Santo Antônio do Alto da Serra PE628029

Santo Antônio do Alto da Serra

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Marcelo Marcolino !@
Santo Antônio do Alto da Serra. São Carlos: Pedro & João Editores,
2020. 250p.
ISBN 978-65-86101-01-0
1. Literatura brasileira. 2.Romance. 3.História de vida.
I. Autores. II. Título.
CDD – B-869.3

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PRIMEIRA PARTE: ALTO DA SERRA

 

O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.

(Willian Shakespeare)

 

1

                                                                                                                                            

– Eu sou Santo Antônio! – clamou alguém do lado de fora da igreja durante a celebração da missa dominical.

Ignorei e dei continuidade à homília, quando fui interrompido novamente.

– Eu sou Santo Antônio! – bradou o homem na entrada da igreja.

Ele veio caminhando vagarosamente pelo corredor, estancou em frente ao altar, fitou-me nos olhos e falou em tom comedido:

– Eu sou Santo Antônio.

 Fiquei paralisado por alguns segundos, enquanto os fiéis agitavam-se em seus bancos. Alguns fizeram menção de retirar o rapaz, mas gesticulei de maneira conciliadora e refutei, tentando manter o bom humor diante daquela situação inusitada:

– Se você fosse Santo Antônio, estaria com quase mil anos de idade.

 O rapaz – vinte e poucos anos, estatura mediana, moreno, cabelos curtos, olhos castanhos escuros, com barba bem aparada –, respondeu de forma enigmática, citando o próprio santo e apontando para meu relógio:

– "O tempo é um vestígio de eternidade".

Após dizer isso, ele retirou-se gargalhando, deixando-nos perplexos e levando-me a refletir profundamente sobre o que ele havia dito. Passado e futuro estão ocorrendo no eterno agora. Desde a infância eu sempre desejei ser padre. Cresci em torno desta mesma Igreja de Santo Antônio no bairro do Alto da Serra, espremida entre as montanhas da cidade de Petrópolis, brincando com meus amigos e atormentando a vida de Padre Alberto, perturbando as missas e as celebrações com nossos gritos durante as peladas no campinho ao lado da igreja.

Gostava de acompanhar minha avó nas missas e secretamente aspirava tornar-me padre no futuro. Fui coroinha por quase toda minha infância e tive de suportar as chacotas dos amigos que compareciam às missas apenas para zombarem de mim. Não demorou muito para que meus avós notassem minha vocação e a incentivassem, matriculando-me num seminário. Quem mais me encorajou foi minha avó paterna, devota de Santo Antônio, que ao invés de rogar por uma esposa para mim, suplicou para que ele a ajudasse em seu propósito. O que ela não imaginou é que o santo mudaria de planos no futuro...

Foi ela, juntamente com meu avô, quem me criou após a trágica morte de meus pais num acidente de carro, quando eu tinha cinco anos de idade. Fui batizado com o mesmo nome de meu avô, que acabou assumindo as funções de pai até sua morte por enfarto quando eu tinha dezoito anos de idade. Foi ele quem me ensinou a apreciar a natureza e as montanhas ao levar-me em suas caçadas, onde permanecíamos por dias, dormindo em grutas e preparando nossa própria comida. Caçadas que terminaram na primeira vez em que eu o acompanhei, quando ele abateu um pobre Jacu que pousara inocentemente numa árvore frutífera. A imagem de penas voando, e a visão da pobre ave morta nas mãos de meu avô foram demais para mim, levando-me a chorar convulsivamente. Depois disso, ele aposentou a espingarda e passamos a acampar apenas por diversão.

Ele sempre bebia vinho durante as refeições e costumava oferecer-me pequenos goles, apesar dos protestos de minha avó.

– Não faça isso, Enzo! Esse menino vai acabar ficando viciado.

– Que nada, minha velha! Meu avô fazia o mesmo comigo e não me tornei alcoólatra – dizia ele.

 Sofri muito com sua morte e acabei herdando, além de seu nome, um belo relógio de pulso. Minha avó acatou o trágico destino com resignação e criou-me de forma admirável, investindo toda sua energia em tornar-me padre, pois, assim, segundo ela, eu estaria protegido das mazelas da vida. Ela teve a boa fortuna de receber a comunhão de minhas próprias mãos, e pude notar em seus olhos marejados a emoção de ter concretizado o propósito que Deus lhe conferiu. Mas da mesma forma que minha amada avó recebeu do seu único neto a hóstia sagrada, também ouviu de meus lábios sua extrema-unção dois anos depois, lúcida e com a consciência tranquila do dever cumprido.

Nunca me apaixonei, mas tive pequenos namoros que nunca chegaram a consumar-se sexualmente. Então, mantive-me virgem até minha ordenação, para espanto de meus amigos que viam o sexo como o grande propósito de suas vidas. Fui conhecer a paixão quando Sandra, uma bela morena de olhos negros começou a trabalhar na secretaria da igreja. Fomos amigos de infância e nunca nos envolvemos sentimentalmente, mas a paixão às vezes permanece latente, feito brasa de fogueira aguardando uma brisa para incendiar-se novamente. E a brisa surgiu em pequenos gestos, uma leve inclinação de cabeça, um sorriso discreto, uma gargalhada contagiante, uma mão pousada delicadamente em meu ombro, o perfume de seu cabelo e olhares furtivos, carregados de volúpia e culpa por ela ser casada e principalmente pela minha condição celibatária. Mas o que são convenções e moralismo diante da paixão? Somente conceitos que o espírito entorpecido dissimula, utilizando subterfúgios para levar adiante seu propósito, mesmo que isso crie incontáveis sofrimentos.

Inconscientemente, ou não, passei a retribuir seus gestos, mas é quase impossível afirmar quem deu início ao flerte. Passei a frequentar a secretaria com mais frequência e sempre procurava pretextos para aproximar-me dela, somente para sentir seu perfume ou tocar, mesmo que levemente, em sua mão. Como fui ensinado em minha formação religiosa, eu deveria ter reprimido e mortificado esse sentimento no momento em que surgiu, mas sequer cogitei isso, pois no início eu pensava tratar-se apenas de um sentimento de carinho, como tinha por outras mulheres da paróquia. Não reparei nas nuvens negras aglomerando-se no horizonte, na tempestade que se aproximava. A tormenta chegou numa tarde, quando Sandra foi até a casa paroquial levar alguns documentos para eu assinar. Fomos até meu escritório e após eu ter assinado os papéis, dirigimo-nos para a saída através da cozinha, onde uma garrafa de vinho repousava tranquilamente sobre a mesa, aguardando que seu envelhecimento fosse interrompido e conquistasse a liberdade através de nossos paladares.

– Aceita uma taça de vinho? – ofereci de forma casual.

– Será que devemos? – indagou ela, confusa e com um sorriso nervoso.

– Por que não? – respondi, trêmulo e em tom ardiloso.

Abri a garrafa, que estava reservada para ser levada à igreja onde se transmutaria no Sangue de Cristo, enchi as taças, ergui na direção de Sandra, que retribuiu o gesto. Brindamos silenciosamente, demos um longo gole no Cabernet Sauvignon, e, nesse momento, nossos olhares se cruzaram. Baixei o olhar em direção às taças, tomei a taça de sua mão, depositei-as sobre a mesa e nos beijamos apaixonadamente como dois amantes inconsequentes, indiferentes à brincadeira dos moleques no campinho que ficava ao lado da casa paroquial.

A atmosfera romântica foi interrompida quando uma bola de couro encardida invadiu a janela da cozinha feito um bólido, derrubando a garrafa, quebrando-a e espalhando o precioso líquido no chão, ao mesmo tempo em que nos repelimos como dois polos opostos. Afastei-me e surgi feito um raio na janela, a tempo de ver os garotos pulando o muro em direção à rua e ver Sandra caminhando apressada através do campinho em direção ao portão. Fui até a lavanderia, peguei balde, vassoura e pano de chão e comecei a catar os cacos, a secar o vinho que escorria por entre o rejunte do piso formando um pequeno rio de veias expostas. Seria impossível transformar aqueles cacos em garrafa novamente, da mesma forma que minha vida jamais poderia retornar ao que era antes daquele acontecimento. Terminei a limpeza em meio ao torpor, fui até o pequeno oratório, ajoelhei-me e comecei a rezar o Pai Nosso compulsivamente, mas as palavras ecoavam vazias e um sentimento de hipocrisia começou a dominar-me à medida que ia rezando.

– Pai nosso que estás nos céus... – suplicava, tentando manter as contas do terço em minha mão trêmula de aflição, repetindo várias vezes a parte mais adequada para aquele momento.

– E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal...

Acabei deixando o terço de lado, levantei-me e desabei desanimado na poltrona que ficava em frente ao altar, tentando organizar meus pensamentos. De que adiantaria fazer penitência se, ao terminar, o desejo retornaria à minha mente? Passei a vida reprimindo o desejo e de que adiantou todo esse sacrifício? Será que existe alguma sabedoria por trás desse gesto? Não seria melhor tentar compreendê-lo ao invés de reprimi-lo?

Fiz um esforço enorme para levantar-me do sofá e fui à igreja para celebrar a missa da noite. Arrastei-me até a sacristia, vesti a batina, que caiu sobre meu corpo como se fosse uma armadura, mas não como a armadura de Deus, que, segundo o Novo Testamento, tem o significado de resistir no dia mau e manter inabalável, e, sim, devido ao peso que representava para mim naquele momento. Entrei na igreja de forma mecânica, fiz a reverência em direção ao altar e girei em direção aos fiéis disfarçando minha vergonha e engolindo minha angústia. O canto inicial ajudou-me a acalmar-me um pouco, mas interiormente eu tentava manter a fé e suplicava a Deus que me guiasse na escuridão. No intervalo, entre o fim do canto e o início do sermão, uma voz familiar vindo da entrada da igreja quebrou o silêncio.

– Eu sou Santo Antônio!

Todos olharam para trás ao mesmo tempo, como se suas cabeças houvessem sido puxadas por uma corda invisível, e voltaram seus olhares para mim novamente, numa coreografia sádica, aguardando minha reação.

Teco, um homem que sofria de uma compulsão bizarra por fazer piadas nos momentos mais inapropriados, e que se arrependia logo em seguida fazendo o sinal da cruz, não se conteve e retrucou:

 Se você é mesmo Santo Antônio, arrume um marido para minha irmã.

– E uma esposa para meu primo! – acrescentou uma gaiata.

Uma gargalhada generalizada ecoou e o caos se instalou na igreja. Meu primeiro impulso foi voar no pescoço do rapaz e escorraçá-lo dali, mas respirei profundamente, cofiei a barba tentando transmitir serenidade, olhei para os fiéis que mantinham seus olhos vidrados em mim e ameacei:

– Se você continuar tumultuando minhas missas, eu serei obrigado a chamar a polícia.

– E por que eu seria preso dentro de minha própria casa? – desafiou-me, fitando-me candidamente.

Antes que eu pudesse responder, ele retirou-se sorrindo, escoltado por dois fiéis. Dei continuidade à missa, encerrei-a sem mais interrupções e fui para a casa paroquial, onde tentaria conciliar o sono com as turbulências do dia.

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