Vis√Ķes do Texto PE69
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Vis√Ķes do Texto

Ref.: PE69 Compra Segura

Autor Luciano Ponzio !@
Ano 2017
P√°ginas 274
Tamanho 14 X 21
ISBN 978-85-7993-392-9

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APRESENTAÇÃO

UMA SEMI√ďTICA DIAL√ďGICA

Jo√£o Vianney Cavalcanti Nuto


     O que ‚Äúsignifica‚ÄĚ uma obra de arte? Como podemos compreend√™-la em sua especificidade art√≠stica? O que uma composi√ß√£o art√≠stica nos convida a ‚Äúver‚ÄĚ? Luciano Ponzio discute esta complexa quest√£o a partir da no√ß√£o de texto art√≠stico como texto de afigura√ß√£o ou escritura. Seguindo os conceitos da Semi√≥tica ‚Äď privilegiando o pensamento de Peirce, mas sem deixar de dialogar com a Semiologia de Barthes e reflex√Ķes de pensadores como L√©vinas, Deleuze, Merleau-Ponty, Blanchot, entre outros ‚Äď, este livro parte da concep√ß√£o de texto como qualquer organiza√ß√£o de signos (verbais ou de qualquer outra natureza) dotada de sentido. Para analisar as caracter√≠sticas e efeitos do texto art√≠stico, Luciano Ponzio distingue a forma de composi√ß√£o e as potencialidades de sentido dos textos elaborados esteticamente (textos de afigura√ß√£o), em contraste com os textos voltados para a comunica√ß√£o pragm√°tica (textos de representa√ß√£o). Partindo da dicotomia, proposta por Bataille, entre olhar e vis√£o, o autor dialoga com Peirce e L√©vinas, observando certa rela√ß√£o de uma duplicidade do signo ic√īnico com o seu referente, em que esse tipo de signo n√£o apenas aponta para o referente, mas se transforma, de certa maneira, em seu duplo (o que n√£o quer dizer c√≥pia), em um processo de afigura√ß√£o que extrapola a fun√ß√£o de representa√ß√£o. Esse transbordamento afigurativo √© que amplia ‚Äď invocando as concep√ß√Ķes de Bataille ‚Äď o olhar, gerando a vis√£o. Seguindo a concep√ß√£o de L√©vinas, Ponzio define o texto de escritura (ou de afigura√ß√£o) como aquele que ultrapassa a remiss√£o ao significado convencionado.

     Ao longo de todo o livro, Ponzio trava um di√°logo com Mikhail Bakhtin ao associar os conceitos de representa√ß√£o e afigura√ß√£o com a classifica√ß√£o dos g√™neros do discurso em prim√°rios (da vida quotidiana) e secund√°rios (de elabora√ß√£o mais complexa, oriundos de rela√ß√Ķes sociais mais formalizadas). Por essa distin√ß√£o, os textos pragm√°ticos de circula√ß√£o quotidiana s√£o textos prim√°rios, de significa√ß√£o un√≠voca, fechada; j√° os textos art√≠sticos, dos mais densos entre os textos secund√°rios, permitem uma multiplicidade de sentidos, que transcende o momento hist√≥rico de sua produ√ß√£o e a pr√≥pria rela√ß√£o com as circunst√Ęncias biogr√°ficas de seu autor. A partir dessa distin√ß√£o, Ponzio concentra suas reflex√Ķes nas caracter√≠sticas do texto art√≠stico, com base no princ√≠pio de que o complexo permite elucidar melhor o simples; e tamb√©m, concordando com Kierkegaard, com a no√ß√£o de que a aparente simplicidade de certas composi√ß√Ķes art√≠sticas n√£o √© espont√Ęnea, mas laboriosamente alcan√ßada. Contudo a distin√ß√£o entre texto comum e texto art√≠stico n√£o implica, de maneira alguma, uma abordagem formalista. N√£o se trata ‚Äď como no Formalismo Russo ‚Äď de apontar uma ess√™ncia imanente do art√≠stico pelo contraste puramente formal com o n√£o art√≠stico. Seguindo a vis√£o dial√≥gica ‚Äď em que Bakhtin √© uma refer√™ncia constante ‚Äď Luciano Ponzio tem sempre em mente a concep√ß√£o discursiva de enunciado, ainda que utilize muito mais a palavra ‚Äútexto‚ÄĚ. Trata-se de analisar o texto n√£o apenas como uma composi√ß√£o formal, mas como um ato ‚Äď e uma potencialidade de ato, j√° que uma composi√ß√£o textual prev√™ a gera√ß√£o de sentidos diversos em futuras leituras, sendo somente por meio de sua realiza√ß√£o como discurso que a composi√ß√£o textual ganha sentido.

     O di√°logo com Mikhail Bakhtin conjuga-se com outra presen√ßa marcante em Vis√Ķes do texto, como artista e pensador: Kazimir Malevitch. Ao analisar a arte de Malevitch, com a teoriza√ß√£o do artista sobre a pr√≥pria obra, o Suprematismo, Ponzio reflete sobre o processo de afigura√ß√£o como transbordamento do signo ic√īnico em rela√ß√£o ao referente. A pintura, como texto de escritura, n√£o visa a simplesmente representar o ‚Äúreal‚ÄĚ na tela, mas a recri√°-lo. Assim, a afigura√ß√£o pict√≥rica cria uma nova realidade, cuja rela√ß√£o com o referente representado pode ser muito t√™nue, ou mesmo ausente, em que a vis√£o do autor-artista transfigura o olhar do autor-pessoa. Cabe ao contemplador do texto de afigura√ß√£o compreender a vis√£o (em termos de Mikhail Bakhtin, o objeto est√©tico) da arquitet√īnica da obra, em vez de detectar, na obra, o objeto do olhar, pois isso, quando poss√≠vel, deturpa a afigura√ß√£o, reduzindo-a √† representa√ß√£o. A representa√ß√£o de um cachimbo na tela n√£o √© um cachimbo, como adverte o famoso quadro de Magritte; por outro lado, cobrar do autor-artista a confirma√ß√£o verbal de que ‚Äúisto √© um galo‚ÄĚ (ironia de um personagem de D. Quixote com a not√≥ria incompet√™ncia de um pintor) √© querer reduzir a vis√£o ao olhar, a afigura√ß√£o √† representa√ß√£o, a alteridade √† identidade. Por outro lado, em conson√Ęncia com L√©vinas e Malevitch, Ponzio observa, no texto de afigura√ß√£o, uma potencialidade performativa, criadora de uma realidade puramente s√≠gnica, que se acrescenta ao mundo representado. Essa potencialidade performativa tamb√©m t√™m consequ√™ncias ideol√≥gicas, pois, em vez de simplesmente reproduzir a ideologia est√©tica vigente, o inacabamento do texto de afigura√ß√£o a p√Ķe √† prova e a questiona.

     Prosseguindo seu di√°logo com Bakhtin, Ponzio reflete sobre a responsabilidade √©tica dos atos gerados tanto na produ√ß√£o quanto na recep√ß√£o do texto art√≠stico. Por essa reflex√£o, o autor passa a examinar a responsabilidade espec√≠fica do texto de escritura. Para Ponzio, os textos prim√°rios envolvem a responsabilidade que Bakhtin ‚Äď em Para uma filosofia do ato respons√°vel ‚Äď denomina ‚Äúresponsabilidade especial‚ÄĚ, isto √©, uma responsabilidade puramente t√©cnica, o que permite que os textos prim√°rios sejam facilmente substitu√≠veis, pois s√£o textos que respondem por fun√ß√Ķes meramente comunicativas, abrangendo sentidos bem especificados e limitados. J√° o texto art√≠stico, por sua densidade est√©tica, envolve uma responsabilidade n√£o transfer√≠vel a outros textos. A responsabilidade do texto art√≠stico est√° diretamente ligada √† sua abertura semi√≥tica, pois esse tipo de texto n√£o prop√Ķe simplesmente transmitir informa√ß√Ķes, nem oferecer um enigma a ser decifrado, mas, no dizer do escritor Osman Lins, deflagrar sentidos. Trata-se de uma responsabilidade que adv√©m n√£o somente do autor-pessoa (quem escreve e publica), mas daquele elemento intr√≠nseco e fundamental, para a realiza√ß√£o das potencialidades do texto art√≠stico, que Bakhtin denomina autor-criador.

     Ainda seguindo Bakhtin, demonstra Ponzio que a afigura√ß√£o s√≥ √© poss√≠vel por meio do distanciamento est√©tico (exotopia): o autor-pessoa cria o autor-criador quando, de certa forma, consegue distanciar-se da imers√£o nas pr√≥prias circunst√Ęncias, para assim ter uma vis√£o global, uma arquitet√īnica, que ultrapasse a mera representa√ß√£o do objeto. √Č esse distanciamento, com o excedente de vis√£o que dele resulta, que permite a cr√≠tica √† ideologia automatizada nos textos de representa√ß√£o. Ciente de que uma obra s√≥ se realiza plenamente em processo dial√≥gico, Ponzio chama a aten√ß√£o para o fato de que um texto de afigura√ß√£o (texto de escritura) pode ter seu potencial empobrecido por uma leitura prim√°ria, aquela que busca, em um texto de escritura, somente a representa√ß√£o, leitura redutora que contamina at√© mesmo certas abordagens cr√≠ticas; leitura que reduz a obra de arte ao transferi-la para o mundo dos objetos, j√° que o sentindo art√≠stico transcende a pura fun√ß√£o pragm√°tica, em um transbordamento est√©tico que pode ser encontrado at√© mesmo em certos utens√≠lios. Seria, portanto uma trai√ß√£o √† riqueza art√≠stica de uma obra l√™-la buscando o sentindo un√≠voco de um texto de representa√ß√£o, o que equivale tamb√©m a reduzir sua responsabilidade plena √† responsabilidade t√©cnica. Contudo, isto n√£o significa que o autor defenda a contempla√ß√£o da obra art√≠stica como pura frui√ß√£o, associando-a diretamente √† no√ß√£o de ‚Äúarte pela arte‚ÄĚ. A riqueza e densidade de sentidos de uma obra implica uma rela√ß√£o entre arte e vida, que, segundo Bakhtin, n√£o √© mim√©tica, mas √©tica. O leitor do texto art√≠stico deve responder ativamente √† experi√™ncia est√©tico-√©tica, incorporando-a √† pr√≥pria vida (n√£o necessariamente de maneira direta e pragm√°tica), em vez de adotar a postura puramente hedonista de fruidor.

     Igualmente em di√°logo com Bakhtin, Ponzio defende que a contempla√ß√£o art√≠stica n√£o √© mera ‚Äúrecep√ß√£o‚ÄĚ ‚Äď termo que implica uma no√ß√£o de simples transfer√™ncia de um sentido completamente dado ‚Äď mas compreens√£o responsiva. Compreender, neste caso, n√£o √© apenas assimilar o texto, mas estabelecer uma rela√ß√£o dial√≥gica em que a alteridade do leitor lhe agregue sentidos potenciais. Trata-se, portanto, de (utilizando um termo de Bakhtin), tornar-se autor-contemplador. As reflex√Ķes semi√≥ticas de Vis√Ķes do texto ultrapassam a no√ß√£o de texto como mero tecido de signos, como sistema abstra√≠do das intera√ß√Ķes da vida social ‚Äí- limita√ß√£o de uma vis√£o estruturalista que Bakhtin critica ‚Äí- em fun√ß√£o de um estudo da linguagem que contemple a enuncia√ß√£o. Ao privilegiar a dimens√£o interpretativa da Semi√≥tica de Peirce em di√°logo com o pensamento de Bakhtin ‚Äí demonstrando que as reflex√Ķes de Bakhtin sobre o texto verbal tamb√©m se aplicam a outros meios semi√≥ticos ‚Äď Luciano Ponzio nos oferece uma semi√≥tica que explica o fen√īmeno do texto art√≠stico em seu dialogismo. Uma semi√≥tica dial√≥gica.

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