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Das novelas de formação à autonomia docente: entre diversidades, pesquisa e descobertas

Das novelas de formação à autonomia docente: entre diversidades, pesquisa e descobertas

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PREFÁCIO

 

          O livro que agora tenho o prazer de prefaciar reúne um leque diversificado de textos que aliam de forma equilibrada a reflexão e a pesquisa empírica sobre a realidade educativa. Trata-se de um conjunto de trabalhos muito estimulante cujo fio condutor nos é desvendado pela articulação de três palavras-chave: investigação, formação de professores e autonomia docente. Procurarei, de uma forma que pretende ser clara e sintética, destacar os contributos que se me apresentam como mais relevantes em cada uma destas três dimensões.

          No que diz respeito à atividade de pesquisa, gostaria de chamar a atenção para o modo como, na arquitetura deste livro, se implicam num mesmo processo um polo universitário, estabelecimentos de ensino e uma rede de educadores, empenhados em produzir inteligibilidade e melhorar as práticas educativas. Com frequência a investigação educativa e as práticas parecem funcionar em mundos diferentes com fraca capacidade para dialogar entre si. Encarando os profissionais da educação como objetos de investigação, o processo assume a forma de uma transferência de informação, em que os contextos educativos e os atores ficam mais pobres relativamente a um polo de investigação que acumula informação e produz saber. Tendência reforçada quando os investigadores definem como destinatários principais dos resultados de investigação os membros de uma comunidade científica pouco sensível às exigências de pertinência da pesquisa relativamente ao contexto. No caso da presente obra a atividade de pesquisa visa explicitamente tornar possível um fecundo efeito de retroação sobre as instituições e os atores educativos.

          Esta retroação e esta fecundidade estão estreitamente associadas à adoção de um referencial teórico e epistemológico que se distancia de uma perspetiva positivista e se materializa em metodologias de caráter qualitativo que melhor permitem apreender a globalidade e a complexidade sistémica das situações educativas. Permitem também valorizar a escuta por contraposição ao olhar, pretensamente neutro e objetivo, do investigador. No livro agora em apreço, os atores educativos são protagonistas e portanto sujeitos de uma abordagem metodológica que tem como referência fundamental a corrente das histórias de vida, a qual é estruturante do conjunto da presente obra.

          Na continuidade da tradição germânica nas ciências sociais e do trabalho desenvolvido no quadro da Escola de Chicago, a abordagem biográfica assumiu um papel charneira na investigação educacional a partir do último quarto do século XX. A afirmação desta perspetiva metodológica permitiu deslocar o foco das pesquisas do ensinar para o aprender, conferir aos atores educativos um outro e mais rico estatuto epistemológico e alcançar uma outra compreensão do fenómeno educativo a partir da especificidade da praxis individual.

          Um segundo aspeto que pretendo salientar na introdução à leitura e estudo deste livro refere-se à visão que nos é transmitida sobre a importância decisiva da articulação da atividade investigativa com uma conceção abrangente da problemática da formação de professores. O processo formativo é encarado como um processo longo e multiforme de socialização profissional que ocorre na etapa da formação inicial, nas ações de formação continuada e no exercício da atividade profissional. A investigação assume um papel fundamental como eixo estruturante da formação, na medida em que, na continuidade do movimento de Educação Permanente, se consideram os profissionais de educação numa situação de um permanente “inacabamento” profissional que remete para sistemáticas interações entre a prática profissional e a atividade reflexiva. Defende-se que o desempenho profissional deve ser produzido a partir de uma lógica da interrogação. A lógica da pergunta, por oposição a uma lógica de resposta, passa então a funcionar como elemento articulador que é simultaneamente criador de sentido para todo o percurso profissional.

          É sem dúvida um dos aspetos mais relevantes desta obra a proposta de encarar a formação de professores de uma forma distanciada em relação a um modelo de racionalidade técnica que, apesar das retóricas, continua a ser dominante. Assim, a prática profissional deixa de ter o estatuto epistemológico de “aplicação” de saberes previamente adquiridos, para passar a ser o ponto crítico que permite articular de modo fecundo as vertentes da investigação, da formação e da produção de mudanças, entendidas como melhorias dos procedimentos pedagógicos e didáticos em uso. Neste quadro, a formação profissional inicial tem de assumir uma perspetiva estratégica que possibilite um processo de formação permanente ao longo de todo o percurso profissional.

          Numa terceira dimensão, gostaria de assinalar que a fecundidade e pertinência da formação e da investigação são aferidas por referência ao objetivo de proceder a um alargamento da autonomia docente, entendida como um acréscimo de lucidez sobre o trabalho realizado e de um efetivo controlo, pelos docentes, dos modos como trabalham, assim como dos seus efeitos. A formação e a investigação emergem como ferramentas fundamentais para que as situações educativas possam ser problematizadas, a partir de um prévio exercício de desnaturalização, o que permite identificar as margens de liberdade dos vários intervenientes. Essas margens de liberdade, bem como a distância que necessariamente separa o trabalho “prescrito” do trabalho “real”, conferem um caráter de imprevisibilidade às situações educativas. O imprevisível valoriza a importância do recurso ao exercício do zelo profissional, compreendido como a capacidade para de modo criativo infringir normas e rotinas. É em nome desta necessária criatividade por parte dos profissionais de educação que se recusa, para as situações educativas, a perspetiva do “one best way”. As soluções são sempre múltiplas o que implica escolhas estratégicas e informadas, no quadro de comunidades profissionais atravessadas por uma cultura de colaboração e de inovação.

          Finalmente uma última nota para fazer sobressair a preocupação ética que está subjacente a toda a obra. Os problemas educativos são problematizados tendo como referência uma finalidade essencial que se prende com o aprofundamento, em todas as suas vertentes, da construção de um sistema democrático de ensino que respeite o direito de todos os alunos a realizar as aprendizagens essenciais para uma correta inserção social, profissional e cívica. Este mandato democrático da escola terá de corresponder a uma preocupação permanente de todos os atores educativos, com particular relevância para os educadores profissionais.

          Termino dirigindo as minhas sinceras felicitações aos organizadores e autores do livro, cuja temática interessa a públicos vastos e diversos, para quem a sua leitura e estudo se revestirá, por certo, de consequências fecundas e gratificantes.

 

Póvoa de Varzim, 7 de agosto de 2016

Rui Canário

Professor Catedrático Aposentado do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa

Informações Adicionais

Autor Eliane Greice Davanço Nogueira; Léia Teixeira Lacerda [Orgs.]
Ano de Publicação 2016
Páginas 225
Tamanho 16 x 23
ISBN 978-85-7993-344-8

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