Um estudo sobre a expressão gramatical da polidez em libras. PE100

Um estudo sobre a expressão gramatical da polidez em libras.

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Rosani Kristine Paraíso Garcia; Rozana Reizota Naves !@
Um estudo sobre a expressão gramatical da polidez em libras. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 117p.
ISBN 978-85-7993-621-0
1. Libras. 2. Expressão gramatical da polidez. 3. Expressão gramatical em Libras. 4. Autora. I. Título.
CDD – 370

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APRESENTAÇÃO


Sou a quarta filha de pais ouvintes. Com surdez congênita, tive acompanhamento fonoaudiólogo, tanto no desenvolvimento da língua oral, como da escrita, desde criança. A comunicação em família se dava por meio da oralização e da leitura orofacial. Minha família e uma equipe multidisciplinar trabalharam com seriedade e determinação para que eu pudesse alcançar tudo o que é possível a uma ouvinte.

Aos cinco anos de idade fui transferida para uma escola especial, com muitos alunos surdos, mas ainda era obrigada a oralizar. Para aprender a falar, eu colocava uma mão no meu pescoço ou na minha face e a outra mão no pescoço ou na face da pessoa que estava me ensinando, para sentir a vibração do som e tentar emitir esse som com a minha voz. Nos momentos informais, as crianças surdas se comunicavam usando gestos e alguns sinais básicos da Língua de Sinais Brasileira (Libras). E foi nesse contexto que a Libras foi introduzida em minha vida. Logo, aos dez anos de idade, fiz um cursinho de Libras, aprendi o alfabeto manual, sinais novos e assuntos sobre cultura surda. Passei a conviver com outros surdos para troca de experiências.

Na sequência, voltei a estudar em classe comum. Os professores comunicavam-se com os surdos em língua portuguesa e em língua de sinais, mas as escolas ainda não estavam preparadas para o ensino bilíngue – o que havia era o português sinalizado. Nessa época, meus pais, já bem informados sobre a língua de sinais, vendo o meu progresso, entenderam que a Libras deve ser a língua de instrução e de interação dos surdos, seguida da modalidade escrita da língua portuguesa, ensinada com metodologias de ensino de segunda língua.

Na época do processo seletivo para o curso superior, ainda não existia a reserva de cotas e eu concorri a uma vaga com os ouvintes. Fui aprovada no curso de Sistemas de Informação e iniciei as aulas sem intérprete de Libras. Uma colega, movida pela solidariedade, começou a aprender Libras para me ajudar a entender o que estava sendo ensinado pelos professores. Depois de muita luta para ter meus direitos garantidos, a Universidade colocou em sala de aula uma intérprete de Libras. Lutar valeu a pena, pois consegui a minha primeira vitória, obtendo a nota máxima na monografia com o título “Software para facilitar a comunicação entre surdos e ouvintes”, sendo a primeira aluna surda graduada em Montes Claros.

Comecei a fazer o curso de instrutora de Libras no Centro de Capacitação de Profissionais de Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS). Na época, pensei que seria fácil ensinar Libras no nível básico para ouvintes, já que sou surda e fluente nessa língua. Vi que não era algo tão simples assim e fui sentindo necessidade de aperfeiçoamento. Desde então, comecei uma incessante busca por vários cursos, pesquisas, congressos, além de participar das reuniões com os outros instrutores, e obtive o certificado de proficiência em Libras nível superior, por meio de exame promovido pelo Ministério da Educação.

A minha função era organizar as aulas, atender os alunos surdos e preparar a interpretação de histórias em Libras. No entanto, os professores ouvintes começaram a me pedir ajuda com os sinais em algumas disciplinas. Também combinei com os instrutores surdos reuniões semanais para estudar, discutir, preparar as aulas, combinar os sinais para não confundir os alunos surdos e ouvintes. As apostilas eram basicamente compostas por lista de palavras/ sinais divididos por classes semânticas. Não havia maiores explicações teóricas, detalhamento de expressões faciais, regras gramaticais nem tão poucos exercícios.

Atuando como instrutora de Libras num tempo em que havia uma grande necessidade desses profissionais, porém havia poucos materiais e referências teóricas e práticas para essa atuação específica, deparei-me com inúmeras dificuldades decorrentes de uma prática baseada em minhas próprias experiências e nas referências de instrutores com mais experiência. Nesse primeiro momento, as estratégias que usei nas aulas de Libras eram impróprias para o ensino de uma língua de modalidade visual. Algumas dessas estratégias eram: o uso do português escrito no quadro, excesso no uso de mímicas para facilitar o entendimento dos conteúdos. Algumas experiências profissionais como instrutora de Libras no ensino de L2 para ouvintes e a substituição dessas estratégias por outras mais adequadas à modalidade de ensino dessa língua contribuíram para as mudanças metodológicas que implementei ao longo da minha carreira.

No contexto de ensino que acabo de apresentar, fui atuando e acumulando experiências no ensino de Libras. A partir de então, passei a seguir as orientações presentes no livro Libras em contexto, material editado pelo Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos do Ministério de Educação e Cultura pelo MEC, em 2001. Nesse material, observa-se uma orientação formal para o ensino de Libras, em uma perspectiva diferente daquela utilizada pela maioria dos instrutores surdos: o livro é organizado a partir de unidades temáticas que visam a levar o aprendiz a utilizar o vocabulário aprendido em frases ou em diálogos, voltando, assim, o ensino para o uso dessa língua em situações simuladas. Apesar da metodologia de ensino inovadora para aquele momento, o livro-guia deveria ser seguido fielmente pelo professor, fato que justifica os planos de aula prontos encontrados neste material (GESSER, 2009). Dessa forma, caso o professor não tenha boa didática para o ensino de Libras, não saiba como avaliar os alunos e não tenha flexibilidade para alterar os planejamentos conforme as necessidades de cada grupo, o ensino acaba seguindo um único e mesmo padrão e, com isso, há perda de interesse dos alunos que acabam desistindo do curso.

Uma estratégia para alterar essa realidade, sem alterar, no entanto, os temas necessários para a aprendizagem de Libras, pode ser a introdução de dinâmicas e jogos que ajudam a ter uma maior participação dos alunos nas aulas. Essas atividades podem ajudar alguns alunos a se sentirem livres e perderem o medo de usar a língua em algumas situações; auxiliando o desenvolvimento das expressões próprias da língua e proporcionando uma aprendizagem prazerosa, visando ao uso da língua e não, apenas, de seus aspectos formais, mediante a interação das pessoas que constituem o grupo.

Com isso em mente, constantemente busco materiais que possam me auxiliar. Quando procuro bibliografia sobre atividades e jogos para curso de línguas, observo que há uma infinidade de opções, mas, infelizmente, a maioria desses materiais contém uma metodologia indicada para línguas orais, já que a dinâmica desses jogos trabalha com rimas e poesias, utilizando prioritariamente, os aspectos sonoros, por exemplo. Hoje algumas empresas estão introduzindo materiais didáticos e bibliografia específica para cursos de Libras, mas ainda são iniciativas bastante tímidas e restritas se comparadas ao mercado bibliográfico voltado para o ensino de línguas orais (FELIPE, 2001; PIMENTA e QUADROS, 2006; ALBRES, 2008). Dentro da minúscula fatia do imenso mercado bibliográfico brasileiro, são quase inexistentes pesquisas voltadas apara a dinâmica do ensino de Libras, razão pela qual me vi impulsionada a adaptar e criar uma metodologia própria, objetivando possibilitar que os alunos ouvintes tenham acesso à Libras de forma divertida e prazerosa, a fim de favorecer o processo de aprendizado da língua de sinais.

Diante da experiência como educadora de Libras para surdos e ouvintes, senti necessidade de adaptar as dinâmicas usadas no ensino e verificar a sua eficácia, o que fiz em um trabalho anterior. Os planos de aula que elaborei foram focados na estimulação de vocabulário por categorias semânticas e, em seguida, na sua aplicação com o uso da sintaxe de Libras. Essa experiência me mostrou que a aprendizagem dos alunos acontecia de forma mais fácil. No dia-a-dia, percebi a necessidade de adaptações nas dinâmicas para os ouvintes, pois é muito comum alguns alunos não possuírem a percepção viso-espacial necessária para o aprendizado adequado da língua de sinais.

Dessa forma, compreendi que, para que se realize um trabalho efetivo na perspectiva bilíngue, faz-se necessário repensar propostas pedagógicas não apenas para a educação da pessoa surda, mas também para a formação dos profissionais ouvintes que atuarão junto aos surdos, sejam professores, intérpretes ou outros profissionais que utilizarão a Libras em suas profissões. Ainda, frequentemente, vejo professores que atuam na área de ensino de Libras realizando atividades que não são próprias dessa língua, não respeitando suas características linguísticas. Eles pedem a seus alunos que façam atividades partindo do português e não da própria língua de sinais. Essa prática, de certa forma, dificulta e cria uma barreira no desenvolvimento da fluência desse aluno.

O fato de poucos trabalhos terem sido desenvolvidos discutindo metodologias próprias para o ensino dessa língua é decorrente, em grande parte, de os estudos sobre Libras serem recentes. Alguns autores afirmam que o ensino de Libras é marcado ainda pela vivência dos professores surdos, que reproduzem na sala de aula os mesmos métodos de ensino a que foram submetidos nas escolas quando do ensino-aprendizagem da língua portuguesa (LACERDA e POLETTI, 2004). Lembro-me, por exemplo, que minhas professoras de português mostravam na lousa listas de palavras descontextualizadas, certamente imaginando que seríamos capazes de memorizar todas elas. Isso se refletiu na minha prática como professora no início da minha carreira e, infelizmente, ainda se reflete na prática de outros professores surdos. É muito comum ver professores de Libras trabalhando listas de sinais descontextualizados e ensinando-os sem interação com os alunos.

Cursos ministrados por diversas instituições também apresentavam e, em alguns casos, ainda apresentam o mesmo problema discutido acima. Na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), até 2001, os professores improvisavam materiais que, quase sempre, tinham como base lista de palavras/sinais divididos por classe semântica. Esses materiais eram compostos por um desenho (como se realizava o sinal) e, ao lado, encontrava-se a descrição do item lexical em português, contendo a configuração de mão necessária, o local de articulação e o movimento utilizado para a produção do sinal. Pouco se dizia sobre outros aspectos importantes para a significação da língua, como expressões faciais e corporais.

Uma das formas de tornar o aprendizado de Libras mais efetivo é promover situações de uso da língua, nas quais os alunos possam aprender a expressar seus pensamentos de forma natural e descontraída. Essas situações levam os alunos ao contato com aspectos mais amplos da língua – seu uso e aspectos gramaticais próprios –, fomentando o desenvolvimento conhecimento linguístico explícito. As situações interativas sempre exigem um contexto comunicativo e são nesses momentos que os alunos têm que usar a língua em um contexto próprio, que pede mais que o léxico.

Minhas referências sobre a escolha do tema desta dissertação para o Mestrado vêm desde a juventude, em que sempre tive certa inquietação acerca dos aspectos estruturais da língua de sinais. Como usuária e professora da língua, eu sempre observei a ocorrência de fenômenos que, talvez, passem despercebidos por outros falantes, mas, no íntimo, eu elaborava hipóteses sobre boa parte das conversas sinalizadas que eu tinha com amigos e pessoas próximas.

Um dos temas que mais me chama atenção é parte a expressão da polidez em Libras. Eu me recordo de situações em que surdos usam expressões que provavelmente pensam ser comuns, mas poderiam sugerir falta de polidez. Não significa apenas usar termos que revelam cortesia, como “bom dia” e “com licença”. A polidez vai além desse aspecto, pois é muito possível que, mesmo usando essas expressões sinalizadas, a disposição corporal, as expressões faciais e até o modo de articular as mãos na sinalização podem denotar o contrário. A troca de experiência com outros instrutores de Libras também me ajuda a perceber que o estudo dessa categoria em Libras é muito incipiente e merece destaque nas pesquisas linguísticas.

Atualmente, trabalho na Universidade Federal de Juiz de Fora, como professora da disciplina de Libras, sendo admitida após minha aprovação em concurso público. Acredito que, além de colaborar com estudos linguísticos em geral, e, especialmente, com os estudos linguísticos da língua de sinais, essa investigação pretende contribuir para o enriquecimento de novos campos de saberes sobre Libras, a partir de reflexões sobre os aspectos da polidez nas línguas de sinais.

 


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