da liberdade ampla e irrestrita. Todos os professores universitários e nós estudantes estávamos ávidos por liberdade de expressão em todas as suas formas.

Nesse período morei em casa da estudante universitária, onde aprendi a conviver com as diferenças individuais. Aprendi que é nas diferenças que a gente se encontra e aprende a respeitar e amar o outro diferente. Aprendi que a vivência e a experiência em grupo promovem nas pessoas a capacidade para abrir-se às diferenças individuais e culturais e aprender fazer com elas um encontro verdadeiro com o outro.

Hoje, sou professora, com a pretensão de ser educadora desde a década de oitenta. Recém-formada em Serviço Social foi morar e trabalhar no interior do Piauí, como extensionista de uma empresa do Estado, que trabalha com extensão rural. Lá chegando, fui convidada para também ministrar aulas em uma escola pedagógica (Ensino Médio) municipal, que logo foi assumida pelo Estado. Ministrava aulas de Psicologia, Sociologia e Educação Moral e Cívica (esta última ainda era resquício do período ditatorial). Comecei a me identificar com o novo trabalho, com os alunos, com nossas conversas, com a troca de experiências e conhecimentos que se dava no espaço da sala de aula.

Ministrava aulas à noite, depois de um dia exaustivo de trabalho no campo. Contudo, sentia prazer em estar ali, com os alunos. Eles quase sempre muito carentes de informação, de formação, de olhares, de afeto e de atenção. Eu também.

O espaço da sala de aula sempre me fascinou. É um campo carregado de aprendizagem, de troca, de cotidianidade, de sentido para a vida. Penso e sinto a sala de aula como um espaço mágico, onde posso me sentir fada, bruxa, parteira, palhaça, aprendiz, professora, gente. Onde posso exercitar minha inteireza.

Cada encontro com os alunos era uma emoção diferente, é como se fosse sempre a primeira vez. Até hoje, depois de alguns anos, ainda tenho a mesma emoção, é sempre como se fosse a primeira vez. Contudo, sentia que faltava alguma coisa. As aulas não podiam ser apenas repasse de conteúdos, não podiam se limitar ao espaço da sala de aula, não devia ser uma relação verticalizada entre professor e alunos. Sentia a necessidade de algo que empolgasse os alunos, que os envolvessem numa busca constante e amorosa de leituras, de conhecimento, de autoconhecimento, de afeto, de encontro e de solidariedade.

Nesta caminhada de busca, de inquietação, continuava trabalhando com a docência. Já de volta a morar em Teresina, resolvi estudar Filosofia. Era uma forma de me inserir com mais fundamento no mundo da educação e assim, me aproximar e conhecer melhor essa coisa enigmática, instigante e apaixonante.

Com a Filosofia fui reaprendendo a ver o mundo, as coisas, as pessoas e a vida. Passei a ter um olhar mais atento, crítico, reflexivo e amoroso com tudo ao meu redor. A reflexão filosófica nos permite adquirir outra dimensão, além daquela que é dada pelo agir imediato, no qual estamos mergulhados no dia a dia. A busca amorosa do conhecimento é um convite à aprendizagem da reflexão e das trilhas da vida.

No campo da educação, a Filosofia me trouxe mais e mais questões problematizadoras, dúvidas e até mais inquietação e angústia. Mas não deixei de amar o meu fazer docente, pelo contrário, adquiri mais conhecimento. E compreendo, é mais fácil amar quando melhor se conhece. Com isso, passei a querer mudar, a transformar o meu modo e jeito de ser e tornar-me professora. Passei a acreditar na educação como prática de liberdade humana[4].

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