Ensaios de dialogismo PE197979

Ensaios de dialogismo

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Edson Nascimento Campos; Herbert de Oliveira Timóteo; Mariano Alves Diniz Filho !@
Ensaios de dialogismo. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020. 124p.
ISBN: 978-65-87645-16-2
1. Estudos bakhtinianos. 2. Dialogismo. 3. Grupo de Estudos Bakhtinianos de Belo Horizonte (GEB-BH). 4. Autores. I. Título.
CDD – 410

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Uma carta em diálogo amoroso

 

 

Queridos amigos Edson, Mariano e Herbert,

 

1.     Tem sido muito bom esse contato com o material que enviaram do livro de vocês. Sei que esse livro é mais um passo nessa caminhada longa e de muita conversa que vocês três têm desenvolvido em Belo Horizonte, semanalmente, sem faltar uma que seja. Um grupo de estudos, um círculo bakhtiniano, que lê, estuda, discute, escreve, pesquisa. E já temos convivido há muitos anos nos eventos de conversas bakhtinianas, em São Carlos e em outros lugares, e sempre numa convivência amorosa e de escuta intensa.

2.     O tema que vocês escolheram pra desenvolver seus estudos é central nos trabalhos bakhtinianos. O dialogismo. O diálogo. Nos estudos de Bakhtin o diálogo não é um movimento em direção ao outro. Não sou eu que devo empreender o diálogo, pra que ele se dê. Até porque ele não se dá no nosso ponto de vista, não se encontra no nosso sistema de valores, não se dá em nosso próprio pensamento, e não é da nossa própria voz.  O diálogo não é o que resulta de nossa iniciativa de conversar ou de dialogar com outra pessoa. Ele não é lugar da iniciativa do eu. O diálogo é o lugar da constituição do eu. É no diálogo que o eu se manifesta. De fato, o diálogo revela a incurável dependência do eu ao outro. É no diálogo que o eu é irreversivelmente eu, porque a inevitável presença do outro o coloca nessa posição.

3.    O diálogo não depende do respeito que eu tenho pelo outro. Pra que o diálogo exista, não há necessidade de o eu se decidir a respeitar o outro. Nem há necessidade de o eu desenvolver uma atitude de abertura ao outro. Nem de uma abertura positiva, fraternal, que respeita a não coincidência do outro comigo. Nem de uma atitude ríspida que não respeita a não coincidência do outro comigo. Nem que seja uma radical coincidência ou radical não coincidência. Não é disso que o diálogo precisa pra se instaurar. O diálogo, ao contrário, se dá por conta da impossibilidade de fechamento do eu ao outro. Não há como o eu se fechar ao outro. Nunca. De nenhum jeito.

4.    O diálogo se dá por conta da total impossibilidade de indiferença ao outro. Esse é o reconhecimento da diferença não-indiferente. O eu não tem álibi pra escapar em relação ao outro. E tanto faz se por relação amorosa ou de ódio, de hostilidade ou de aparente indiferença. Seja qual for a postura, o outro conta acima de tudo. A arquitetônica do eu, em todos os momentos, independente dos valores que se dão, do espaço, do tempo, dos eventos, é sempre uma arquitetônica que diz respeito ao outro. Sempre. É o diálogo que é a própria alteridade constitutiva da arquitetônica do eu.

5.    Nessa relação de diálogo não há lugar pra vários “eus”, e nem é possível a troca de papeis e de lugares. Isso resultaria em relação atomizada, democratista e individualista, com um único centro de valor.  Não há dois eus. Há sempre um eu e um outro, em relação. E dessa situação o eu não tem escapatória, não tem álibi, ele vive constantemente emaranhado nesse envolvimento com o outro. É nessa situação que o diálogo se dá, sem chance de não se dar, sem possível substituição por outra situação, e o eu não pode realizar sua independência com relação ao outro, nem sua indiferença, nem pode fugir de seu olhar e de seu juízo. A presença do outro nessa arquitetônica é implacável, não posso abstrair, não posso idealizar. É uma presença concreta, firme, encarnada, seja no plano corporal ou no plano histórico-social. A relação que se dá é intercorpórea, consciência rostificada. O diálogo é diálogo entre vozes, vozes não monológicas, mas entre vozes inteiramente dialógicas e separadas, E a voz é a posição ideológica, o jeito de viver o mundo, os valores, encarnados no mundo. A entonação é uma encarnação no mundo.

6.    Não consigo me aproximar do outro e compreendê-lo na sua alteridade transformando-o em objeto. Objetificar o outro é converter ele em mudo, em coisa. É desumanizar. É me reportar a ele falando sobre ele. É uma traição, um apunhalar pelas costas. Na relação com o outro minha posição é de escuta. Uma palavra própria sempre vai aludir a uma palavra outra. O diálogo da palavra com a palavra outra garante a dialogicidade, pois que dentro da palavra estão as vozes, vozes contraditórias e tensas, sentidos diversos em luta, e que alimentam a consciência.

7.    Também não consigo forçar o outro a se revelar, me fundindo com ele, num movimento de empatia sem volta, de identificação com ele. Sendo assim, se isso fosse possível, haverá apenas um excedente do outro, e eu apenas duplico o outro, jogando fora meu distanciamento e minha identidade, esse lugar inescapável. Somente se pode revelar o outro por meio de trocas dialógicas. Aqui se dá o diálogo de um humano com outro humano, tanto para o outro quanto para eu mesmo. Assim, o diálogo exige distanciamento, um diante do outro em relação, numa distância que impeça a fusão, a síntese aglutinadora e apagadora de vozes, e que mantenha nesse excedente de visão as possibilidades constitutivas da diferença não-indiferente. É no diálogo que nos constituímos permanentemente. Não me constituo fora do diálogo, não pré-existo ao diálogo, e nem me completo no diálogo.

8.    A incompletude é uma característica do homem em diálogo, e sua vida. Eu sou pensado e penso, logo ainda não-sou. Sou um ainda-não. A cada nova relação, a cada novo diálogo, novas possibilidades de sentido e de alargamento de minha consciência e da consciência do outro se apresentam e são exploradas, nessa relação tensa e construtiva. A completude é o fim, o acabamento. A vida é dialógica por natureza, vivida na abertura ao outro, ao ainda-não. Viver significa participar de um diálogo!

9.    É assim que Bakhtin constrói sua proposta de diálogo conosco, se contrapondo à dialética hegeliana e aos seus derivados histórico-dialético e dialético-materialista, com sua dialógica, no grande diálogo da vida, nesse encontro amoroso e tenso, entre o outro e eu.

10. Agradeço ao Bakhtin, ao Ponzio e ao Geraldi. Deles roubei todas as ideias aqui conversadas. E agradeço a vocês, rapazes mineiros, amigos de coração, pela chance de me escutarem. Estou também na escuta. Muito obrigado

 

Miotello, Valdemir

Teresópolis, julho de 2020

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