Encontro de palavras. O outro no discurso PE416520

Encontro de palavras. O outro no discurso

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Augusto Ponzio !@
Encontros de palavras. O outro no discurso. Pedro & João Editores. São Carlos. 2018. 179 p.
ISBN 978-85-7993-028-7 [1ª edição]
ISBN 978-85-7993-535-0 [2ª edição]
1. Discurso. 2. Palavra do Outro. 3. Bakhtin. 4. Ideologia. 5. Dialogismo. I. Autor.
CDD 410

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O acrobata e sua sombra

  

O acrobata se situa na fronteira entre a arte e a vida. Não é um equilibrista. O caminho do equilibrista é reto e unilinear. Já o caminho do acrobata, pelo contrário, é feito de evoluções circulares, move-se continuamente em direções inconstantes. O acrobata é atópico.

Seu amigo Zaratustra conheceu um equilibrista. Um dia, este andava numa corda bamba, e para piorar, entre duas torres. Quando ele estava na metade do caminho, eis que, da porta da torre  que havia deixado para trás, surge uma espécie de palhaço que se juntou a ele, e, saltando sobre seus ombros, ultrapassou-lhe. O equilibrista, vendo que o palhaço o havia ultrapassado, perdeu a cabeça e o equilíbrio, caindo no vazio.

O acrobata não tem um objetivo. Ele não pode perder o jogo porque ele não tem nada a perder, exceto seu tempo, que escapa da lei da economia. E mesmo quando se apresenta dentro de suas possibilidades, a sua leveza lhe preserva dos passos em falso.

O acrobata não é um ator que desempenha um papel na cena, como deve fazer o palhaço, ele incorpora uma forma particular de existência, entre o concreto e o ideal, o real e o utópico, onde nascem a arte e a vida.

Seu tempo é o da festa, da crise e da subversão, da morte e da ressurreição, da sublevação e da renovação. Ele encarna o autêntico festival do tempo e do devir que rompe a estabilidade e a continuidade, as regras, as ordens, os valores, as normas e as proibições. O acrobata está no tempo do carnaval.

O acrobata é, por vezes, engajado e alienado, hostil a qualquer pretensão de fixar as coisas em uma ordem definitiva, ele se dedica a nos fazer ver o mundo de cabeça para baixo, sob uma perspectiva alegremente relativizada.

O acrobata se aproxima das crianças. Ele não tem um corpo definido e pronto, mas, como Alice, que, nesse caso, pode lhe simbolizar, ele tem um corpo móvel, ao qual o alto e o baixo, o próximo e o distante, o pequeno e o grande podem, em qualquer momento, serem postos de pernas para o ar, ou invertidos de maneira nada previsível.

O acrobata dança entre a vida e a morte. Como a criança, desenha uma jiboia sonolenta digerindo um elefante, ele sabe que todas as coisas, mesmo as coisas tão grandes como um elefante, cedo ou tarde, acabam engolidas pelo sono da morte. O desenho, como sabemos, só quer expressar o que o pequeno artista deseja comunicar: a confusão e o terror. As pessoas somente vêem aquilo que as tranquiliza, e um elefante que desaparece inteiramente não tem nada de tranquilizador.

Um dia, o acrobata corria e percebeu que sua sombra o perseguia. De repente, rindo de seu próprio temor, ele parou e observou sua sombra. Ele percebeu que era sua imagem, sua caricatura, seu duplo grotesco. Então ele percebeu que era simultaneamente o próprio e seu gêmeo paródico. Ele decidiu então se revelar por sua caricatura, através de outros movimentos e por esse outro que lhe era caricatural, pantomímico e ridículo. Isso conferiu ao corpo do acrobata uma característica ao mesmo tempo cômica e trágica, grave e leve.




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