Poéticas e políticas da linguagem em vias de descolonização PE100

Poéticas e políticas da linguagem em vias de descolonização

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Alai Garcia Diniz; Diana Araujo Pereira; Lourdes Kaminski Alves (Orgs.)
Poéticas e políticas da linguagem em vias de descolonização. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017. 323p.
ISBN: 978-85-7993-399-8
1. Poéticas da linguagem. 2. Políticas da linguagem. 3. Cartografias descoloniais. 4. Autores. I. Título.
CDD – 410

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APRESENTAÇÃO

 

Alai Garcia Diniz

 

 

Nas últimas duas décadas do século XX, fundaram-se, em muitos Estados do Brasil, associações destinadas a nuclear os professores de Língua Espanhola e de Literaturas Hispânicas que atuavam em diversos níveis de ensino no país. Essas associações desempenharam um papel importante na divulgação e sistematização do trabalho destes professores. Entretanto, com o aumento de cursos de pós-graduação na área, surgiu a necessidade de instituir um espaço apropriado para a divulgação da produção científica do Hispanismo, vinculada, fundamentalmente, às pesquisas de professores e alunos dos cursos universitários de Graduação e Pós-Graduação. A Associação Brasileira de Hispanistas (ABH), criada no ano 2000, foi fundada com o objetivo de congregar @s pesquisador@s brasileir@s do Hispanismo, entendido este como uma grande área focada no estudo das culturas, línguas e literaturas do universo hispânico.

O Congresso Brasileiro de Hispanistas, com uma tradição consolidada pela realização bem-sucedida de nove edições, representa, sem dúvida, o principal evento de alcance nacional que reúne pesquisadores da Pós-Graduação em Língua Espanhola, Literaturas Hispânicas, Cultura Hispânica e Ensino de todas essas áreas.

Ao propor ênfase na interdisciplinaridade e na interculturalidade, voltada para a mediação cultural em ambiente bilíngue ou plurilíngue, contou com a vinda de especialistas de renome internacional para a sua nona edição, cuja realização, em Foz do Iguaçu, ocorreu entre os dias 22 a 25 de agosto de 2016, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Assim, apresenta-se aqui uma obra bilíngue que tenta privilegiar apenas alguns tópicos, sem, contudo, pretender ignorar a riqueza de infinitas contribuições outras que não caberiam em tempo de contingenciamento obrigatório, imposto pelo controverso contexto político vigente.

 

Percurso pelas Geopolíticas descoloniais

 

Dividido em duas partes ou facetas[1], os textos da primeira parte do livro apresentam diferentes perspectivas da descolonialidade, entendendo que por estarem situadas em um espaço e determinado por uma voz, compreendem também uma geopolítica. Descolonizar propõe uma crítica ao poder e ao saber vigentes que adota uma visão monocultural, bem como a seu modelo de racialização. Descolonizar assume uma práxis transformadora e nega o que se aprendeu como comportamento “natural”. Ao assumir a existência de outras racionalidades, outros modos de pensar e agir e, portanto, outras culturas, questiona-se a colonialidade, não apenas através dos estudos de casos concretos de guerra cultural, ousadias em campos específicos como o da crítica literária ou de gêneros que destoam do cânone acadêmico, como discorrem sobre categorias, tais como a que Catherine Walsh denomina como interculturalidade crítica, que visualiza um projeto para dar conta de uma gama de aspectos político-social-epistêmico-éticos.

 O primeiro capítulo, de Catherine Walsh, começa com uma dedicatória a Paulo Freire que traz à baila não apenas um dado autobiográfico (o tempo em que aprendeu a trabalhar com o educador brasileiro, nos EUA), como também todo um questionamento sobre a nova onda opressora para a educação no Brasil (a proposta de uma “Escola sem Partido”).

Entendendo essa proposta como uma das novas colonialidades do poder, Walsh passa a destrinchar os dois conceitos anunciados no título, a partir do que Rolando Vazquez denomina como “verbalidades” que caminham juntas: a interculturalidade e a decolonialidade. A interculturalidade é proposta como ação, luta para descolonizar o pensamento, a vida, um modo de estar, de trabalhar, de educar, por isso os dois termos não podem estar separados.

E neste ensaio encarnado Walsh ousa gritar. E esse grito é transformador porque vem das vozes sequestradas. É resistência. O passeio que Walsh faz pelo México, Honduras, Equador, descendo até o Brasil, a Argentina, etc... cala por mostrar na atualidade uma guerra não convencional que tenta enquadrar sujeitos segundo uma ordem colonizadora. Essa abertura das geopolíticas descoloniais que parte das guerras não convencionais, propõe desmundializações em lugar de globalização, e pluriversidades em lugar de universidades, para arrancar o leitor de sua zona de conforto na contemporaneidade.

O segundo capítulo, de Carlos Bonfim, “Merienda de negros: canto-contar (nos) uma história da negramérica”, propõe uma viagem latino-americana pela canção ou a palavra cantada que contam afro-memórias com a carga de invisibilizações como ponto central, daí que seu mote seja o da escuta do mundo. Passeando por autores ainda desconhecidos para o público brasileiro, tais como os colombianos Alfonso Córdoba; Etelvina Maldonado; Petronia Martínez; a peruana Victoria Santa Cruz; ou o equatoriano Antonio Preciado e mesmo vários brasileiros como o baiano Dinho Nascimento; o gaúcho Giba Giba; os mineiros Sérgio Pererê; etc. a tessitura discursiva de Bonfim parte de conotações pejorativas como a do próprio título e se esgueira por um banzo indignado; mas não pára na questão étnica, pois abrange a cena periférica paulistana com Férrez e algumas das suas referências históricas, tais como Sérgio Vaz, Binho, o Sarau da Vila Fundão, etc ... Nessa trajetória macrocultural latino-americana, Bonfim chega ao local, mostrando caldeirões periféricos em Salvador e lendo como a “potência dos pobres” cria um movimento de revanche contra-hegemônico, o que entra pela marca da geopolítica descolonial.

De Marcos Alexandre é o terceiro capítulo, que dialoga intrinsecamente com o anterior, pois o foco também gira em torno das textualidades afrolatinas. Ainda que, neste capítulo, o traçado do pesquisador seja o de conduzir o leitor a um passeio que se inicia pelo viés da contemporaneidade, em uma via temporal do próximo ao remoto, para circular pela lírica de Cidinha da Silva e Cristiane Sobral à afroperuana Susana Baca, e daí a textos espetaculares como o da dramaturga e diretora teatral, a cubana Fátima Patterson, em leitura diretamente ligada ao corpo da obra. Do poema à dramaturgia, Marcos Alexandre retoma também a lei 10.639/2003 que obriga as escolas a oferecer o estudo da história afro-brasileira, e o que na contemporaneidade passa a ser fundamental num país em que conquistas interculturais como estas vêm sendo solapadas cotidianamente por um governo ilegítimo.

 O autor do quarto capítulo, Damián Cabrera, também escritor contemporâneo, foge à linearidade acadêmica, ao tratar de uma invisibilidade habitual referente ao Paraguai, não apenas no campo da literatura, como da política, da sociologia e da história. Ao configurar sua elaboração metafórica na insularidade, observa-se um gesto discursivo articulado, criativo e liminar a comentários alusivos a este país que grassaram no século XX.

Categorias como as de isolamento, invisibilidade, estranhamento e raridade são alguns aspectos da reflexão de Damián Cabrera, que vai da heterotopia de Foucault às imaginações insulares de Deleuze, chegando ao hibridismo de Bhabha, com a intenção de revisitar a cartografia da mudança de uma península na colônia a uma ilha de perdas territoriais, decorrente de duas guerras ( Contra o Paraguai (1864-1870); Guerra do Chaco (1932-1935)). A partir da cultura, Cabrera reflete sobre os efeitos de força, aparência e potencialidade, assim como as estratégias de resistência, da estética à política, em um diálogo interfronteiriço.

O quinto capítulo, de Diana Araujo Pereira, apresenta um exercício de observação situada que gira em torno de uma leitura do movimento de imaginários que reclama a geocultura (KUSCH), um modo de sentir que fabrica a convivência e mostra a fronteira não apenas como barreira, mas como ponto de encontro, intercâmbio e partilha do sensível... uma geopoética que cria um modo de elaborar o poema em determinado espaço, similar ao que ocorre na literatura periférica, tal como o sarau. Assim, o ensaio trabalha a partir de dois processos criativos de fronteira: a) o dos muros que falam, como é o caso do grupo de Acción Poética Triple Frontera (AP3F), que faz do muro a página em branco a ser tingida com o mural-literário por uma estética minimalista (aforismos) e b) publicações em livros, impressos ou revistas. Como pesquisadora da estética fronteiriça, Diana Araujo Pereira pousou seu olhar no espaço interfronteiriço desde 2010, e hoje esse objeto de leitura tem categorias, um enfoque epistemológico acurado que demonstra o quanto o caminho transcorrido que lê o presente volta-se com um outro olhar para a memória que, mesmo colonizada, necessita de uma estética que aponte a um futuro descolonizado.

No sexto capítulo, Carlos Aguasaco, editor residente em Nova York, enumera os dispositivos para tratar a literatura emergente. Dedica-se a lançar no mercado obras latino-americanas e mostra como os Estados Unidos é o quarto mercado de obras em espanhol. Mas antes de particularizar seu ensaio na qualidade de editor latino-americano nos EUA, discorre sobre a bibliodiversidade que observa a pluralidade da difusão editorial, em geral configurada pelas produções independentes. Chama atenção o modo como Aguasaco alude a um dos objetos mais fetichizados como o livro, segundo ele, um dos “mais massificadores e massificados da modernidade.” Poucos intelectuais tem essa consciência. O escritor e editor também explica como as produções independentes criam ecossistemas literários de experimentação e manualidade, um caso é o das cartoneiras. O grande desafio desses objetos- livro é a distribuição para encontrar seus leitores potenciais. Vale a pena conferir como Carlos Aguasaco, editor acadêmico, estimula novos poetas com a criação do The Americas Poetry Festival of New York . Não percam a leitura desse depoimento vivo!

Como o capítulo sete pertence a mim, limito-me a sintetizar aqui seu ponto crucial: o depoimento de uma docente que criou um grupo de teatro, sob a ditadura, e que volta a conviver com o estudante, hoje reconhecido poeta, Marco Pezão, que, nos anos 70/80, fez parte do grupo Semente, na região sul, subregional do Campo Limpo. Ao pensar o sarau, tenta reunir uma reflexão sobre um sistema literário transnacional e esse fenômeno pós-autônomo da literatura, também chamada periférica em São Paulo que, sob o olhar decolonial, salta do arquivo ao repertório (Taylor, 2013), da fronteira ao local, da corporalidade da escritura ao corpo da performance (Schechner) como categoria analítica (Bianciotti/ Orchetto, 2013) para tentar mostrar uma guerra cultural que traduz uma ótica rizomática, em forma de um palimpsesto, que torna porosos os limiares. A suspeita da mediação e da colonialidade, fincada na ditadura da arte verbal escrita, põe em xeque a autoridade da academia e das elites culturais que, em grande medida, ainda discrimina a presença vocalizada no sarau como parte de seu escopo. Enquanto isso, no confronto com os hábitos impostos pela mídia que torna passivo o sujeito, espectador do mundo, o uso da palavra cantada democratiza os meios de produção literária, criando uma nova safra de escritores, cujo movimento de mercado atrai também novas editoras, ao mesmo tempo, em que inventa a literatura como saúde (terapia?) no cotidiano urbano das megalópoles.

De Lourdes Kaminski Alves, o oitavo capítulo versa sobre o ensaio com um histórico do gênero, desde Michel de Montaigne que arma uma perspectiva feminista quanto ao uso dessa forma na crítica literária. Para tanto, traz à baila as figuras pioneiras de escritoras como a de Rachel de Queiroz; Lucia Miguel Pereira, a especialista na obra de Machado de Assis e pioneira em solidificar o questionamento à censura, à discriminação contra a mulher no bojo das discussões sobre os direitos humanos, e Adalgisa Nery que, além de romancista e poeta, teve pelo ensaio uma queda especial. Vale a pena conhecer o relato de elogios de escritores renomados ao impacto causado pelas primeiras brasileiras, ao trabalho realizado no campo da crítica literária dos anos 30 aos 60.

A partir dessas mulheres o leque se amplia e transcende a fronteira do nacional, entrando também Ana Pizarro, Beatriz Sarlo e Catherine Walsh, o que enriquece sobremaneira o estudo de Lourdes Kaminski Alves.

 O nono capítulo, de Guillermo Mariaca, regressa à estética do grito a que aludia Walsh, pois sugere, em sua densidade, a racialização como característica colonialista e, neste sentido, propõe uma intervenção que una o estético e o criativo e ao ácrata, seja para ir contra (ou pensar sem) o Estado. Paira no texto a dúvida sobre a possibilidade de falar sobre a arte dos povos sem Estado. Seria possível a abolição da colonialidade, da racialização, do capital? Até que ponto não seria o messianismo uma paralisia política? Para Mariaca há formas fetichistas de sedução que carrega a opressão, a exploração e a repressão. Questionando o ecossistema indianista, o messianismo neotribal e o próprio discurso, entre outros temas, o que Mariaca discute é a capacidade de usar a estética em lugar da razão, o significado vazio, e não a decisão discursiva, isto é, a domesticação da linguagem. Em tempos como o de hoje, esse pensamento eivado de ambiguidade entre distintos imaginários abre a janela com uma rajada de ar.

 

 Políticas da Linguagem

 

 A segunda parte da obra descortina a questão que libera as relações entre etnia, gênero e outros elementos sociais que fazem parte das políticas linguísticas como a das políticas que se vinculam, interdisciplinarmente, ao que foi discutido, mas também admite configurar-se, em diferentes perspectivas, a partir do campo da linguagem.

Então, o décimo capítulo pertence ao professor Francisco José Martín, da Universidade de Turim, que penetra na área da língua para pensá-la a partir de sua relação com o pensamento filosófico. E, neste sentido, escrevendo em português, o professor inclui essa língua para referir-se à discriminação corriqueira sobre quais as línguas teriam (ou não) pendor filosófico. Assim, o alemão e o grego clássico seriam línguas privilegiadas com relação à filosofia? E o português e o espanhol? Voltando-se à questão da assimetria entre as línguas, tal preconceito se deve à geopolítica do conhecimento na globalização. Tal dado revela-se inquestionável quanto ao cultivo da filosofia. A partir dessa introdução, o autor reivindica o espaço do exílio para as línguas em que não há o cultivo da filosofia e o faz pensando no caráter filosófico da literatura nestes idiomas exilados. Como se vê, há um debate que se introduz a partir desses pressupostos, agora resta conferir como a literatura ocupa “o lugar do pensamento” (Unamuno).

O décimo primeiro capítulo é do pesquisador mexicano Enrique Hamel “Enfrentando las estrategias del imperio: hacia políticas del lenguaje en las ciencias y la educación superior en América Latina[2]”, que vem para questionar a hegemonia de um imperio lingüístico global no campo científico. Para analisar, escancarar e abrir sua crítica neste mundo lingüístico cerrado e hegemônico, Hamel adota procedimentos da bibliometria. Assim, demonstra como se dá a autoreferencia, a invisibilização e o controle internacional, e como uma política de linguagem que hierarquiza as produções científicas em inglês desterritorializa e oculta autores, pesquisadores e produtos em outras línguas a partir de um tipo de avaliação neoliberal. Como isso contribui para um isolamento entre ciência e sociedade é também um dos temas que o artigo de Hamel aprofunda, entre outras conclusões pertinentes.

 No caso de Xoan Lagares, que escreve o décimo capítulo, o título já traduz a estupefação de um setor da intelectualidade diante da mudança do contexto político brasileiro e que, segundo ele, deixa em suspenso as discussões das políticas linguísticas em andamento durante os anos anteriores. O estado de exceção e a ruptura com a ordem democrática deixa combalida a área e se vale daquilo que Boaventura de Souza Santos chama de “cartografia abismal” para dar conta do impacto social com a operação fascista. Considerando que a questão política se insere na glotopolítica, Xoan Lagares entra na sociolinguística para tratar da polarização entre uma norma culta da elite letrada e a norma da população marginalizada. Sua não existência compromete as relações e inserem, a partir da escolarização, um conflito linguístico em que não se consideram os registros que fogem à norma culta. Durante os últimos doze anos, o fortalecimento do poder de compra da classe C se elevou e isso se reflete na linguagem. Além disso, Xoan trata da ideologia generalizada do monolinguismo, ao lado de um multilinguismo localizado, para apresentar uma proposta de política linguística que estimulasse o bilinguismo e o plurilinguismo, pois o modo como tem ocorrido a atenção localizada de outras línguas dificultariam ainda mais aos grupos minoritários a salvaguarda de seus modos de pensar, viver e habitar a linguagem.

O décimo terceiro texto tem no título uma frase feita “Los argentinos venimos de los barcos” que traduz a branquização proposta no século XIX com uma imigração massiva, a fim de dominar os espaç

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