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Leituras: ficções, realidades

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João Wanderley Geraldi !@
Leituras: ficções, realidades. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 314p.
ISBN 978-85-7993-577-0
1. Leituras. 2. Registro de leituras. 3. Ficções, realidade. 4. Autor. I. Título.
CDD – 410

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INTRODUÇÃO

 

 

A ideia de registrar leituras é muito antiga. Macróbio, em As Saturnais, livro publicado no começo dos anos 100 de nossa era já o fez, com o objetivo de que seu filho, que queria fosse também leitor, pudesse partir de onde ele estaria parando. Deixava, pois, registrados os livros lidos e, obviamente, nestes registros suas posições pessoais não só a propósito dos livros, dos seus temas e dos autores: sempre que um registro é feito, ele é permeado pela percepção e pela compreensão construída pelo leitor. E certamente nesta linha hereditária que inspirou As Saturnais há um sonho de impossível realização: a leitura de tudo o que há disponível, o mesmo sonho compartilhado pelas bibliotecas do passado – conter em seu acervo tudo o que foi publicado. Ambos são sonhos irrealizáveis e por isso mesmo devem estar no horizonte: o que é um irrealizável no presente não deixa de ser um possível no futuro. Certamente no que tange à leitura por um único indivíduo, isto jamais se realizará. Mas com a internet e com os arquivos “nas nuvens”, talvez o sonho de uma biblioteca que contenha tudo esteja mais próximo de realização do que poderíamos imaginar há uns 30 anos.

Registrar leituras: este passado tem seus continuadores nos tempos presentes. Ítalo Calvino publicou seu “Por que ler os clássicos?” em que registra suas leituras das obras como convite à leitura dos livros. Mais recentemente o escritor argentino Ricardo Piglia publicou também o seu livro de registros de leituras, El ultimo lector. Publicar leituras ou o registro do que se leu é um convite à leitura.

Aqui estarão reunidos meus textos a propósito de livros. O subtítulo “ficções, realidades”, assim mesmo, com uma separação por vírgula para criar a ambiguidade, onde “realidades” pode ser compreendido como um qualificativo de ficções, apontando-lhes o quanto contêm da realidade quanto pode remeter a gêneros discursivos distintos: os livros de ficção a que chamamos “literatura” e os livros que se esforçam por falar sobre o mundo, descrevê-lo e compreendê-lo, o que também chamamos de “literatura” e mais recentemente de “referências” para ir deixando que a expressão remeta somente a obras que narrando o que não houve nos trazem categorias com que compreender o que houve e o que é.

O filósofo Byung-Chul Han (um de seus livros será aqui comentado) ao recuperar a quimera kantiana de uma “paz perpétua” baseada em valores universais que a razão imporia a si mesma, lembra que Kant também disse que a instauração da paz poderia se dar através do “comércio” que é incompatível com a guerra. No entanto, no Fausto, Goethe disse:

 

Seria necessário que eu nada soubesse de navegação:

Guerra, comércio e pirataria são três coisas numa só

Impossíveis de separar.

 

Assim, enquanto o filósofo imagina um mundo com uma paz perpétua (e seus ensaios não são considerados “ficção”), o poeta que lida com matéria imaginada, com a criação, diz mais sobre a realidade do mundo do que a aposta do filósofo. O comércio é conduzido pelo “poder do dinheiro” e quando o poder do dinheiro comanda o mundo, nenhuma paz pode estar no horizonte visível. Toda globalização está a mostrar guerras e mortes, jamais uma paz em que se possa apostar como definitivo ambiente de vida e de experiência.

Assim, meu subtítulo quer recuperar um pouco isso: que na imaginação do poeta há muito de realidade (alguém disse que a literatura não é o reflexo do real, mas o real deste reflexo) e que os esquemas de pensamento com que tentamos compreender o vivido, incluindo aí o que temos chamado de ciências duras, têm muito de ficção, de analogia, de metáfora.  

Por isso, os textos aqui reunidos não serão divididos em dois grupos. Simplesmente aparecerão numa ordem aleatória, em que as literaturas (de ficção e supostamente de realidades) aparecerão justapostas, próximas, mantendo, na verdade, a distância entre um e outro texto tomado aqui como objeto. Porque um e outro livro lido são estrangeiros entre si, um é constitutivo dos outros e por eles constituído. E todos merecem a hospitalidade.

 

E que me seja bem-vindo aqui todo o que está em devir, todo o que anda errante, o que está em busca, o que é fugaz! Doravante, a hospitalidade será a minha única amizade. [...] Acabaremos sempre por ser recompensados pela nossa boa vontade, pela nossa paciência, pela nossa equidades, pelo nosso afeto pelo estranho, enquanto o estranho é lentamente despojado do seu véu e se faz presente como uma nova beleza indizível: tal é o seu modo de agradecer a nossa hospitalidade (Nietzche, apud. Byung-Chul Han).   

 

Hospedar a palavra alheia, a ela emendar ou justapor as nossas palavras: a alteridade vive da hospitalidade; a hospitalidade vive da responsabilidade para com o outro, para com sua voz, para com sua linguagem. Hospedar implica escuta, esta implica silêncio, mas jamais o silêncio da escuta, enquanto hospitalidade, pode significar o emudecimento, o silêncio dos cemitérios. Hospedar é escutar e falar. Deixar o Outro aparecer para que o Eu possa existir com as palavras que compartilham no processo de constituição de ambos. A hospitalidade ancora, sabendo que é lugar de passagem.

Por fim, é preciso registrar que as crônicas sobre livros de literatura aqui publicados foram postadas, em diferentes datas, no último ano, no blog (blogdogeraldi.com.br) que venho mantendo junto com outros colaboradores, particularmente com a colaboração e tutoria de Alexandre Costa, da Universidade Federal de Goiás. As resenhas de livros, quando publicadas em outras revistas, a indicação é dada em nota de rodapé.

 

Barequeçaba, setembro de 2018.

 

 

João Wanderley Geraldi

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