Palavras e Contrapalavras: O medo do outro PE811067

Palavras e Contrapalavras: O medo do outro

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Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe/UFSCar) !@
O medo do outro. São Carlos: Pedro & João Editores, 2019. 172p.
ISBN: 978-85-7993-758-3
1. Medo do outro. 2. Textos Bakhtinianos. 3. Estudos da Linguagem. 4. Autores. I. Título.
CDD – 410

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Apresentação

 

 

Mikhail Bakhtin e um conjunto de estudiosos que se reuniram com ele no começo do século XX, aqueles que mais tarde passariam a ser conhecidos como integrantes do Círculo de Bakhtin, propuseram uma discussão sobre a linguagem e sobre a vida que nos tem provocado muitas respostas: palavras e contrapalavras, como é o título principal desta série de livros. 

Esse conjunto de palavras e contrapalavras que compõem este livro se ancora, portanto, no caráter responsivo daquilo que dizemos, já que os enunciados querem sempre ser escutados, respondidos, discutidos. Nada é pior que o silêncio sepulcral em que repousam os “signos ideológicos defuntos”, aqueles que já não mais produzem reverberações no confronto de valores sociais vivos. Essa é a verdadeira praga da palavra: não circular, não ser ouvida, não encontrar resposta. Ir adiante é seu destino.  

Nessa perspectiva alicerçada na reflexão bakhtiniana, em que as palavras que emitimos são sempre e desde antes de outros, que surgem, assim, como respostas à alteridade, esta série teve seu começo em 2009 com a audaciosa tarefa de ser um caderno de estudos para iniciantes.

O Grupo de Estudos dos Gêneros do discurso (GEGe/UFSCar), já desde 2003 que lê, estuda e conversa com e sobre Bakhtin e o pessoal do Círculo de Bakhtin. E já há onze anos tem se envolvido com a produção destes livros, da série Palavras e contrapalavras, que é uma coleção de estudos, e que fez o grupo mudar muito; e nesse tempo todo, já por longos 16 anos, temos estudado juntos de maneiras diversas. No passado, a produção e a discussão dos capítulos foi feita, sobretudo, à sombra de uma frondosa árvore no Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos, que nos abrigava o tempo todo; lá lemos e conversamos tudo o que foi possível; lá foram gestados artigos, dissertações, teses, livros, eventos, viagens, vida; e agora estamos espalhados por lugares variados do país, e a geografia de nossa escrita se ampliou. Se no passado escrevíamos à sombra de uma árvore em que nossas conversas engordavam o caldo de nossas contrapalavras, hoje escrevemos de maneira outra, sem deixarmos, contudo, de estar em encontro por meio da palavra bakhtiniana, e que essa palavra sempre nos diga outros em relação a nós mesmos.

Nosso diálogo com Bakhtin durante os últimos anos se endereçou a algumas questões: no primeiro volume da série, em 2009, nossa tarefa foi glossariar conceitos, categorias e noções de Bakhtin; um ano mais tarde, nossa empreitada foi de conversar sobre os trabalhos de Bakhtin; em 2011, procuramos outras leituras de Bakhtin; em 2012, tivemos a coragem de enfrentar questões da metodologia bakhtiniana; no ano seguinte, circulamos pensares do Círculo; nossa tarefa de 2014 foi de constituir um sujeito em alter-ação; em 2015, cortejamos a vida na estética do cotidiano; no ano de 2016, lemos pedaços singulares do mundo com Bakhtin; em 2017, buscávamos entender o cotejo como proposta metodológica; em 2018, nos intrigamos com o outro singular e, finalmente, este ano, nos debruçamos sobre o problema do medo do outro[1].

O tema que desenvolvemos neste livro, como grupo de estudiosos que se encontra em torno da palavra bakhtiniana, está prenhe de uma perspectiva de futuro, qual seja, que nosso medo do outro – medo que ele nos destrua, nos esmague, nos aniquile, e antes, por causa do medo que alimentamos do outro, o destruímos, o aniquilamos, o excluímos de nossas vidas pessoais e sociais, tiramos dele as oportunidades, proibimos o outro de ser conosco – se transforme em um medo pelo outro – medo em um sentido que se teme pelo outro, se teme que lhe aconteça algum ruim, prejudicial, teme-se por sua impossibilidade de ser em uma existência singular. De fato, o medo pelo outro é um cuidado do outro, é uma superação do cuidado egoísta de si. O cuidado do outro supera e tensiona o cuidado de si.

Assim, nossa empreitada foi no sentido de um deslocamento possível da noção de medo pensada desde uma lógica identitária, projetando escaparmos dessa armadilha mortal por meio de uma relação que leve em conta o medo pelo outro na perspectiva de não-indiferença, da alteridade, de um humanismo que leve em conta o outro, como um outro centro de valor. Contra o humanismo da identidade, respondemos com o humanismo da alteridade.

 

 

Planeta Terra, planeta redondo, bonito, nossa casa,

21 de outubro de 2019.

 

Nathan Bastos de Souza

Valdemir Miotello

[Organizadores]

 



[1] Os fragmentos destacados no parágrafo remetem – às vezes, ipsis literis – aos títulos dos demais volumes da série.

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