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Fio Solto – que escola você deseja?

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COMO QUEM COLHE E SEMEIA

Edwiges Zaccur

 

Gosto da palavra fio. Sem fio não há tecido, nem texto, nem fio de voz que se trance a um diálogo possível. Gosto do adjetivo solto que evoca outro: liberto, pois que recuperou a liberdade. Gosto dessa combinação: fio solto. Como uma trama inacabada em que não há fio arrematando. Antes um fio convida outro fio e mais outro e outro mais, sem definição de espaços e amarrações. Nessa soltura, sem nós cegos que se amarram, porém, plenos de nós, sujeitos atravessados por redes de subjetividade, somos juntamente com outros que nos habitam, outros que se entendem e se desentendem conosco, com diferentes texturas e cores. E assim, na abertura de fios e vozes que se matizaram em polifonia, uma sinfonia se eleva aos ares, dizendo de escolas possíveis.

Colho qualificativos por dentro de fios soltos e desejantes. Pinço, de início, uma escola amorosa em que João, Maria e José possam viver como sujeitos encarnados com suas histórias e desejos. Nessa escola, Maria Letícia deseja os desejos deles e conclui: “Precisamos viver nossos atos de vida em unidade com esses desejos, os das crianças e os nossos.” Salto um fio, que retomarei ao final, para destacar a escola que a experiência de Ana Lucia constatou potente para mudar, “porque as pessoas se amorizaram, porque elas se alteraram”, tal como fez o seu professor de Matemática, derrubando seus antigos medos. Uma escola da alegria prevalece no desejo de Angélica, onde “as crianças sorriam na chegada e não na hora da saída”, e “onde tudo seja pensado para que todas as possibilidades de conhecer estejam abertas”.

Uma escola tal que acolha, que agasalhe é o que deseja Elaine, revivendo “a dificuldade de estar novamente em um ambiente novo, estranho e, em muitos momentos, hostil”. E, sendo isso e tanto, que seja a escola criativa, onde autorizada ou não, Patrícia Borde, ainda adolescente, inventou um espaço para denunciar em seu texto “a falta de sentido, o tédio” da escola em sua vida, traduzindo em palavras as cores amorfas da escola. Liliane, por sua vez, se rebela contra o discurso oficial repetitivo a que falta o ato responsável e efetivamente responsivo capaz de gerar o convívio entre todos, sem autoritarismo e silenciamento. E, sobretudo, que seja uma escola onde cada fio desejante se entretece a outros tantos fios, como os que estimularam a escrita de Reginaldo: “fios teóricos, fios da vida, fios de caráter privado, fios de dor, fios de alegria”, abrindo espaço a escolas desejadas por outros leitores-autores. Sobretudo, cada fio solto traz uma voz instigante e liberta, porque autoral. Alguém poderá dizer que nenhum fio é completamente solto, nenhuma voz é tão inaugural como a de um Adão primeiro e único. Bakhtin já nos alertara sobre isso. Sobretudo, o que nos cabe é festejar a autoria sempre polifônica. Mas são tantos os condicionamentos nas moradias e nas cidades, tantos os silenciados entre os muros de escolas e salas de aulas, tantos os condicionados nas fábricas e células sociais, tantas são as vozes que aprenderam a recitar cantilenas em uníssono, que se faz necessário um esforço para liberar os historicamente silenciados em seu direito à autoria.

Pode parecer que os fios invisíveis que amarraram as mãos, que determinaram movimentos contidos e que comandaram vozes em uníssono sejam facilmente rompidos. Mas não. Condicionados que fomos a viver dentro de um círculo de giz, a grande maioria pensa que não tem palavras, pensa que escrever deriva de um dom avaramente distribuído a uns poucos predestinados. É que os signos ideológicos, que sempre colonizaram o pensamento, tiveram e ainda têm vigência. A autoria, ao contrário, precisa de espaços abertos para experimentar livremente tecer palavras, reinventar sentidos em alquimia. Desde que suas mentes se concedam a liberdade de pensar e criar e, de algum modo, se insurjam contra “o manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Desde que uma escola ouvinte, como deseja Marcelo, também se faça porta-voz dos desejos de meninos que querem brincar mais, aprender mais e perguntar, dando voz e vez à “utopia na escola”, como é o desejo de Denise.

Tomar a palavra, portanto, é romper amarras de uma herança histórica; assumindo para si e para o outro o direito de se narrar como leitor-autor. Essa é uma tese que venho defendendo longamente, desde o tempo em que era professora de Ensino Fundamental. Foi tamanho o meu entusiasmo vendo o quanto aqueles meninos e meninas podiam criar, que me autorizei também a escrever pelo prazer de brincar com as palavras. Escrevi minha dissertação de mestrado sobre tais práticas. Continuei reforçando essa linha, como professora universitária. E tendo vivido essa história, venho insistindo com professoras onde quer que eu vá participar de projetos de formação continuada: assumam a autoria, libertem as palavras que anseiam dizer de vocês, de suas experiências e saberes.

Não por acaso, há quatro anos, um grupo de professoras me fez uma pergunta, cercada de cuidados: Edwiges, você acha que seria uma pretensão nossa sonhar em publicar um livro para narrar nossas experiências no GEFEL? (Grupo de Estudos e Formação de Escritores Leitores). Respondi vivamente que se tratava de um direito, absolutamente coerente com a proposta do grupo. Depois de muitas reuniões, de inseguranças de algumas, de ousadias de outras, de incertezas diante de que fio puxar para tecer o começo, o livro foi tomando forma e, em 2013, foi publicado com o título “Exercício de Autoria: Histórias de vida, narrativas de formação docente no/do GEFEL”. Escrevi o prefácio e pude ver a alegria estampada naqueles rostos pela descoberta de que sabiam tomar a palavra e tinham muito a dizer. Por fim, em meio a tantos fios que poderia evocar aqui, recordo o livro “O equilibrista”, de Fernanda Lopes de Almeida. Vocês poderão perguntar: por que um livro de literatura infantil vem se juntar a fios de quem deseja escolas emancipatórias e responsivas? É que, nessa história, o equilibrista fabrica, com o seu fio, o que deseja: casa ou navio, festa ou viagem e segue em frente, correndo riscos, desenrolando seu fio e vivendo intensamente a aventura de fazer o que lhe vem ao pensamento.

E, por que não? uma escola reluzente, como deseja Ana Elisa, capaz de manter o brilho próprio de cada participante. Ou uma escola outra, a que refere Marisol, em tudo diversa daquela que lhe foi imposta, quando menina. Uma escola onde crianças e professoras equilibristas, a partir do “princípio político do conhecimento, dialogando radicalmente com todos os sujeitos”, possam “pensar suas próprias verdades”. E assim descobrir que: “É incrível quanta coisa se pode fazer com o fio”.

(Trecho do Prefácio)

Informações Adicionais

Autor Grupo de Estudos Bakhtinianos ATOS/UFF [Org.]
Ano de Publicação 2016
Páginas 68
Tamanho 12 x 18
ISBN 978-85-7993-330-1

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