Da leitura à narrativa PE100
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Da leitura à narrativa

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Fabiana Giovani !@
Da leitura à narrativa. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018. 229p.
ISBN 978-85-7993-587-9
1. Estudos bakhtinianos. 2. A aula como acontecimento. 3. João Wanderley Geraldi. 4. Autora. I. Título.
CDD – 410

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Aula como acontecimento: O ACONTECIMENTO

 

Fabiana Giovani

 

 

Tenho a honra de dizer que João Wanderley Geraldi fez a diferença na minha vida ainda quando era aluna. Não sei se devo intitulá-lo aqui como professor, como pesquisador, ou como “orientador” que me “adotou” em uma de nossas conversas, quando manifestei que gostaria de tê-lo mais perto para com ele aprender mais do me ensina, se é que isso é possível... relação existente como a que o próprio Geraldi denomina “escolas de sábios”, nas quais havia uma reunião entre um sujeito que pensava e outros sujeitos, não como alunos, mas como “discípulos” que aprendiam a caminhada da autonomia e reflexão. O professor Geraldi, hoje aposentado, ainda assim tem me ensinado a produzir conhecimento. Ao menos tentar fazê-lo.

Em meados dos anos 2004, finalizando o curso de Letras noturno e trabalhando durante o dia, fui tomada pelo ímpeto de fazer pós-graduação, mestrado. Naquele momento, não sabia bem do que se tratava e o que poderia me trazer, mas a minha sede pelo conhecimento e pela vontade de “ser” eram maiores do que o meu entendimento. Foi no mestrado que li, pela primeira vez (ao menos com consciência!) os textos da coletânea organizada por Geraldi “O texto na sala de aula”. Não preciso dizer que dela fui navegar pelas águas de “Portos de Passagem” e talvez tenha naufragado em “A aula como acontecimento”, no qual encontro-me à deriva até os dias de hoje.

Só que não estou sozinha. Professora de uma universidade pública desde 2011, tenho os meus alunos como companhia no naufrágio. Pelo menos tenho a intenção de tirá-los da terra firme, abandonar as certezas com as quais, tão convictos, ingressam no curso de Letras.

Ainda no primeiro ano do curso, quando os encontro pela segunda vez, no segundo semestre letivo em uma disciplina denominada “Linguística Aplicada ao ensino do Português”[1], marco como leitura obrigatória o texto “A aula como acontecimento” que, alguns anos depois de escrito, passou a fazer parte de uma coletânea de excelentes textos sob esse codinome.

Evidente que após a formação advinda da reflexão de Geraldi, não poderia limitar a mim e a meus alunos à leitura e discussão desse texto! A aula como acontecimento[2] deve ser vivida metalinguisticamente[3]! Então, partindo dessa premissa de que a aula deve ser um acontecimento, peço a eles uma tarefa a partir da leitura: escrever um texto, cujo gênero esteja no interior das inúmeras possibilidades do “agrupamento narrativo”, com as suas compreensões advindas dessa leitura. Em outras palavras, os alunos deveriam construir uma narrativa[4] a partir do texto lido.

Tarefa que parece simples a um primeiro olhar, mas nem tanto quanto parece se o olhar for mais criterioso. E por alguns motivos. Tentarei explicitá-los, ainda que estejam embolados como em um novelo de lã. A prática escolar[5] lida tradicionalmente com tipologias textuais, a saber: narração, descrição e dissertação. “Redações”[6] de caráter narrativo são escritas pedidas no intermédio do ensino fundamental, desaparecendo nas séries finais do fundamental e Ensino Médio em que a bola da vez é a ‘dissertação’, já que é o “gênero” cujo almejado domínio possibilita a poucos dentro da grande peneira continuar os estudos em nível universitário. Aqui está o primeiro entrave dificultador da escrita. Os sujeitos dessa escrita podem ser considerados recém ingressos a um curso superior e, portanto, alguns estão habituados à escrita de texto dissertativos e outros - grande parte deles -, há muito não escrevem... ainda mais textos de caráter narrativo.

E ao falar em sujeitos, já nos leva a outro entrave. Sem mencionar explicitamente fatores político-sociais aqui, estamos falando de uma época de democratização do ensino superior público[7]. A começar pelo contexto da universidade do qual eu e meus alunos fazemos parte. É preciso voltar um pouco na história. Há doze anos, no dia 27 de julho de 2005, o então presidente da República, Luiz Inácio “Lula” da Silva, anunciava para um público estimado em 40 mil pessoas, em um palanque montado na Praça Silveira Martins, na cidade de Bagé/RS, a criação da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Instituição multicampi de Educação Superior, tendo seu funcionamento desde 2006, materializa uma conquista histórica para toda a região de fronteira do Estado.

Cheguei a essa instituição em 2011 e desde então, acompanho não só a democratização desde um ponto de vista particular e pessoal - já que pobre, filha de operário, estudante de escola pública, passei a compor o quadro de professores, porque, doutora, entro na instituição pela porta da frente, sendo aprovada em concurso público[8] - mas de um ponto de vista geral e público, já que convivo com um grupo de estudantes o mais diverso possível. Tratam-se de alunos que compõe uma faixa etária de 17/18 anos - recém-saídos do ensino médio - até 60/70 anos que há muito não pisavam na escola. Nesse intermédio, temos homens e mulheres, donas de casa, desempregados, estudantes, comerciários, militares[9], professores da educação básica, aposentados, carcereiros, manicures, motoristas, pessoas que cursaram normal, telecurso, EJA, ensino médio politécnico, etc, etc. Enfim, toda a desigualdade resume-se em diferença na sala de aula e em igualdade na formação que recebem: na universidade, são licenciandos do curso de Letras. Querendo ou não, ao final do curso, serão professores de língua materna.

Situação desafiadora para o formador que concebe a educação como um trabalho com o ser humano singular, essencialmente histórico, porque constrói a cultura que passa por tradição de geração a geração. O conhecimento, dessa maneira, apropria-se de culturas e conhecimentos das gerações anteriores, preparando um futuro nos acontecimentos, nas interações do presente. E quantas interações no aqui e agora desde o ontem até o amanhã!

Quantas compreensões sobre língua, ensino, aprendizagem, professor, aluno e escola! Sem contar que muitos entram no curso almejando outros lugares: tenho observado, com o tempo, que o mais desejado é direito, mas, que por falta de condição, acabam escolhendo Letras. Em geral, o que mais brilha os olhos dos alunos ao dizer que escolheram trilhar o caminho das Letras é dominar a gramática culta da língua! Quanta desilusão quando são obrigados a tirar a venda dos olhos e olhar para a linguagem heterogênea e multifacetada que constituem sujeitos vivos, concretos e reais, que falam “bicicreta” e carregam o direito de continuar assim falando em seu meio sócio interacional, ainda que outro dialeto lhes for possível dominar.

Mais desilusão ainda quando tomam conhecimento das questões envolvendo leitura e, principalmente, escrita. E nesse choque, ainda no primeiro ano do curso, são chamados a construírem narrativas a partir da compreensão de um texto teórico. Proposta que causa espanto, já que na universidade, narrativas referem-se às canônicas - parte do conteúdo que estudam nas aulas de literatura. A um estudante universitário resta dominar a escrita de ensaios, artigos, resumos, resenhas e outros nomes que fazem parte de um tal de letramento acadêmico.

Narrativa?

Sim, e eles fizeram. Dentro de seus (des)limites e (in)compreensões. E serão todas apresentadas aqui e agora[10]. Mas, no sentido de preservar a diversidade, no caminho oposto da desigualdade, não é possível olhar para os textos com os óculos da avaliação, no sentido de atribuir uma qualidade boa ou má às escritas e, consequentemente, a seus sujeitos. É importante ressaltar que todas as narrativas escritas são apresentadas porque a proposta teve por objetivo ser um espaço aberto para todos os alunos da turma, sem seleção. Desse modo, as narrativas demonstram uma heterogeneidade da sala de aula o que, como verá o leitor, foi muito enriquecedor.

As histórias, em sua maioria[11], trazem muito além da compreensão do texto lido. Marcam acontecimento(s) da vida dos sujeitos que se desnudam ali. E que, certamente, fazendo-os pensar no presente, com os pés no passado, os farão diferentes. Desse modo, foi emocionante saber que a compreensão vem colada a histórias de vida. De sujeitos felizes e infelizes com a escola; de bons e maus relacionamentos com o professor. Relacionamento com os pais, com a sociedade. Com as ideologias. Enfim, são acontecimentos únicos que, juntos, formam esse todo enunciado dialógico que requer a compreensão singular de um leitor enquanto um também “acontecimento”.

De posse das narrativas escritas, levei-as para serem compartilhadas entre os sujeitos autores, mas, no momento da leitura, sem a marca explícita de autoria. Embora tenha sido contextualizado o porquê, para quê e para quem escrever, não poderia expor os sujeitos autores em seus acontecimentos mais singulares, correndo o risco de inibi-los e/ou criar um clima de ‘avaliação’ das narrativas. O momento compartilhado de histórias vividas foi muito enriquecedor e reflexivo.

Enfim, gostaria de dedicar o trabalho desenvolvido ao professor João Wanderley Geraldi como uma forma de homenageá-lo. Aposentado, dedicou grande parte de sua vida profissional à formação de professores e deixou um legado de como - a partir dos acontecimentos envolvendo linguagem e educação - fazer pesquisa e ciência. É fato que este lugar que ele ocupou – e ainda ocupa – é olhado por inúmeros cientistas como ‘menor’, ‘pequeno’, afinal, qual é o valor da escola e da educação em nossa sociedade? Esse questionamento toma uma preocupação maior diante do momento político em que estamos vivendo, 2018, em que corremos o risco de perder a nossa liberdade, nosso livre arbítrio no viver. O que acontecerá com a escola? Aos professores de educação básica? Aos futuros professores em formação em um curso de licenciatura? E a nós professores universitários que, envolvidos com a formação de professores de linguagem, pautamos o nosso fazer nos acontecimentos da vida da escola (e da escola da vida)?

Espero que como eu, muitos outros reconheçam a importância do sábio professor Geraldi que é referência nos estudos de ensino/aprendizagem de língua e que é sempre tão disponível e solícito para atender as demandas da vida – profissional, mesmo em seu merecido descanso. Para finalizar, nada melhor do que ficar com as palavras deste grande pesquisador – professor – ao final da coletânea que, gentilmente, aceitou o convite de escrever o epílogo e assinar a obra comigo. Sem saber o que nos reserva o amanhã, que este seja um exemplo da liberdade de construirmos as nossas narrativas singulares e cheias de vida vivida. Que os acontecimentos não sejam tolhidos nem roubados.

Aos acontecimentos!



[1] A disciplina com essa ‘configuração’ foi ministrada pela primeira vez em 2014. Isso se deve à reformulação que fizemos no Curso de Letras de nossa universidade, transferindo essa reflexão para os semestres iniciais do curso e não mais para o final como se encontrava anteriormente.

[2] GERALDI, J. W. A aula como acontecimento. São Carlos: Pedro & João editores, 2010.

[3] O texto dispensa os meus comentários. Opto por indicar a leitura aos que desconhecem até mesmo antes de ler as narrativas da coletânea.

[4] A escolha do gênero (se conto, se fábula, etc) ficou livre.

[5] Ainda que tenhamos, hoje, uma gama de pesquisas e reflexões sobre os gêneros do discurso de Bakhtin, inclusive, nos documentos oficiais orientadores de ensino da língua materna, sabemos que a ortodoxia escolar ainda fala mais alto.

[6] Nomenclatura que, como apresenta Geraldi em uma de suas reflexões, deveria ceder lugar à produção de textos, já que nesta, parte-se de um querer dizer, instaurado por um locutor, dirigido a um interlocutor e, o que é mais importante, está situado em um contexto

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Apresentar João Wanderley Geraldi é chuvisco em dilúvio. O tanto de textos já publicados dele, a quantidade imensa de palestras, conferências, bancas, aulas, falas de todo jeito, conversas, risadas, gargalhadas, abraços, inundam seus amigos, seus leitores, os que com ele participaram de pequenas e grandes revoluções, espalhadas por todo esse imenso país, e pelo exterior também. Revoluções profundas. Largas. Amplas. Nos sujeitos e nos seus que-fazeres. Digam ai se exagero?
Esse livro já estava organizado há uns dois anos ou mais. Mas o Geraldi sempre relutante... “Todos já conhecem esses textos...”; “há muita coisa repetida nestes textos...”; “esses textos já não interessam a mais ninguém...”. Bem, pra sabermos disso tudo só mandando esses textos andarem mais ainda pelo mundo, pelos olhos, pelas almas, pelos atos responsáveis e atos irresponsáveis. Continuar a revolução. Alargar as mentes, os corações, as relações. Deixar a palavra andar, circular. Palavra livre. Palavra provocante. Palavra vida.
Mais uma vez temos orgulho de participar dessa andança destas palavras do Geraldi. Que todos se aproveitem de sua força e da clareza possível de seus pronunciados e ditos. Queremos mais.
Boa leitura. Boa vivência!

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