Palavras e contrapalavras: O Outro singular PE100

Palavras e contrapalavras: O Outro singular

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GEGe UFSCar – Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso !@
Palavras e contrapalavras: o Outro singular. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 165p.
ISBN 978-85-7993-590-9
1. Estudos bakhtinianos. 2. O Outro singular. 3. Palavras e contrapalavras. 4. Autoras/Autores. I. Título.
CDD – 410

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O OUTRO SINGULAR.

TU ME VÊS... EU TE VEJO...

 

Ao procurar compreender os fenômenos que constituem as interações do homem em suas esferas de comunicação, Bakhtin voltou seu olhar enviezadamente às produções que surgem a partir desse contato entre duas consciências ou mais. Para ele o produto que advém dessa interação são textos encarnados em distintas materialidades e recheados de sentidos infinitos. 

Em sua concepção são esses textos que arquitetam o objeto de compreensão das Ciências Humanas, com sua multiplicidade de sentidos e seus cruzamentos ideológicos. Esses frutos da interação em contextos particulares são produzidos e percebidos como um conjunto coeso e heterogêneo de signos e enunciados que evidenciam os aspectos axiológicos do homem, do seu meio e da sua cultura. Nessa perspectiva, o filósofo afirma que o que deve ser de interesse do pesquisador das humanidades é “a história do pensamento orientada para o pensamento, o sentido, o significado do outro, que se manifestam e se apresentam ao mundo somente em forma de texto. Quaisquer que sejam os objetivos de um estudo, o ponto de partida só pode ser o texto” (BAKHTIN, 2003, p. 340).

Destarte, nosso Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso, ao se propor, nesse pequeno livro, compreender o outro e suas singularidades, reconhece que só se pode fazer isso por meio de textos produzidos na esfera discursiva e que materializam posicionamentos no eixo axiológico da vida. Nessa perspectiva, cada autor parte de uma concepção teórico-dialógica a partir de alguns textos cotejados para auscultar a singularidade da palavra outra, compreendendo o diálogo como o lugar propício para se escutar a alteridade, o encontro de palavras, no qual ela não preexiste, mas pelo qual se realiza e vive em sua recíproca singularidade e unicidade.

Em cada texto aqui, pode-se perceber a premissa de que o diálogo não se configura como uma concessão do eu ao outro, posto que a alteridade se imponha de uma maneira tão forte, tão intensa, na constituição da identidade, que os sentidos se completam pelos vestígios de sua ação, uma vez que o outro existe e nos toca apesar de nós mesmos.

Mounier (1973, p.60) ao discutir questões sobre a alteridade diz que “o olhar dos outros rouba-me o meu universo, a presença dos outros detém a minha liberdade [...] O mundo dos outros não é um jardim das delícias. É permanente provocação à luta, à adaptação, incita-nos a ir mais além” (MOUNIER, 1973, p. 60).

Cada texto desse caderno para iniciantes, que já chega no seu décimo volume e constitui um espaço respeitável na grande temporalidade, ao esboçar compreender a singularidade de outrem pelo diálogo, intenta ir além do já dado, busca peregrinar em sua direção, desvendar o que lhe é apropriado na sua totalidade correspondente. Em toda palavra da enunciação que procuramos apreender nos textos aqui, praticamos a correlação de um emaranhado de palavras nossas, de palavras outras, de palavras alheias constituindo uma réplica. Quanto mais profusas forem, mais absorventes serão nossas compreensões.  É exatamente esse processo dialógico que sustenta a interação discursiva em relação a alteridade e consolida uma compreensão respondente, por isso, responsável e singular nas discussões feitas aqui.

Pensar a singularidade do outro, que constitui identidades a partir da diferença, altera sobremaneira a configuração dos papeis dos sujeitos nas interações no mundo ético, eles se constituem diferentes, posto que, tratam-se de sujeitos localizados em cronotopias que exigem o diálogo e a alteridade como forma de organização das suas consciências, e não de seres assujeitados ao já dado, falsamente acabados, empíricos, observáveis, tampouco sujeitos restringidos que submetem o seu mundo e suas condutas à triagens positivistas limitadoras de seus eixos emotivo-volitivos, de suas intencionalidades, de seus projetos discursivos.

 Ao contrário, cada texto desse livro, a sua maneira, procura refletir a posição do sujeito singular sob uma perspectiva alargada, como sujeito ético, aberto ao diálogo, flexível, que procura na unicidade do outro aquilo que lhe falta. Considerando que é pela tomada de posição frente ao mundo que o ato responsável singulariza os sujeitos na arquitetônica da cultura, a partir da posição única que cada um ocupa, de maneira insubstituível, no mundo, enquanto núcleo participativo e não indiferente nos seus arrolamentos com o outro.

Logo, compreender a arquitetônica que constitui a relação eu-outro, requer partir de uma filosofia que reconheça a sua singularidade na produção de sentidos. Tais sentidos, nas interações humanas, circunscrevem os modos de constituição da identidade dos sujeitos, que na perspectiva dialógica de Bakhtin, só pode ser admitida a partir do outro, posto que ele faça parte do existir enquanto evento da vida apesar de mim, logo, a responsabilidade é atributo constituinte da alteridade uma vez que nela a questão do sentido do homem é tratada sob a categoria do outro e não do eu, da alteridade e não da identidade, do ato responsável e singular.

Em Para uma filosofia do ato responsável, Bakhtin ao discutir a singularidade do ato e evento vivenciado, nos alerta que somente “o evento singular do existir no seu efetuar-se que pode constituir essa unidade única. O ato deve encontrar um único plano unitário para refletir-se em ambas as direções”. Somente o reconhecimento do outro na interação singular é capaz de produzir a alteridade pela singularidade. Tal reconhecimento se dá somente pelo ato responsável que singulariza os sujeitos nas suas interações, garantindo suas identidades múltiplas pela entrada da alteridade no jogo ético de constituição das relações subjetivas, em que a concepção de sujeito integral, fechado, dentro de um mundo igualmente teorizado se torna miserável e improdutiva.

O ato responsável é o que se arquiteta de mais absoluto na constituição da identidade do eu, pois ele garante a unicidade, a singularidade dos sujeitos que participam de um diálogo com outros sujeitos únicos, pelo qual exprimem em suas enunciações os feitios da alteridade e da palavra alheia. Essa unicidade não se refere a um sujeito “associal, reduzido a uma entidade puramente biológica, confinado na esfera das necessidades fisiológicas” (PONZIO, 2010, p. 25), todavia, a um sujeito ativo, sem álibis no existir. E, assim, o diálogo e as interações sócio ideológicas com seus outros, funcionam como elementos que esboçam o encontro de palavras e atestam que é a diferença o único meio da constituição do sentido do homem, pois,

 

os seres humanos, o mundo humano, o sentido humano etc, nascem da diferença, do confronto, da distinção, [...]: se o sentido nasce da diferença, só na diferença podemos encontrar sentido. Assim se cada sujeito sabe dos outros sujeitos o que esses não podem saber de si mesmos, ao mesmo tempo todo sujeito depende dos outros para saber o que não tem condições de saber de si mesmo (SOBRAL, 2009, p 58).

 

Assim, é na singularidade do outro que encontramos a diferença, a identidade que se constrói pela alteridade. Pela diferença o sujeito reconhece o outro, percebe aquilo que ele vivencia, apreende, sobretudo, o horizonte social que evidencia as lacunas que só são visíveis do seu lugar, as fissuras que só podem ser preenchidas pela alteridade nas relações singulares, irrepetíveis e únicas.

Nessa obra, para leitores iniciantes nos Estudos Bakhtinianos, nosso Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso, se propõe a discutir as interações do outro a partir de sua singularidade nas mais variadas esferas discursivas. Vamos mais uma vez pelo caminho que sabemos ir: discutir a teoria de Mikhail Bakhtin e do Círculo olhando diretamente para as relações éticas que singularizam os sujeitos no existir da vida, olhando para o OUTRO SINGULAR como resistência, como lugar de identidade, como inacabamento, como constituinte do diálogo, como cronotopia, como ponte, como silêncio, como resposta, como enunciado, como persistência, como outros, mais outros e mais outros.

 

Hélio Pajeú

Valdemir Miotello

(Organizadores)

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