A abordagem dos afetos na semiótica PE39

A abordagem dos afetos na semiótica

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Autor Renata Coelho Marchezan, Arnaldo Cortina, Rubens Cesar Baqui√£o. !@
Ano 2012
P√°ginas 226
Tamanho 16 x 23
ISBN 978-85-7993-090-4

R$ 40,00 Em até 3x de R$ 13,33 sem juros

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APRESENTAÇÃO

‚ÄúA carne se imp√īs ao verbo‚ÄĚ

(W. Beividas)


Durante nossa coordena√ß√£o no bi√™nio 2007-8, o Grupo de Trabalho de Semi√≥tica, da Associa√ß√£o Nacional de P√≥s-Gradua√ß√£o e Pesquisa em Letras e Lingu√≠stica-ANPOLL, dedicou-se ao exame da tem√°tica da afetividade nos dom√≠nios da semi√≥tica discursiva. Com a colabora√ß√£o do doutorando Rubens C. Baqui√£o ‚Äď que tamb√©m assina esta apresenta√ß√£o ‚Äď reunimos, agora, nesta obra, os desdobramentos desses estudos, que exp√Ķem e desenvolvem o tema em diversos √Ęngulos.

A abordagem dos afetos na semi√≥tica significa o reconhecimento da import√Ęncia da dimens√£o passional do discurso, da necessidade de integrar √† an√°lise do sujeito semi√≥tico suas emo√ß√Ķes, suas sensa√ß√Ķes. O sujeito que age ‚Äď t√£o eficientemente apreendido e descrito, nos desenvolvimentos do percurso gerativo do sentido ‚Äď √© tamb√©m um sujeito que sente, que tem um corpo afetado pelo objeto, pelo outro sujeito.

Como sempre ocorre na semiótica diante de desafios, a consideração da afetividade é acompanhada de um balanço teórico e reverte em desenvolvimentos da própria teoria, globalmente considerada.

Com base nos pares raz√£o/paix√£o e a√ß√£o/paix√£o ‚Äď lembradas por D. Bertrand, referido neste livro ‚Äď, pode-se vincular a semi√≥tica do percurso gerativo do sentido aos primeiros elementos dos pares e relacionar as formula√ß√Ķes mais recentes ao segundo, ao chamamento da paix√£o. Tra√ßam-se, assim, para efeito de pesquisa e de ensino, dois momentos te√≥ricos, que d√£o relevo a preocupa√ß√Ķes com o intelig√≠vel e com o sens√≠vel, respectivamente.

Essas duas dire√ß√Ķes da pesquisa semi√≥tica, que n√£o se excluem mutuamente, est√£o presentes nesta obra. Raz√£o e a√ß√£o convivem bem nos dom√≠nios semi√≥ticos. O fazer do homem no mundo ‚Äď ou, conforme a feliz formula√ß√£o de E. Lopes (‚ÄúPaix√Ķes no espelho: sujeito e objeto como investimentos passionais primordiais‚ÄĚ Cruzeiro semi√≥tico. Porto, 11-12,1989,1990), sua busca do objeto ou sua fuga ‚Äď recebe uma formaliza√ß√£o categorial, que apreende as estabilidades. Abordagem te√≥rico-metodol√≥gica de talhe discretizante, que n√£o se mostra satisfat√≥ria quando se incluem o passional, o afetivo, o vivido, o experienciado, o percebido.

Este livro traz respostas dos semioticistas √† convoca√ß√£o do sens√≠vel; do que exige a apreens√£o do n√£o categorial, do cont√≠nuo; do que liga, de modo inst√°vel e com intensidades diferentes, o corpo sens√≠vel ao objeto, pr√≥ximo ou distante. Bem pr√≥ximo ou bem distante. Anteriormente ou jamais em conjun√ß√£o. Isso solicita, das sistematiza√ß√Ķes, das formaliza√ß√Ķes ‚Äď caras √† semi√≥tica ‚Äď uma flexibilidade, uma grada√ß√£o apropriada para aferir intensidades, ritmos. C. Zilberberg juntamente com J. Fontanille ‚Äď cujas contribui√ß√Ķes s√£o, aqui, amplamente exploradas ‚Äď d√£o consist√™ncia te√≥rica a essa abordagem, a chamada semi√≥tica tensiva, que tem, em verdadeiro insight, ber√ßo leg√≠timo na s√≠laba saussuriana e hjelmsleviana.

Nesse contexto, n√£o √© demais enfatizar que n√£o h√° incompatibilidade entre a√ß√£o e paix√£o, nem mesmo incompatibilidade imposta pela teoria. O interesse de D. Bertrand, ao propor os pares, √© problematiz√°-los e n√£o lhes enfatizar as oposi√ß√Ķes. Como considera E. Lopes, no artigo indicado nesta apresenta√ß√£o, a paix√£o, a emo√ß√£o √© mola propulsora da a√ß√£o, ou, nas palavras j√° citadas, √© mola propulsora da busca, da fuga.

Acompanhamos, nesta obra, os trabalhos que introduzem, no contexto te√≥rico mais est√°vel do percurso semi√≥tico, a instabilidade dos afetos, em uma proposta nuan√ßada, recortada do componente modal. Tamb√©m n√£o poderia deixar de integrar as refer√™ncias bibliogr√°ficas dos autores Semi√≥tica das paix√Ķes, de A. J. Greimas e J. Fontanille, cujo tratamento do afeto ‚Äún√£o √© mais um complemento da semi√≥tica da a√ß√£o, mas um ponto de vista diverso, que engloba os fazeres‚ÄĚ, conforme palavras de J. L. Fiorin, em artigo nos Cadernos de Semi√≥tica Aplicada citado nos trabalhos.

Desse modo, no conjunto das reflex√Ķes reunidas, √© lembrada, e retomada em avan√ßos do presente, a emerg√™ncia do interesse e do tratamento da afetividade no dom√≠nio semi√≥tico ‚Äď uma esp√©cie de ‚Äúpassado te√≥rico‚ÄĚ. Como a compor uma linha temporal ‚Äď que √©, agora, teoricamente mais ramificada ‚Äď, depreendem-se, dos trabalhos coligidos, probabilidades e expectativas para futuras investiga√ß√Ķes, em fun√ß√£o, ent√£o, de diferentes conforma√ß√Ķes que a teoria ganha ao passar pelo enfrentamento do tema e por an√°lises de variados discursos. S√£o analisados, aqui, textos liter√°rios, publicidades, memoriais acad√™micos e ilustra√ß√Ķes.

Nessa busca da apreens√£o do sens√≠vel, a semi√≥tica retoma, como se sabe, suas inspira√ß√Ķes fenomenol√≥gicas. Tal inflex√£o, em que j√° se imprime o cunho de ‚Äúvirada fenomenol√≥gica‚ÄĚ, √© problematizada, nesta obra, por W. Beividas: ‚Äú√© a fenomenologia de M. Ponty incontorn√°vel, det√©m a √ļltima chave para a semi√≥tica do afeto?‚ÄĚ.

G. Lara e A.C. Matte ocupam-se dos termos lexicalizados, afeto, paix√£o, emo√ß√£o, sensa√ß√£o, e os distinguem semioticamente, com base nas varia√ß√Ķes de intensidade e quantidade, mas tamb√©m de acordo com seu estatuto individual ou social: ‚Äúa distin√ß√£o te√≥rico-metodol√≥gica entre emo√ß√£o e paix√£o √© extremamente prof√≠cua, visto que permite determinar o campo do individual e, portanto, do cognitivo, em contraposi√ß√£o ao campo do coletivo, social e, portanto, cultural‚ÄĚ.

Com base nas quest√Ķes te√≥ricas apontadas, que objetivam estudar a experiencia√ß√£o do sentido, diferentes paix√Ķes, manifestadas na literatura, s√£o analisadas por L.C. Mello, V. Abriata, D. Almeida e I. Lopes. Em textos liter√°rios que focalizam a rela√ß√£o entre professor e aluno, L.C. Mello encontra a paix√£o da vergonha, utilizada como instrumento de controle, e a descreve como resultado do arranjo de modalidades. V. Abriata ocupa-se da paix√£o da vingan√ßa em conto de Guimar√£es Rosa. D. Almeida e I. Lopes dedicam-se √† an√°lise de poemas e examinam, respectivamente, o remorso e a solid√£o. Ambos os autores exploram tamb√©m a rela√ß√£o, fulcral na semi√≥tica, entre plano da express√£o e plano do conte√ļdo. D. Almeida examina a linguagem anagram√°tica em poema de Paulo Henriques Britto; I. Lopes, em an√°lise que ainda problematiza a tradu√ß√£o po√©tica, analisa poema de Edward E. Cummings, que, ‚Äúcom feroz viol√™ncia‚ÄĚ, ‚Äúdespeda√ßa as palavras‚ÄĚ e as disp√Ķe verticalmente na p√°gina, contra a rotina do ato de ler. I. Lopes lembra-nos da desautomatiza√ß√£o da leitura e, com as palavras de I. Alfandary, convida-nos a prever o abalo do leitor: ‚Äúse o poeta faz tudo que est√° a seu alcance para retardar o tempo do reconhecimento, √© para evitar que a tenta√ß√£o do reconhecimento suplante a sensa√ß√£o‚ÄĚ.

E. Nascimento analisa publicidades endere√ßadas √† mulher, divulgadas na revista O Cruzeiro, nas d√©cadas de 40, 50 e 60; longo per√≠odo, que permite √† autora organizar em quatro tipos a mulher conformada pelas propagandas. Nos caminhos apontados por A. Greimas e J. Fontanille, que tomam emprestado de L. Wittgenstein o conceito ‚Äúforma de vida‚ÄĚ ‚Äď conceito tamb√©m explorado, anteriormente, por V. Abriata ‚Äď, a autora mostra que as paix√Ķes que afetam o sujeito tamb√©m constituem sua identidade e considera a publicidade, com seus valores pr√°ticos e m√≠ticos, ‚Äúum lugar de sedimenta√ß√£o e constru√ß√£o de formas de vida‚ÄĚ. Bem pertinente porque evidencia um terceiro actante, na experi√™ncia do vivido, √© a cita√ß√£o que a autora faz de E. Landowski, outro autor bem referido nesta obra: ‚Äúo que faz desejar √©, antes de tudo, o desejo do outro, a perturba√ß√£o, contagiosa, que um corpo comovido deixa transparecer. Fazendo desse axioma o princ√≠pio de sua ret√≥rica, a iconografia publicit√°ria incansavelmente explora um dispositivo triangular arquet√≠pico‚ÄĚ.

N. Discini vai a Marcel Proust e, com o auxílio da densidade desse texto literário, considera o sujeito do afeto como um algoritmo da percepção. Em mais uma contribuição à estilística discursiva, a autora examina a dimensão afetiva do ator da enunciação.

O inusitado e o habitual; em termos zilberberguianos mais assentados, o acontecimento e o exerc√≠cio s√£o polos de uma grada√ß√£o descrita com base nos eixos da intensidade e da extensidade. Polos e eixos permitem tra√ßar uma representa√ß√£o gr√°fica na qual oscila o sujeito que percebe, vive e sente. Em sua an√°lise do memorial acad√™mico, M. Barros utiliza esse universo tensivo para indicar as modula√ß√Ķes do sujeito que, entre ‚Äúa√ß√Ķes planejadas‚ÄĚ ou ‚Äúacontecimentos imprevis√≠veis‚ÄĚ, relata seus feitos, apresenta a si pr√≥prio e busca uma san√ß√£o positiva. Mostra, dessa maneira, as articula√ß√Ķes entre a tensividade e o contrato de veridic√ß√£o, que s√£o pr√≥prias desse g√™nero autobiogr√°fico.

O trabalho de R. Baqui√£o e R. Marchezan desenvolve uma an√°lise da ilustra√ß√£o The Wake, de Michael Zulli. Para tanto, relaciona plano do conte√ļdo e plano da express√£o na considera√ß√£o das organiza√ß√Ķes semissimb√≥licas, tendo com fundamenta√ß√£o os estudos pioneiros de J.M. Floch. Examina-se tamb√©m a disposi√ß√£o afetiva do enunciador, projetada na ilustra√ß√£o. A esse respeito, trazendo √† baila a abordagem passional da enuncia√ß√£o, os autores lembram palavras de A. J. Greimas e J. Fontanille, que vale √† pena reproduzir: ‚Äútal concep√ß√£o n√£o deixa de acarretar consequ√™ncias para a teoria da comunica√ß√£o e da intera√ß√£o em seu conjunto‚ÄĚ.

Musicando a semi√≥tica, ouvindo a m√ļsica de Guimar√£es Rosa, a an√°lise de L. Tatit de um conto rosiano fecha estas reflex√Ķes. Associa√ß√£o proposital entre semioticista e literato, para mostrar o entre-sentido, a inflex√£o do que ainda n√£o √© e do que j√° foi. O querer, os v√≠nculos afetivos expressos em cifras de intensidade e de ritmo. Vindos de outra toada gramatical.

Renata Coelho Marchezan

Arnaldo Cortina

Rubens César Baquião




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