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ENCONTROS DE PALAVRAS

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É a partir dos escritos de vários autores que abordarei o sujeito neste texto: encontros de palavras. Cada evento de encontros de palavras é extraordinário, singular, único. No discurso, na Ordem dos Discursos, em lugares-comuns ­ este evento: um encontro furtivo da palavra, já é outra no discurso, que, entendida, torna-se ainda outra palavra: revelação e re-velação (velar novamente) do outro no discurso ­ o outro como eu mesmo (o outro por referência a sua própria identidade) e o outro em relação a mim, outros ou outrem (como prefere chamar Lévinas).

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TEXTO DE APRESENTAÇÃO COMPLETO:

Advertência - Da outra palavra à palavra outra

Vivi muito no meio das pessoas grandes. (...) Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela  era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um  chapéu". Então eu não lhe falava nem de jiboias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de Bridget, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável.

SAINT-EXUPÉRY, O Pequeno Príncipe.

Jamais qualquer bufão sonhou em imaginar o milagre da ascensão.

HENRY MILLER. O sorriso aos pés da escada.

Estamos traduzindo diversos autores como Shakespeare, Milton, Swift, Byron, Dickens e muitos outros. Quando esse trabalho terminar, seus escritos originais e tudo o que sobreviver da literatura do passado serão destruídos (...). Isso se deve, principalmente, para deixar esse trabalho de tradução, que deveria ser preliminar, o tempo de fazê-lo antes da adoção definitiva da Novalíngua, que foi fixada, no mais tardar para 2050.

GEORGE ORWELL, 1984.

É a partir dos escritos de vários autores que abordarei o sujeito neste texto: encontros de palavras. Cada evento de encontros de palavras é extraordinário, singular, único. No discurso, na Ordem dos Discursos, em lugares-comuns ­ este evento: um encontro furtivo da palavra, já é outra no discurso, que, entendida, torna-se ainda outra palavra: revelação e re-velação (velar novamente) do outro no discurso ­ o outro como eu mesmo (o outro por referência a sua própria identidade) e o outro em relação a mim, outros ou outrem (como prefere chamar Lévinas).

Lembro-me, a propósito, do conceito de "simples" conforme Kierkegaard: o desejo do simples como uma tendência ao limite. Tocar o simples, chegar ao singular, "singular", em oposição ao "público": tarefa difícil, se não desesperada, uma vez que, como disse Kierkegaard em "Ponto de vista do meu trabalho como um escritor" (1851), torna-se manifesta e evidente a contradição entre a grande quantidade dos meios de comunicação e o fato de ser um homem singular.

Os encontros de palavras são como eventualidade singular, única, fora da repetição do discurso de reprodução do Mesmo: fim da representação, da transcrição, da cópia com em "I prefer no to", do escritor de Melville (Bartleby, 1989) que deixa de transcrever (de utilizar a fala e a escrita como uma forma de reprodução de um sentido pré-existente). Esta é a fórmula de Bartleby - o homem, conforme  Deleuze (1997:96), "sem referências, sem posses, sem propriedade, sem qualidades, normal", muito uniforme e linear para que qualquer propriedade pudesse nele encontrar um ponto de apoio - "construiu o vazio na língua" (ibid.:95). A fórmula "arrasante devastação" (ibid.:91) coloca em xeque a comunicação, desativa os atos linguísticos, decepciona os ouvintes, faz saltar a lógica dos papéis, dá origem a uma zona de indeterminação que nenhuma imagem pode exorcizar e com a qual nenhum clichê coincide.

A tradução é também um encontro de palavras, no entanto, na tradução de Uma viagem sentimental (Sentimental Journey, 1768) de Laurence Sterne e na tradução de Ugo Foscolo de si e por si, tornando-se "Dídimo Chierico", tem-se o tradutor traduzido. É a tradução da fala dos outros, é uma palavra que, enquanto palavra literária, já é digressão. O exemplar, Sentimental Jorney, no qual fica demonstrado que não só escrita (como em Tristram Shandy), mas a própria vida é digressiva.

O encontro de palavras está fora da interrogação, da relação de pergunta e resposta. Fora do querer dizer do que se diz e do querer ouvir aquilo que deva ser a resposta, e fora do querer entender o que necessita de resposta.

O encontro de palavras é comparável à expressão "Soberania", no sentido que Bataille lhe dá. Ele foge das regras da pergunta e da resposta, da economia narrativa, zomba das soluções mítico-narrativas de que a política deve ter como recurso para se fazer entender (ver Barthes 1982b:57): eis a afirmação de soberania que não está relacionada ao exercício do poder funcional para a afirmação de um sujeito, na constituição de sua história e os deveres que ela impõe.

O encontro das palavras é o relembrar inesperado, como na Busca proustiana. O relembrar como um excedente em relação à utilidade da memória.

Como na memória, no encontro de palavras, o significado não é óbvio. Este não é o sentido que Barthes, em seu ensaio "O terceiro significado" de 1970 (reimpresso em Barthes, 1982), propõe chamar de significado óbvio. Como na significação da memória, o significado do encontro das palavras não tem o afrontamento da significação, sua provocação, sua obscenidade. Esse significado ultrapassa, é supérfluo, teimoso e esquivo, evasivo e completo, e contido e perturbador, é chamado de "sentido obtuso" por Barthes. "Obtuso" dá a ideia de que a importância da reunião de palavras é despontada, arredondada, amolecida em relação ao significado: de um sentido muito claro, muito alto, como uma memória. A ideia de bordas sem pontas, esmeriladas, sem arestas, suavizada, tem apenas, como na memória, a dificuldade de ser aprisionada, por deslizar, por derrapar.

No encontro, o que conta é o insignificante, o marginal, o fútil ­Barthes diria: "a pormenorização exorbitante e desnecessária"; certa "paixão pelo indiferente", como na Indiferença de Proust na sua Busca.

No encontro das palavras, a palavra não é direta, seja ela a palavra da proposição predicativa (s é p, sujeito e predicado), seja a palavra do complemento direto, seja a palavra objetiva, a minha ou a dele. A palavra direta é aquela da ordem do discurso, do lugar comum, a palavra da adesão, da identidade, a palavra da "representação" (Artaud). A palavra do encontro, em contrapartida, é indireta, o que permite, como na configuração literária, "utilizar a língua, sendo-lhe exterior", vestindo a camisa", ­ não o silêncio, não "mutismo" (como se diz na tradução indevidamente dos "Apontamentos de 1970-1971" de Bakhtin em Esthétique de la création verballe, 1984:353), o hábito da melancolia, do Contentar-se.

Trata-se da "melancolia" Cordélia no Rei Lear, e a de Antônio, com também o silêncio do cofre de chumbo versus a eloquência "da caixa de ouro" no Mercador de Veneza, é o silêncio de Cordélia em "O diário de um sedutor" (1843), de Kierkegaard (Cordélia novamente silenciosa: "Eu penduro seus lábios e você não diz nada"). É como a fala nos gêneros do discurso literário, a qual Bakhtin chama de discurso indireto ­ que permitem ao escritor não dizer nada em seu nome, para se distanciar de sua individualidade, sua identidade, seu papel, distanciando-se do ponto de vista da vida contemporânea, de sair de seu tempo "estreito" ­ trata-se do "conter-se" que toma "formas de expressão: redução ao riso (ironia), à parábola, etc." ("Apontamentos de 1970-1971", "Esthétique de la création Verballe",1984:370).

O subentendido é impossível sem outra palavra. O subentendido é necessariamente algo que é aceito pelos outros, mesmo que apenas por duas pessoas, pode ser um "conhecimento comum" para os amantes de um relacionamento amoroso (como no caso de Bassânio em O Mercador de Veneza, que deve apreendê-lo para resolver o enigma), ou ao sigilo, ou ainda à memória que liga duas pessoas: "estes sinais secretos, que só nós conhecemos" (Homero, Odisseia), como aqueles que permitem à Penélope reconhecer Ulisses sob forma de um mendigo.

No encontro das palavras, a posição é a do escritor em seu trato para com o herói ­ um relacionamento cara a cara com ele, exclusivo de uma única pessoa para outra, um emaranhamento, não-indiferença, do envolvimento que se realiza na dialogicidade intrínseca das palavras. A posição do interlocutor com o escritor não é passiva, não é mera contemplação de um observador imparcial. Sua posição é a da escuta atenta, da compreensão, da reação ativa, da provocação, do desafio.

 

 

Informações Adicionais

Autor Augusto Ponzio
Ano de Publicação 2010
Páginas 176
Tamanho 14X21
ISBN 978-85-7993-028-7

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