Narrativas, corpos e risos anunciando uma  ciência outra PE100
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Narrativas, corpos e risos anunciando uma ciência outra

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Liana Arrais Serodio; Vanessa França Simas; Guilherme do Val Toledo Prado; Heloísa Helena Dias Martins Proença; Ruy Braz da Silva Filho (Organizadores) !@
Narrativas, corpos e risos anunciando uma ciência outra. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 221p.
ISBN 978-85-7993-585-5
1. Narrativas. 2. Ciência outra. 3. Estudos bakhtinianos. 4. Autores. I. Título.
CDD – 410

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Narrativas, corpos e risos anunciando

uma ciência outra


 

 

Em novembro de 2017, o GRUBAKH[1], subgrupo do GEPEC[2], da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), aceitou o desafio de organizar o IV EEBA - Encontro de Estudos Bakhtinianos. Nesta 4ª edição o tema do encontro foi Resistência à escatologia política: narrativas, corpos e risos enunciando uma ciência outra. Na ocasião, o que propusemos era a produção de trabalhos que pensassem maneiras de resistir à escatologia política que emergia no cenário nacional, tomando as manifestações humanas narrativas, corporais ou risíveis tanto como formas de resistência a essa escatologia quanto como modos possíveis para a construção de uma ciência outra, uma ciência do singular, uma heterociência.

Em Metodologia das Ciências Humanas, Bakhtin trata mais diretamente sobre a impossibilidade de pesquisar nas ciências humanas do mesmo modo que se pesquisa nas ciências exatas, uma vez que o objeto desta é mudo enquanto o objeto daquela é o ser expressivo e falante. Se o ser da expressão só se realiza na interação entre duas consciências (BAKHTIN, 2010) é urgente que as pesquisas em ciências humanas revelem as vozes e os posicionamentos dos sujeitos em relação não somente com o contexto em que se encontram, mas também com os pesquisadores.

Víamos que não podíamos realizar nossas pesquisas dialogicamente polifônicas enclausuradas na epistemologia dominante, como diz Boaventura de Sousa Santos, ou na ciência ortodoxa, como veremos neste volume. Desde Arte e responsabilidade (BAKHTIN, 1919), em toda a sua obra, Bakhtin apresenta como condição de existência de produção de conhecimento humano, a presença do outro em sua constituição: em sua cultura (suas ciências, suas filosofias, suas religiões, suas linguagens, suas artes, suas tradições, suas economias…) e em sua vida.

Ao invés das relações sujeito-objeto e objeto-objeto que ainda continuarão a fazer parte das relações epistemológicas micro-cotidianas e macro-culturais, se não por qualquer razão especial, por fazerem parte de nossa história, Bakhtin fundamenta a alteração dessas relações, para outra, realizada entre consciências: sujeito-sujeito.

Acreditamos, porque já a sentimos concretamente em nossas relações, que só nossa relação participante e não indiferente ao outro tem a força enunciativa para encontrar outro percurso, alternativo a esse que vislumbramos aterrorizar o anjo da história, porque fundado no amor pelo outro real ao nosso lado, à nossa frente, em nosso entorno.

Visão especialmente gratificante na Educação. Quando uma criança esmaga um piolho de cobra, pergunta ao professor: “cobrinha faz xixi? ”e, em meio às outras 20 e tantas crianças e suas curiosidades e/ou necessidades, ele pára - mesmo que essa pausa seja interior - para acomodar a ampliação que ocorre em seu mundo no mesmo momento, quando a escuta responsivamente, por sua não indiferença a ela.  Essa escuta que responde, ampliando seu mundo, produz um conhecimento que não cabe na lógica cartesiana da ciência, precisa de outra ciência.

Também o contexto político – o golpe político-jurídico-midiático – pelo qual vivíamos quando organizamos este evento (e continuamos vivendo nos dias atuais) influenciou a escolha do tema. Como resistir à escatologia política? Precisávamos saber de outros se e como as narrativas, os corpos e os risos, os quais são temas intensos em Bakhtin e círculo se revelam e revelam resistências à escatologia política. E se assim é para eles, como lidam com a vida por meio de suas narrativas, seus corpos e seus risos? Sabemos que nessas expressões já se anuncia uma heterociência e esse anúncio é singular. Como construímos, juntos e cada um, uma ciência outra?

Diante da urgência em se discutir esse tema e das potentes conversas possíveis a partir dos encontros no IV EEBA, decidimos, além de publicar a materialidade do que cada sujeito levou para o encontro nos anais do Encontro de Estudos Bakhtinianos (GRUBAKH, 2017), reunir textos de pesquisadores que são referências nos estudos bakhtinianos neste livro. Tomamos essa decisão na certeza da importância dessas reflexões para a construção de outros modos de fazer ciência, já que os textos reunidos aqui nos ajudam a compreender como narrativas, corpos e risos podem vir a construir uma heterociência.

Esclarecemos que, por escolha dos organizadores, e em escuta responsiva às opções de cada um dos autores deste livro, optamos por manter as decisões dos autores quanto às referências, traduções e opções linguísticas em cada um dos textos, abrindo mão do critério de manter uma padronização na publicação.

Guilherme Prado, em seu texto O trabalho com narrativas e a perspectiva heterocientífica – uma aposta dialógica!,  destaca, no âmbito de uma heterociência, a narrativa como modo de produzir formação e conhecimentos. O autor nos diz que a partir da narrativa como gênero discursivo a compreensão dos objetos e conteúdos de ensino e o ato de compreendê-los "na relação com os sujeitos que constituem e são constituídos pela Educação, inserem-se em um modo responsivo do ser-evento produtor de atos e em atos responsivos e responsáveis".

Também Liana Serodio escreve sobre as narrativas numa perspectiva heterocientífica, no texto Narrativas como atos ético-estético-cognitivos de resistência dialógica hetero-formativa. A autora traz aspectos da compreensão dialógica, da impossibilidade de neutralidade, das interações de consciências equipolentes e imiscíveis, o eu-para-si e o eu-para-si-com-o-outro, além de abordar elementos da interação discursiva da escrita, cotejando com duas narrativas e uma metanarrativa.

Augusto Ponzio, ao escrever o texto É o diálogo que faz história, revela que "só a partir da Alteridade, da inevitável relação intercorpórea com o outro, e não novamente da afirmação abstrata da Identidade é possível imaginar um desenvolvimento da História". Ponzio chama atenção para o fato dos corpos dos interlocutores já estarem em relação antes mesmo que do encontro de suas palavras. Nesse sentido, traz o diálogo como consequência da interação, afirmando que sem o corpo a razão é monológica.

Também reconhecendo as relações dialógicas humanas como relações corporais, Valdemir Miotello pontua, em número e prosa, a importância que sentimos concretamente do riso aberto, do riso coral, do riso com o outro. Em Falando do riso... rindo da fala, ele nos mostra que o “riso possui uma ligação indissolúvel com a liberdade”, pois “obriga a liberdade a se instaurar”, refletindo sobre a linguagem que nos constitui e está presente em nossa interação cotidiana ou não.

 Com o texto Corpos Grotescos: linhas gerais da filosofia política bakhtiniana, escrito por Kátia Vanessa Silvestri, voltamos a dar ênfase à temática dos corpos. A autora começa o capítulo com a questão “O que pode um corpo?” e a partir disso inicia a discussão sobre corpo grotesco em Bakhtin e círculo. Enfatiza que enquanto o corpo individual se define pelo acabamento e o isolamento, o corpo grotesco se define pela incompletude, pela abertura "criado pelo ato responsável exigido pela alteridade", daí o corpo grotesco ser a imagem que Bakhtin utiliza para a conexão entre diálogo e corpo. Durante sua reflexão problematiza a questão "como, em meio às relações vazias, promovidas por uma vida líquida, imposta pelo ponto de vista dominante (PONZIO, 2009) o corpo grotesco se articula?".

Aline Manfrin, em A contribuição do riso carnavalizante do programa GregNews para a compreensão da linguagem em movimento e a desconstrução de verdades, ao analisar o programa GregNews[3] revela o "riso como elemento de resistência e luta para a possibilidade de compreensão dos sentidos em movimento, por meio da identificação das forças centrípetas e centrífugas". Suas compreensões nos despontam a necessidade de revelar também as forças centrífugas presentes na linguagem para a construção de uma heterociência, seja por meio do riso ou não.

Luciano Ponzio, partindo da palavra, como um signo verbal que evoca imagens, propõe uma discussão apoiado na linguística para produzir algumas reflexões entre imagem e palavra. Para o autor o sentido da linguagem poético-literária não reside, portanto, na literalidade da prosa, mas na literariedade, nos procedimentos textuais e nas estruturas narrativas da enunciação e da escritura literária, dando forma à obra.

No texto A transciência não é ortodoxa, mas incorpora a ortociência, Adail Sobral defende uma transciência como modo de fazer ciência nas ciências humanas. O autor revela porque a ciência com sua verdade universal não dá conta de tudo. "No plano em que há objetos generalizáveis e agentes não generalizáveis, as coisas se complicam e requerem outra ciência, não o fim da ciência". Nesse sentido, discorre sobre a necessidade de considerar os contextos específicos de realização das ações, para apreendê-los no plano do inteligível, preservando as singularidades.

No texto Corpos grotescos em folia: liberdades em luta e resistências às escatologias na cultura popular, Pajeú discute a partir do pensamento de Bakhtin os modos pelos quais os corpos grotescos se materializam na festa de carnaval do Recife para que os sujeitos vivenciem suas liberdades, transgridam a ordem dada e resistam às escatologias da oficialidade. Para tanto, busca nas manifestações do Boi de Carnaval, a partir da narrativa de Catirina e Mateus, como se dá a degradação, o rebaixamento, o despedaçamento, a inversão, o destronamento das alegorias do poder, da moral e dos costumes ortodoxos, aos serem virados do avesso e materializados nos corpos em festa que carnavalizam, subvertem, destronam e consolidam contrapalavras e lutas sociais no orbe da cultura popular.

Guilherme, Liana, Augusto, Kátia, Aline, Luciano, Miotello, Adail e Pajeú compartilham conosco modos outros de pensar e fazer pesquisa em ciências humanas, revelam esses pensares-fazeres a partir do pensar-fazer narrativamente, corporalmente e risivelmente. Modos esses que não se constroem com uma única consciência que objetificou as outras, mas com muitas consciências em interação (BAKHTIN, 2015). Narrativas, corpos e risos nos revelam a possibilidade de pesquisar não sobre um terceiro indiferente, mas com os sujeitos da pesquisa, com a multiplicidade de vozes e consciências equipolentes porque plenivalentes. Esperamos que assim como nós, vocês, leitores, também possam construir reflexões e movimentos em diálogo com os textos aqui reunidos, em busca de uma ciência outra, de uma ciência com.

 

Vanessa França Simas

Liana Arrais Serodio

Heloísa Martins Proença

Guilherme do Val Toledo Prado

Ruy Braz



[1] GRUBAKH: “Grupo Bakhtiniano” que estuda a filosofia bakhtiniana lendo, narrando por escrito e conversando sobre o narrado sobre e com as práticas pedagógicas cotidianas, explicitando os saberes produzidos e conquistados na experiência docente, manifestando inquietudes e revoltas face às condições de trabalho que se instauram, contando as lidas cotidianas.

[2] GEPEC: “Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada”.

[3] GregNews é um programa semanal televisivo, transmitido pelo Canal HBO, um canal no YouTube e em breves chamadas no Facebook.

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