Narrativas, formação de professores e subjetividades democráticas PE494829

Narrativas, formação de professores e subjetividades democráticas

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Adriana Alves Fernandes Costa; Renata Cristina Oliveira Barrichelo Cunha; Guilherme do Val Toledo Prado; Francisco Evangelista (Orgs.) !@
Narrativas, formação de professores e subjetividades democráticas. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. 207p.
ISBN 978-65-86101-31-7
1. Estudos de educação. 2. Narrativas pedagógicas. 3. Formação de professores. 4. Autores. I. Título.
CDD – 370

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PREFÁCIO

 

ou sobre a invenção de paraquedas coloridos

 

Já caímos em diferentes escalas e em diferentes lugares do mundo. Mas temos muito medo do que vai acontecer quando a gente cair. Sentimos insegurança, uma paranoia da queda porque as outras possibilidades que se abrem exigem implodir essa casa que herdamos, que confortavelmente carregamos em grande estilo, mas passamos o tempo inteiro morrendo de medo. Então, talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos (KRENAK, 2019, p. 62 e 63).

 

Com felicidade recebi uma ligação do Guilherme, conversamos sobre a vida nesses tempos impensáveis, isolamento social, dor, indignação e também sobre a forma como cada um de nós tem reorganizado a vida entre rotinas domésticas e intensificação do trabalho online. Mas a ligação trouxe também um convite, escrever o prefácio do livro Narrativas, formação de professores e subjetividades democráticas. Sentido etimológico de prefácio, “ação de falar ao princípio de”, falar ao princípio pelo espaço que este texto ocupa na organização dos livros, mas, temporalmente, falar depois dos escritos feitos, ler a tessitura composta pelos organizadores e autores, encontrar fios e sentidos, fazer a todos um convite à leitura. E foi assim, em tempos de quarentena, que li cada texto, fui me encantando, levantando questões, pensando como podem mobilizar reflexões junto às turmas de graduação, pós-graduação e também estar conosco nas escolas da rede pública, na discussão dos cotidianos, fazeres e políticas.

Quando Adriana Alves, Adriana Varani, Ana Aragão, Francisco Evangelista, Guilherme Prado, Juaciara Gomes, Liana Serodio, Luiza de Oliveira, Márcio Vianna, Renata Cunha e Raul França escreveram estávamos no contexto de perplexidade frente ao golpe parlamentar de 2016 e suas consequências, estávamos, por um lado, estarrecidos frente ao fascismo, colonialismo e discursos/práticas explícitas de exclusão, por outro seguindo em nossas microações cotidianas de resistência. As experiências vividas e partilhadas neste livro falam de movimentos possíveis, fortalecem nossas esperanças.

Hoje, meses depois de terem escrito, além desse contexto e desafios, passamos por uma crise sanitária e humana sem precedentes e, no Brasil, em meio a tantas adversidades, a necropolítica continua nos assombrando e cada dia mais temos a aguda percepção de vivermos uma política deliberada de morte, desumanidade e barbárie. Tudo que leio e faço vem permeado de sentimentos intensos, esta semana choramos todos a marca de 5.901 mortes do Brasil, vítimas de covid-19. Quem são essas pessoas? Quais os seus nomes e histórias? O que faziam no mundo e o que deixaram que agora precisa ser feito por nós?  O que precisa ser drasticamente alterado em nossa relação com o planeta e com as diversas formas de vida na Terra? O que precisamos aprender de forma muito singular e também de forma coletiva com tudo isso?

Somos insistentes, seguimos esperançando, reinventando a vida e é neste sentido que faço o convite à leitura do presente livro. Cada capítulo, a seu modo, nos ajuda nessa construção cotidiana.

Renata Cunha nos conta sobre “efeitos da leitura de narrativas pedagógicas na formação de seus estudantes de Pedagogia”, ingressantes na graduação de um Centro Universitário do interior paulista, o grupo se aproxima da escola levado pelas mãos de professoras narradoras. Na tessitura do capítulo Narrativas pedagógicas e efeitos de leitura entre estudantes de pedagogia a autora generosamente socializa conosco compreensões sobre o gênero narrativa pedagógica e sobre o conceito experiência. As narrativas das estudantes indicam a potência (trans)formadora da partilha narrativa na formação inicial.

Luiza Oliveira, Juaciara Gomes e Adriana Alves trazem o capítulo Narrativas de formação sobre o Programa Residência Pedagógica no curso de Licenciatura de Pedagogia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, buscando compreender os “trajetos formativos que constituem a formação da experiência docente”. As autoras apresentam o programa e a forma como foi desenvolvido na UFRRJ, o trabalho dos estudantes nas escolas e suas narrativas de formação e discutem os conceitos de experiência e formação. A residência pedagógica, programa desenvolvido no governo Temer, em um cenário de muitos conflitos, apontam para objetivos que implicam poucos diálogos entre universidade e escola básica, ao mesmo tempo em que acompanhamos a interdição lenta do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). As autoras tomam a realização da residência pedagógica como tática e afirmam “para nós, residência é lugar de morada, endereço que se refere ao lugar onde nos compomos como gente. Em nossa casa, nos alimentamos, dormimos, conversamos, discutimos, convivemos e nos formamos”. Uma casa que está sendo chamada, mais do que nunca, à permanente reconstrução, a outras formas de estar na vida, na formação e na profissão.

Em Percursos interpretativos de formação docente e discente, Liana Serodio e Guilherme Prado nos presenteiam com narrativas produzidas por profissionais da educação, pesquisadoras e pesquisadores do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (GEPEC), especialmente no âmbito de trabalho do grupo de estudos bakhtiniano, Grubakh. Os autores tematizam a narrativa com um acontecimento, um ato responsável e responsivo, caminham, e nos levam junto, pelo princípio estético e pelo dialogismo, indicando, com Boaventura Santos, as narrativas pedagógicas enquanto “percursos interpretativos libertos do paradigma dominante”. E fazem o chamamento: “ver e dar a ver. Narrar e compartilhar. Compartilhar e narrar novamente, com outros olhares, com outros participantes dessa esfera cultural que é o campo educacional em que nós aprendemos”.

Adriana Varani generosamente divide conosco reflexões sobre o Trabalho Coletivo docente como espaço de re-existência.  A partir de uma coleção de narrativas do Grupo de Estudos sobre Cotidiano e Trabalho Pedagógico (GRECOTIDIANO) que trazem “histórias de perseguição política, violência, autoritarismo e, por outro, narrativas das práticas de livre expressão, de formação pela autonomia, pelo trabalho, de autoria”, a autora nos conduz em uma reflexão sobre o trabalho docente, sua dimensão coletiva e potência de re-existência. “Há um caráter político em estar com o outro; na relação de diálogo, de cooperação, de solidariedade, os sujeitos se fortalecem”.

Raul França e Ana Aragão apresentam o capítulo O podcast como estratégia de ensino na licenciatura, nomeadamente em uma disciplina de Psicologia e Educação, ministrada para cursos de licenciatura da UNICAMP. Além das propostas que já fazem parte da disciplina, incluíram a produção de podcasts sobre os conteúdos trabalhados. Inicialmente apresentam e historicizam o conceito e o modo de funcionamento do dispositivo e tematizam de que forma pode contribuir para o aprendizado dos estudantes. Os autores contextualizam a disciplina na proposta formativa dos cursos oferecidos pela Faculdade de Educação e socializam a experiência de trabalho com o podcast como atividade didática, tomando como princípios a autoria e a reflexividade. Diferentemente do texto acadêmico, o dispositivo proposto “tem como características a informalidade e a proximidade do ouvinte. É como uma conversa”. Os estudantes trabalharam em grupos, prepararam roteiros e viveram um caminho instituinte de trabalho com os conceitos da disciplina. Quando os autores escreveram estávamos todos lá, estudantes e professores nas salas de aula da FE, eu li agora, quando estamos buscando alternativas e encontros possíveis com nossas turmas nesse tempo de isolamento social e os podcasts se tornaram companhias cada vez mais presentes em nosso cotidiano.

E vamos finalizando o caminho de leitura agora com a discussão sobre Contextos e formação de professores no Brasil entre os anos 2017-2019, mediada por Adriana Alves e Márcio Vianna. Os autores tecem um painel sobre movimentos da formação de professores no período de 2017 a 2019, o objetivo foi dirigir um olhar “sobre determinados acontecimentos políticos e educacionais que configuraram as políticas de educação enviesadas para o âmbito docente, e que culminaram em importantes transformações e/ou extinções de programas ou medidas, em determinados casos”. Somos conduzidos por uma reflexão que traz o ambiente sociopolítico do período, a seguir encontramos um conjunto de políticas e/ou programas que foram afetados pelo referido contexto e indicações de rumos da sociedade brasileira. Texto de leitura fundamental, dimensiona desafios e nos conclama ao posicionamento e à ação.

Nos encontros, produções e ações do Gepec estamos sempre reafirmando a indissociabilidade entre as narrativas e os contextos históricos, sociais e políticos. Nossas histórias de vida, auto-bio-grafias são inscritas na tensão entre táticas e estratégias[1]. O painel trazido por Adriana e Márcio indica a força das estratégias, as narrativas dos profissionais da educação que encontramos nos demais capítulos falam do miudinho, das táticas, artimanhas dos fracos, que vão abrindo espaços potentes para invenção de paraquedas coloridos, sim, vamos juntos! A queda é inevitável, mas podemos fazer paraquedas delicados e ao mesmo tempo fortes, resultado de trabalho intenso e prazeroso.

Os textos partilhados neste livro trazem construção do conhecimento científico, socialmente referenciado e, ao mesmo tempo, formação humana e de professoras/es pesquisadoras/es, ensino, pesquisa e extensão se entrelaçam, se misturam em fios. A narrativa, como prática humana, e as narrativas pedagógicas, como práticas de profissionais da educação são, para nós, caminhos de pesquisaformação, de resistência, de re-existência só possíveis pela presença de muitos outros em nossas histórias, de lutas e desafios, hoje, mais do que nunca pela manutenção da vida, pela formação, pela democracia.

 

Inês Ferreira de Souza Bragança[2]

 

Campinas, 1º. de maio de 2020.



[1] CERTEAU, Michel de. As artes de fazer: invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1998.

[2] Professora da Faculdade de Educação da Unicamp e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Educação Processos Formativos e Desigualdades Sociais da FFP/UERJ.

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