Procurando uma palavra outra PE15
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Procurando uma palavra outra

Ref.: PE15 Compra Segura

Autor Augusto Ponzio !@
Ano de Publicação 2010
P√°ginas 176
Tamanho 16 x 23
ISBN 978-85-7993-026-3

R$ 45,00 R$ 35,00 Em até 3x de R$ 11,67 sem juros

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Eu digo aos meus alunos que me perguntam como ler os textos que "s√£o cobrados nas provas", que existem quatro tipos de leitura. A primeira √© a leitura da crian√ßa na escola prim√°ria, que √© uma simples sonoriza√ß√£o, ortogr√°fica ("Como l√™ bem; olha como l√™ bem; faz at√© pausa no ponto e na v√≠rgula!"). Depois tem a leitura com os olhos. A leitura de passagem, intermedi√°ria, do semialfabeto ou do semianalfabeto: voc√™s devem ter visto algu√©m que l√™, no trem, no √īnibus, na sala de espera, ou que l√™ o jornal; l√™ com os olhos, por√©m fica movendo os l√°bios, porque a passagem √† "leitura silenciosa" n√£o est√° ainda completada.

N√£o se l√™ s√≥ com os olhos, mas √© necess√°rio o ouvido, e ent√£o o terceiro tipo de leitura √© aquele proibido na escola, proibid√≠ssimo na escola. "Eu vi voc√™; voc√™ levantou os olhos; continua a leitura voc√™  agora; te vi distra√≠do; estava pensando em suas pr√≥prias coisas...!". E eis o terceiro tipo de leitura, levantando os olhos, pensando as pr√≥prias  coisas.  Como,  pensando  as  pr√≥prias  coisas?  Sim. Porque,  se quem l√™ n√£o pensa as pr√≥prias coisas, qual encontro, qual curto circuito pode-se realizar entre o texto e a pessoa que l√™? Se voc√™ l√™ e pensa as pr√≥prias coisas, quer dizer que alguma coisa o texto lhe comunicou. E esse √© o terceiro tipo de leitura.


Depois tem aquele recomendado por S√łren Kierkegaard. Kierkegaard, como se sabe, usava o subterf√ļgio do pseud√īnimo, a polinomia: cada um dos seus livros era atribu√≠do a um pseud√īnimo diferente. Dizia: Eu nunca disse nada daquilo que encontrarem escrito; disseram eles, os autores dos livros que eu simplesmente limitei-me a transcrever e a publicar. Kierkegaard, por√©m, era tamb√©m um pastor, um pastor dinamarqu√™s, um padre. Consequentemente, fazia serm√Ķes na igreja e, quando  decidiu  publicar  Dezoito  discursos  edificantes,  publicou-os  em seu nome. Dirigindo-se aos leitores, escreveu no pref√°cio mais ou menos assim: Quando ler, leia em voz alta, porque assim eu n√£o mais existo, existe voc√™ e a sua voz; logo, √© um di√°logo entre voc√™ e voc√™ mesmo,fazendo com que aquilo que voc√™ est√° lendo se transforme em elemento, mat√©ria, instrumento de discuss√£o com voc√™ mesmo e, ent√£o, n√£o me deve atribuir coisa alguma, ou aprender, ou relatar algo.

Existem alguns alunos que, quando se aproxima o dia da prova, da prova oral, fecham-se em um quarto e leem em voz alta, porque se preparam para despejar na prova o que aprenderam; esta consiste em verificar se tudo foi assimilado ou n√£o; primeiro a ingest√£o, depois o v√īmito. Diz-se "assimilar", que √© uma express√£o relativa √† digest√£o; trata-se de verificar se voc√™ digeriu aquilo que leu. Ler em voz alta, ao contr√°rio, n√£o deve ser entendido no sentido de poder despejar o que se estudou em cima do professor; este, quando a resposta coincide exatamente com aquilo que esperava estimular com a pergunta, fica muito feliz com o vomitozinho que o aluno fez. N√£o. Leia em voz alta, diz Kierkegaard, porque √© como se voc√™ estivesse discutindo com voc√™, mas n√£o dentro de voc√™, em segredo, n√£o com voc√™ mesmo, mas com o outro voc√™. Eu n√£o tenho mais nada a ver. Bem, ent√£o Kierkegaard, n√£o somente quando usa pseud√īnimos, mas tamb√©m quando assina em primeira pessoa, consegue dizer ao leitor: isso √© da sua conta, resolva com voc√™ mesmo, leia em voz alta, escutando a sua voz enquanto l√™, e assim pode ser que voc√™ escute seu outro eu, o outro de voc√™ mesmo. O outro n√£o √© somente o outro em rela√ß√£o a voc√™, mas √© tamb√©m outro voc√™, o outro de cada um. E voc√™ o pode encontrar no momento em que sai do papel, sai do g√™nero, sai da identidade, sai do padr√£o, sai das emboscadas mortais das oposi√ß√Ķes, dos conflitos. Ali se encontra a sua outra palavra.

Existe a outra palavra como palavra do outro em relação ao próprio eu identitário e como palavra de outra pessoa, "o mesmo" e "o diferente", "o diverso" e "o oposto", reduzido também esse, nos lugares da ordem do discurso, ao eu identitário, assimilado, representado, julgado, tolerado, segregado, posto fora de lugar.

Mas  √©  preciso  uma  palavra  outra  para  encontrar  o  outro de  si mesmo, e o outro de si mesmo como outra palavra n√£o represent√°vel, n√£o assimil√°vel, n√£o julg√°vel. √Č preciso a palavra que cala e a palavra que escuta.

Por isso, a palavra que temos que procurar com urg√™ncia, e antes de qualquer coisa, √© essa palavra outra; cada um deve procurar, e deve procurar em si mesmo, perguntar a si mesmo; e n√£o esperar, querer ouvir, exigir, orgulhosamente e com arrog√Ęncia, do outro. Uma palavra outra a partir de si mesmo, uma palavra capaz de ouvir a outra palavra.

Intitulamos esse livro Procurando uma palavra outra. Procura dif√≠cil; demanda dif√≠cil nos tempos contempor√Ęneos.


Bari, 4 abril 2010

Augusto Ponzio

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